menu
Topo

Sexo


Sexo

Sangue, agulhas e chicotadas: como foi o "Prêmio Destaques do BDSM"

Arquivo Pessoal
A organizadora do evento Valentina Severo posa com seus submissos Imagem: Arquivo Pessoal

Jacqueline Elise

Da Universa

13/02/2019 04h00

Quem passa por Santo André, em São Paulo (SP), não imagina que onde costumava ser uma casa de repouso, em uma das principais avenidas da cidade, se tornou um ambiente exclusivo de sadomasoquismo. O SM Club foi fundado para que adeptos do BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) vivam seus fetiches sem pudor. No último sábado (8), o local também abrigou a primeira edição do prêmio "Destaques do BDSM", celebrando os membros que mais marcaram a comunidade em 2018.

Com direito a dresscode (o traje exigido era de gala, estavam todos usando vestidos longos e terno), o evento juntou pessoas que queriam trocar experiências, praticar um pouco e assistir aos outros batendo, apanhando, sendo amarrados, beijando pés, entre outras coisas. A noite foi marcada pelos estalos de chicotes, homens vestidos de cachorro e até perfuração nas costas com agulhas --tudo feito de forma consensual, com itens esterilizados e, mais importante, com todo mundo feliz.

O "Oscar do BDSM"

Serena Sly, 40, é cofundadora do clube e uma das idealizadoras da premiação, que surgiu como uma brincadeira. "Foi uma amiga minha que viu uma foto do Oscar e brincou 'a gente poderia fazer um Oscar do BDSM'. Nessa brincadeira, a gente criou o evento. A intenção é reconhecer aqueles que ajudam a comunidade, que divulgam eventos e tentam unir pessoas de fetiches diferentes", explica. 

Organizada pela dominadora e radialista Valentina Severo, 40, a premiação contava com categorias que abordavam diversas facetas do BDSM: personalidade dominante de destaque em 2018, submisso do ano, destaque em age play (brincar que tem idade diferente da real), podólatra do ano, loja BDSM mais querida pelo público, ícone da tortura genital e praticantes do bondage de 2018. Algumas delas, como dominador e submisso, eram divididas por gênero como se fosse Oscar para melhor ator e atriz. Outras não tinham distinção de personalidade masculina e feminina.

Durante o evento, o que ficou em evidência foi como as mulheres brilham no meio BDSM: elas foram reconhecidas na premiação como as melhores na maioria dos quesitos, até mesmo naqueles em que competiam com outros homens praticantes.

Valentina Severo, a voz dominante no rádio

Cercada por quatro de seus submissos, todos encoleirados, a dominatrix Valentina andava para lá e para cá durante o evento, atendendo a todos que estavam lá. Ela foi a organizadora e apresentadora do prêmio, que foi transmitido ao vivo pelo canal no YouTube de sua rádio online, a Rádio Agita Planeta, na qual passa seus conhecimentos sobre BDSM e entrevista praticantes. 

Divulgação
A dominadora Valentina apresentou as categorias e os vencedores da noite Imagem: Divulgação

"Conheci o meio há sete anos e, mexendo na internet, vi que tinha pouca informação sobre BDSM nas redes sociais, por isso decidi criar um programa de rádio sobre o assunto, para apresentar o tema às pessoas", conta. Valentina veio do interior de São Paulo e diz que, apesar de ter aguentado "cara feia" de algumas pessoas quando se assumiu praticante, teve uma aceitação muito boa no geral. E adora ver a celebração das mulheres no meio BDSM e na premiação: "O apoio dos homens às dominadoras e submissas é muito grande".

Vaca Profana, a libertina

Vencedora do prêmio "Personalidade Fetichista" da noite, a brasiliense Vaca Profana, 52, é inconfundível: andava pelo evento usando uma tiara com orelhas e chifres de vaca e um sino no pescoço. Quando ganhou na sua categoria, não recebeu aplausos, mas mugidos. 

Divulgação
Vaca Profana foi a personalidade fetichista de 2018 Imagem: Divulgação

"A Vaca surgiu ainda nessas salas de bate-papo. Todo mundo chamava as meninas de cadela, foi aí que eu pensei: o que é pior do que ser chamada de cadela? É ser chamada de vaca. E eu sempre fui apaixonada pela música 'Vaca Profana' [composta por Caetano Veloso e famosa na voz de Gal Costa], daí veio o nome: 'Vaca' porque é um xingamento extremo, e 'Profana' porque eu gosto quando profanam meu corpinho". 

Bem-humorada, Vaca se considera libertina, e encontrou na submissão uma forma de ter prazer. "Ser libertino é aquele que não se prende às travas morais da sociedade. Se meu tesão não é criminoso, não tem porque eu me podar. Claro que, em sociedade, eu sigo as regras, mas se nesse espaço aqui eu posso viver livremente, por que não dar vazão a isso?".

Alê Luz, a switcher do ano

Logo no início do evento, Alê Luz, 45, estava na masmorra praticando como dominadora. Naquela noite, ela ganhou como "Personalidade Switcher" de 2018: ou seja, foi destaque tanto como dominante quanto como submissa. Alê descobriu o BDSM há 10 anos e viveu a cena paulistana desde a época dos clubes exclusivos, então tem grande experiência na área --e avisa que para chegar nesse nível precisa estudar muito.

Divulgação
A switcher Alê Luz tem anos de experiência no BDSM Imagem: Divulgação

"BDSM tem história e ideologia, é uma subcultura. Com o lançamento do 'Cinquenta Tons de Cinza' criou-se uma fantasia errada sobre o BDSM: aqui, não é só bater e apanhar, não é só dizer aos outros 'sou dominador' e não aprender as práticas. O que muita gente não vê é o que eu estava fazendo agora: eu estava na masmorra, batendo em um homem, mas eu sempre parava para perguntar se ele se sentia bem, dava beijo, perguntava se não estava indo longe demais. É importante isso", afirma.

Allana Prado, a sádica do chicote rosa

A cearense Allana Prado, 27, foi eleita destaque em 2018 no spanking (prática na qual a pessoa no comando bate em alguém com diversos instrumentos). Ela, que é mulher trans, diz que enfrentou resistência no meio para ser levada a sério como sádica e transgênero.

Divugação
A dominadora Allana Prado virou referência na prática do spanking Imagem: Divugação

"Já teve vezes nas quais eu ia aos eventos e todo mundo parava para assistir aos homens dominando. Quando eu ia fazer uma cena, todos davam as costas. Foi aí que eu decidi que eu não poderia ficar quieta: mudei a cor dos meus acessórios, comecei a usar dois chicotes ao mesmo tempo, portar um chicote de dois metros... Foi aí que pararam para me olhar", conta. Hoje, ela é conhecida como "a sádica do chicote rosa". "Esse prêmio é um reconhecimento, uma lembrança de que tem gente que gosta de mim, que me aceita e admira o que eu faço".

O clube dos escolhidos

Apesar da formalidade dos trajes naquela noite, os convidados se sentiam à vontade para ir aos quartos específicos de BDSM da casa: uma "masmorra", que conta com gaiola e estruturas para prender pessoas. Há também uma sala dedicada à prática do shibari, para quem curte amarrar ou ser amarrado. O SM Club tem um bar, cozinha e vários espaços para socializar e assistir a tudo que acontece nos outros espaços.

Divulgação
Serena Sly e Luiz Segger são os donos do SM Club Imagem: Divulgação

Serena e seu parceiro (e dominador) Luiz Segger, 55, contam que estavam procurando um local onde pudessem vender os brinquedos eróticos que fazem e já comercializam online. Mas, ao encontrar a casa que hoje abriga o SM Club, viram uma oportunidade de ressuscitar o espírito dos clubes de BDSM antigos, onde só entravam convidados e pessoas que eram personalidades no meio.

"Abrimos toda sexta e sábado, mas só para quem conhece. Quem passa em frente pensa que aqui é só uma residência, porque a intenção é essa: só entra quem sabe o que é BDSM, quem sabe que criamos o negócio, quem vive isso em sua essência", explica Segger, que é praticante há 15 anos. O clube está em funcionamento desde julho de 2018 e já entrou no circuito de casas de BDSM em São Paulo --pelo menos para quem sabe onde ela fica.