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Lembranças materiais do ex: guardar ou jogar tudo fora?

Getty Images/iStockphoto
É preciso avaliar se manter as lembranças guardadas pode te fazer bem ou não Imagem: Getty Images/iStockphoto

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

08/02/2019 04h00

Posts e imagens em redes sociais são uma forma de contar e preservar nossa história no universo digital. Apagá-los, assim como desfazer amizades e bloquear pessoas, de certa forma, ajuda a minimizar o sofrimento quando um relacionamento não dá certo. No mundo real, porém, é mais complicado se desfazer das recordações de um romance malsucedido, principalmente quando existem lembranças materiais --peças de roupa, souvenirs de viagens, fotografias impressas, presentes, ingressos de shows, bilhetinhos etc. 

Lidar com todo esse memorial não é uma tarefa fácil, principalmente quando os sentimentos ainda estão confusos e o término não foi bem digerido. Há quem opte por simplesmente colocar tudo num saco de lixo e jogar fora, mas nem sempre essa decisão é tomada de forma racional. "Nada que é feito impulsivamente é bom. Temos sempre que refletir e entender o que estamos vivendo e o que queremos com as atitudes que iremos tomar, além de considerar suas consequências. É fundamental ponderar e equilibrar a razão e a emoção que envolvem a situação", afirma Priscila Gasparini Fernandes, psicóloga e psicanalista, de São Paulo (SP).

Mesmo porque há términos que são temporários, conforme salienta Joselene L. Alvim, psicóloga clínica de Presidente Prudente (SP) e especialista em Neuropsicologia pelo setor de Neurologia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). "No fundo, ambos não querem romper. Quando reatam, e descobrem que a outra parte jogou tudo fora, é comum encarar a decisão como descaso com aqueles carinhos, o que pode gerar uma nova discussão com possibilidade de rompimento e, talvez, sem volta", diz.

Segundo a psicanalista Gisele Gomes, de São Paulo (SP), a questão é entender quais os gatilhos que levam uma pessoa a tomar atitudes em sua vida, de modo geral. "Independentemente da situação, as pessoas precisam compreender que é preciso desenvolver a habilidade de utilizar o 'filtro da razão' em suas vidas. Atitudes precipitadas e inconsequentes são prejudiciais em qualquer esfera da nossa existência, não apenas no campo amoroso".

Guardar ou não lembranças materiais de uma pessoa que um dia nos foi cara tem muita relação com a forma como encaramos o luto pela perda. "Se a dissolução da relação foi um momento efetivamente traumático ou muito complexo, conservar um objeto do ex pode ser uma forma de reviver essa dor de forma permanente. Algumas pessoas sentem um prazer inconsciente de reviver essa perda a todo o momento, pois podem nutrir algum sentimento de culpa pelo término, têm baixa autoestima e tendência à vitimização. Ou, até mesmo, ainda alimentam fantasias de reatar, mesmo que não haja nenhum indício disso", explica Gisele. 

Nesses termos, essa conduta só causará mais dor e frustração. É preciso, portanto, liberar essa energia e investi-la em novos objetivos e projetos de vida --não necessariamente em um novo amor. 

Ainda conforme Gisele, se os ex-parceiros estão conscientes de que o ciclo simplesmente se fechou e é preciso seguir em frente, guardar ou não guardar uma lembrança física do ex fica a critério de cada um e tem a ver com a forma como a pessoa se relaciona com objetos em sua vida. "Há indivíduos, por temperamento, que são mais apegados ao 'material' do que outros. Essa característica definirá se guardar algo ou não será uma boa ideia. Os itens poderão trazer lembranças boas ou ruins, mas não remexerão em uma dor já apaziguada ou até sublimada. Serão apenas recordações do que já se viveu e ponto final", pontua a psicanalista.

Estabelecer critérios é importante

A psicóloga Sandra Monice, de Santo André (SP), lembra que a pessoa que nos tornamos é resultado das nossas vivências, das atividades que executamos, daqueles que passaram por nossa vida e da nossa interação com o mundo. "Deixar ir um amor que já não existe mais é um processo interno, que pode ser dificultado quando temos um apego exagerado aos objetos que nos trazem recordações, como se a pessoa que perdemos estivesse 'depositada' nos mesmos. Quando esse processo interno se torna mais tranquilo, a necessidade de guardar esses registros pode ser diminuída ou mesmo deixar de existir", diz.

Na opinião de Sandra, o melhor jeito de decidir pelo desapego das lembranças de um relacionamento é estabelecer critérios para a tomada de decisão. Pergunte-se, por exemplo: Estou jogando fora coisas sem valor? Quero me desfazer por desapego ou por vingança? Esse objeto me faz mal de alguma forma? Simbolicamente, quero machucar a pessoa que me magoou? Dou conta do "e depois"? Questões desse tipo podem ajudar a decidir o que eliminar e quando desapegar das lembranças.

Tanto no seriado "Tyding Up" (Netflix) quanto no livro "A Mágica da Arrumação" (Ed. Sextante), a guru japonesa da organização Marie Kondo recomenda conservar apenas os objetos que nos tragam alegria. Essa máxima é primordial na hora de avaliar se vale ou não a pena permanecer com lembranças materiais de uma relação. "Guarde o que não cause dor nem sofrimento: boas lembranças, momentos de sorrisos e felicidade, presentes queridos ou úteis", sugere Sandra. "Mas é importante lembrar que se desfazer de tais lembranças só é possível quando a pessoa se sente confortável internamente para fazer isso. O luto não precisa ser forçado, mas deve ser elaborado, sim", diz Joselene.

Também é imprescindível lembrar que estamos falando "apenas" de objetos materiais, o que há de se tratar são as feridas que este relacionamento deixou no indivíduo e como ele as enfrentará sem perder a lucidez, a autoestima e o bom senso. Muitas vezes, as pessoas projetam nos objetos ou no outro as dores que não querem olhar e cuidar em si próprias. E isso é um comportamento bastante negativo, que leva a pessoa a um vazio e frustração permanentes.

Objetivamente, segundo especialistas, as lembranças materiais não têm importância real alguma para a vida das pessoas. Entretanto, somos seres emocionais e nos apegamos às coisas: faz parte da nossa humanidade. "Alguns objetos têm representações significativas para nós porque eles contam com uma carga afetiva muito forte. Com eles vêm as lembranças da pessoa, da forma com que ela nos tratava, dos bons momentos vividos. Não é o objeto em si que importa, mas o que ele representa", afirma Joselene. 

Quando o apego se torna patológico, porém, é necessário auxílio terapêutico. Ações obsessivas são sempre prejudiciais, seja com relação a amores antigos, seja com relação a comportamentos que não nos fazem bem. "Tudo o que nos impede de estabelecer novas relações, caminhos e vivências 'aqui e agora' deve ser abandonado", conclui Sandra.