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Violência contra a mulher


De assédio a estupro: elas foram violentadas por pais de amigos

Arquivo Pessoal
Gabriella foi abusada pelo pai de um amigo enquanto estava bêbada Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

08/02/2019 04h00

A administradora de empresas Gabriella Gante, de 23 anos, viveu um pesadelo durante uma viagem para a Alemanha, quando tinha 18. Ela foi abusada -- pela lei brasileira, estuprada -- pelo pai de um amigo. "Estávamos em uma festa e eu fiquei muito bêbada. Decidimos ir embora. Quando estávamos saindo, meus amigos voltaram para a festa para procurar minha carteira, que eu tinha perdido", conta. 

"Enquanto isso, o pai de um deles começou a passar a mão em mim. Apertava meu peito, colocava a mão dentro da minha blusa. Eu estava quase desacordada e não conseguia gritar nem pedir ajuda. Quando eles voltaram, eu contei o que tinha acontecido. Ninguém deu bola. Meus amigos só acreditaram quando o homem abusou de novo de mim e eles viram. Então, o tiraram de perto de mim, mas não deram importância para o que tinha acontecido".

Por medo e vergonha, Gabriella nunca contou para ninguém o que aconteceu. Somente ontem, para dar esta entrevista, é que ela revelou o caso para os pais.

O caso de Gabriella não é isolado. Abusos cometidos por pais de amigos a crianças e adolescentes acontecem em muitas situações. Veja outros relatos de mulheres que, infelizmente, passaram por essa violência quando estavam absolutamente desprotegidas. 

"Fui dormir na casa de uma amiga e o pai dela abusou de mim"

A falta de conversa sobre sexo foi decisiva na infância da enfermeira Janaína*, de 21 anos. "Meus pais estudavam e, como não tinha ninguém para ficar comigo, eu passava todas as noites na casa de uma amiga. Eu tinha sete anos e ela também. Ela morava com o avô, que a criava como pai. E ele abusou de mim", conta.

"Ele me abraçava e passava a mão pelo meu corpo. A avó dela saía cedo para trabalhar e ele me carregava dormindo para a cama dele. Eu acordava e o via olhando para mim, só de cueca, se tocando. Um dia, ele colocou minha mão no pênis dele, tapou minha boca e disse que se eu contasse algo aos meus pais, eles me bateriam muito porque eu era suja", diz. A jovem nunca contou a ninguém sobre os abusos. "Se meus pais tivessem me orientado sobre esse tipo de perigo, acho que isso não teria acontecido. Eu também me culpo por não ter conseguido falar para eles, até hoje, pelo que passei".

"Ele passou a mão na minha perna"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu tinha 16 anos e fui passar férias na casa de uma amiga. Ela morava com a mãe e nós duas fomos visitar o pai dela. Estávamos os três sentados no tapete da sala, e ela saiu para comprar alguma coisa de um vendedor que estava passando na rua. Seu pai se aproximou de mim e começou a passar a mão nas minhas coxas e me olhar com uma cara de tarado. Eu fiquei apavorada. Só consegui sair de perto e ele continuou me olhando com aquela cara. Foi tudo muito rápido e minha amiga voltou pra sala. Eu não contei pra ela. Fiquei com medo de que ela não acreditasse em mim. Só pensava em ir embora, mas não podia, porque era ele quem ia nos levar de volta para a casa da mãe da minha amiga. No fim do dia, ele fez isso e, quando saí do carro, me olhou rindo e disse: 'Desculpa alguma coisa'. Foi horrível", conta Gabriela Luz, de 21 anos, que é administradora de empresas.

"Vou casar com você"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

A biofísica Raquel Albuquerque, de 31 anos, lembra que se sentia bastante constrangida sempre que o avô da melhor amiga fazia "brincadeiras" com ela. "Eu tinha 14 anos e ia sempre até a casa dela porque sua mãe costurava roupas para mim. Um dia, o avô chegou e disse que pagaria a minha roupa se eu casasse com ele. Eu ficava constrangida, achava ruim, mas não entendia direito o que estava acontecendo. Só descobri que era assédio depois que fiquei adulta", conta. 

"Ele me abraçava e pegava na minha bunda"

Com a professora Rayssa Fernanda, de 25 anos, o assédio aconteceu na casa de uma amiga de infância. "Ela morava com a mãe e a tia e, às vezes, encontrávamos o pai dela. Quando fiz uns 13 anos, ele passou a puxar muito papo comigo e me abraçar forte na hora de me cumprimentar. Ele grudava meu corpo no dele, eu ficava bastante incomodada, mas não dizia nada. Até que isso piorou: além do abraço invasivo, ele começou a passar a mão na minha bunda. Nunca consegui falar para minha amiga sobre essa violência. Acho que ela não acreditaria em mim. Nossa amizade minou por causa disso".   

O que fazer?

A psicóloga e psicoterapeuta do espaço Vivacitá Carla Salcedo explica que as crianças e adolescentes que passam por abusos apresentam mudanças bruscas no comportamento. "Os pais precisam prestar atenção a essas mudanças. Se extrovertida, a criança começa, por exemplo, a ficar mais retraída, a ter pesadelos noturnos, explosões agressivas sem motivo aparente e medos de situações que, antes, não a faziam sentir medo". 

"Se isso começar a acontecer, os pais não devem insistir para que a criança conte o que aconteceu, mas, sim, procurar a ajuda de um psicólogo infantil ou de um adulto em quem ela confie. Normalmente, a criança tem medo de contar aos pais, já que em muitos casos de abuso, o abusador diz que ela será punida se revelar", diz. "Quando se trata de adolescentes, a manifestação da dor pode vir com automutilações e sintomas de depressão". 

Após descobrir que o filho viveu uma situação de abuso ou assédio, os pais devem procurar uma delegacia imediatamente, segundo o advogado criminalista e professor da Faculdade de Direito de São Paulo, Ricardo Dias. "A criança ou o adolescente vai prestar depoimento em um ambiente propício e respeitoso. Mesmo se não houver provas, é necessário registrar o boletim de ocorrência para que a investigação seja feita e a criança, protegida".