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Filme sobre "cura gay" não vai para o cinema no Brasil; conheça história

Divulgação
Cena do filme "Boy Erased"; exibição do filme foi cancelada no Brasil por "motivos comerciais". O presidente negou acusações de que teria censurado o longa. Imagem: Divulgação

Marcos Candido

Da Universa

05/02/2019 04h00

O americano Garrard Conley tinha 19 anos quando foi obrigado pela família a participar de uma terapia espiritual de "reorientação" de "conduta afeminada" em uma igreja dos Estados Unidos. E é assim que começa o drama que o marcou durante a vida como vítima da chamada "cura gay".

Hoje, aos 33, Conley narrou a experiência em um livro autobiográfico que virou até filme, embora o longa-metragem tenha sido cancelado nos cinemas do Brasil e causado confusão na internet. A Universal Pictures afirma que o filme será lançado em home video até julho de 2019. Mas, para quem está curioso sobre a história, dá para tirar alguns detalhes do livro que inspirou a trama.

No livro "Boy Erased: uma verdade anulada" (Editora Intrínseca), tradução lançada no Brasil no início de janeiro, Conley narra o convívio ao lado do pai religioso que atende a um chamado divino e se torna um pastor batista. Apesar da influência fundamentalista, ele sente atração por outros homens ainda na adolescência, quando admira modelos em embalagens de cueca de um supermercado.

Acusado de censura, distribuidora alega motivos comerciais

O livro pode ser adquirido aqui, mas "Boy Erased" só deve aparecer em alguns meses, em formato para ver em casa. O próprio Conley e usuários do Twitter contribuíram com a polêmica ao atribuir ao presidente Jair Bolsonaro uma possível censura. "Fui informado de que um ator americano está me acusando de censurar seu filme no Brasil. Mentira! Tenho mais o que fazer", rebateu o presidente Bolsonaro no Twitter. A distribuidora Universal diz que a história é menor mesmo: eles garantem ter desistido do filme por questões comerciais.

A história por trás do filme

Em uma espécie de diário, Conley narra que a "cura gay" foi administrada pela igreja batista fundamentalista Amor em Ação em Memphis, que impunha aos seguidores uma cartilha com obrigação de vestuário e conduta para extinguir a "homossexualidade", comparada com a heroína e a pedofilia.

As sessões eram ministradas com dezenas de livros com depoimentos de "ex-gays" vitoriosos que se "curaram" da própria orientação. Um anúncio do serviço advertia falsamente que, caso as instruções ali passadas não fossem seguidas, a homossexualidade obrigaria a pessoa a transar com cachorros.

Conley foi voluntariamente aos encontros após os pais descobrirem sua orientação sexual e por se sentir "impuro". A ele foi dado um guia com 12 passos para "curar" a orientação sexual, um protocolo comumente usado em tratamento de dependentes de álcool e drogas. As sessões incluíam esvaziar os bolsos e mostrar o conteúdo a um fiscal e expor o histórico de navegação do celular e computador.

Terapia gerou suicídios e "enterro" falso

Os homens que passavam pela "cura gay" eram proibidos de usar "bijuterias em excesso", enquanto as meninas não poderiam usar roupas sedutoras ou consideradas masculinas. Os dois gêneros eram proibidos de ter "comportamento e modo de falar efeminado ou lésbico".

Um instrutor persecutório fazia uma busca por sinais de homossexualidade. Conley foi obrigado a expor a família a um grupo de "pacientes" para entender a fonte da origem "pecaminosa" que deu fruto à homossexualidade.

No passado, o mesmo "terapeuta" havia encenado um enterro fictício, no qual o "desertor" do grupo era enterrado e declarado como uma vergonha para Deus. Durante a cerimônia, o grupo lia um falso diagnóstico sobre como o homem definhou até a morte após contrair HIV. Segundo o livro, devido a esse tipo de vergonha psicológica, "pacientes" submetidos à prática cometiam suicídio.

História virou filme com estrelas de Hollywood

O filme inspirado no livro tem um elenco renomado, como Nicole Kidman e Russell Crowe. O ator Lucas Hedges interpreta Conley.

Na vida real, o autor tornou-se um estudioso do chamado "movimento de reorientação sexual" nos Estados Unidos, um fenômeno que também acontece no Brasil. Apesar disso, Conley libertou-se: o livro sobre sua vida tornou-se um dos mais vendidos segundo o "New York Times". Hoje é roteirista, escritor e mora em Nova York com o marido.