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Minha história


"Descobri que minhas duas filhas foram abusadas dentro da van escolar"

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Camila* e Laura* só conseguiram contar aos pais depois de alguns anos de violência Imagem: iStock

Mariana Gonzalez

Da Universa

01/02/2019 04h00

Quando as filhas começaram a frequentar a escola, há 14 anos, a bacharel em direito Helena*, de 34 anos, e seu marido, Pedro*, não pensaram duas vezes em optar pelos serviços da van escolar do vizinho Paulo Renato Svendsen Maciel.

Afinal, ele morava na casa da frente, conhecia a família há anos, "vivia cercado pelos netos e parecia ter valores familiares".

Em 2017, no entanto, o casal que vive em João Pessoa, na Paraíba, descobriu que Camila* e Laura*, hoje com 18 anos e 11 anos, respectivamente, passaram anos sendo abusadas sexualmente pelo motorista. 

"Nós não desconfiávamos de nada. Elas apresentaram algumas mudanças de comportamento, mas achamos normal para a idade. Só descobrimos quando outra menina abusada pelo mesmo homem prestou queixa e citou minha filha mais nova no depoimento, dizendo que 'com a Laura, ele fazia pior'", conta Helena. 

Paulo Renato foi denunciado pelas famílias de quatro crianças -- três meninas e um menino -- investigado e condenado a 52 anos e seis meses de prisão. Desde então, Helena, Pedro, Camila e Laura passam por acompanhamento psicológico. 

Leia o depoimento na íntegra: 

"Nós conhecíamos essa pessoa há muitos anos. Nos tornamos vizinhos quando minha filha mais velha tinha uns três anos. Ele morava com a família, tinha filhos, netos, parecia ser uma pessoa com valores familiares. A Camila começou a ir para a escola com ele aos 4 anos, três anos antes que eu engravidasse da Laura. Nós não conseguimos levá-la porque os horários dos nossos trabalhos não permitiam, então decidimos contratar um transporte escolar.

Ele e a família dele acompanharam minha gestação. Nós não éramos de frequentar a casa dele e nem ele a nossa, mas existia uma convivência.

Quando a Camila tinha cerca de 9 anos, ele começou a observá-la, fazer algumas brincadeiras e tocá-la, principalmente nos seios -- mas isso eu só soube anos depois, quando tudo veio à tona. À medida que ela foi crescendo, começou a ficar mais arredia, mais agressiva. Ela me contou que uma vez ele tentou tocá-la de uma forma mais explícita, mas se afastou quando ela respondeu de maneira grosseira, ameaçando contar para a esposa dele.

Com a Laura, que começou a andar na van por volta dos 6 anos, os abusos foram piores. Ele chegou a tirar a roupa dela diversas vezes e praticar alguns atos sexuais, mas nunca houve penetração. Algumas vezes, ele demorava mais de uma hora além do previsto para deixar minha filha em casa, mas colocava a culpa no trânsito ou no atraso de alguma outra criança, então não desconfiávamos.

Na época, ele fazia a mesma coisa com outras crianças da van. Como o carro tinha vidro filmado, ele parava em uma rua mais deserta, subia os vidros e fazia o que quisesse com elas ali dentro. Quem passava do lado de fora realmente não tinha como saber.

As crianças, todas muito pequenas, não sabiam que aquilo era errado, mas comentavam entre si quando estavam juntas -- até que um adulto ouviu e levou uma delas para prestar queixa. Foi assim que eu descobri que as minhas duas filhas haviam sido abusadas sexualmente durante pelo menos cinco anos.

No depoimento de uma das meninas, ela narra as vezes em que sofreu abusos, mas diz que "com a Laura ele fazia pior". Foi aí, aos prantos, que minha filha mais nova conseguiu contar o que aconteceu.

Eu e meu marido sofremos um choque terrível, ficamos muito abalados e não sabíamos muito bem como resolver isso em família. Procuramos ajuda de profissionais e, desde então, nós quatro passamos por acompanhamento psicológico. Ainda estamos tentando superar.

Para a Camila, o que mais pesa é o sentimento de culpa. Ela sente que se tivesse tido coragem de nos avisar sobre o que estava acontecendo, teria impedido que a irmã passasse por uma situação ainda pior. Nós entendemos que as coisas não funcionam assim e que esse pedófilo abusou delas não só sexualmente, mas psicologicamente.

E eu carrego uma culpa muito grande porque, na época em que isso estava acontecendo com a Camila, eu estava terminando a faculdade de direito e o tema da minha monografia era o artigo 217-A do Código Penal, que fala sobre estupro de vulneráveis. Justamente o que as minhas duas filhas viveram". 

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas, visto que uma delas é menor de idade. 

*Se você está vivendo uma situação semelhante, procure uma Delegacia de Defesa da Mulher e denuncie. Se perceber que uma criança dá sinais de ser vítima de abuso sexual, ligue para o Disque Denúncia: 181.