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Mães e filhos


Mães e filhos

"Descobri que era bissexual aos 8 anos": como pais devem agir nesses casos

Arquivo Pessoal
Alline Camila recebeu o apoio da mãe, Didi da Silva, quando se assumiu bissexual Imagem: Arquivo Pessoal

Camila Brandalise e Talyta Vespa

Da Universa

31/01/2019 04h00

Um contato íntimo e inocente com a prima mais velha fez com que a assistente administrativa Alline Camila, de 27 anos, descobrisse que gostava, também, de meninas. Ela tinha oito anos à época. "Fui dormir na casa dela e, deitadas, demos um beijinho. Eu curtia meninos e percebi que meninas também eram interessantes. Não entendia o sentimento, era confuso para mim", conta.

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Alline se descobriu bi aos oito anos, quando beijou a prima Imagem: Arquivo Pessoal

Ela e a prima aproveitavam quando ficavam sozinhas. Um dia, foram pegas pela mãe de Alline, que não reagiu bem. "Ela brigou muito com a gente. Disse que nunca mais poderíamos fazer aquilo", conta. Apesar do medo, ela não conseguiu controlar sua bissexualidade por muito tempo. Aos 12 anos, ficou com uma amiga e, finalmente, se sentiu realizada. "Já namorei mulheres e homens. Na adolescência, me assumi para a minha mãe, que aceitou e me apoiou. Ela pediu desculpas por não ter me aceitado desde o começo e, hoje, é minha confidente. Me dá abertura para falarmos de tudo".

Pais devem estar abertos ao diálogo

A psicóloga e especialista em psicoterapia e desenvolvimento infantil Joana Petrilli afirma que reprimir a manifestação da sexualidade durante a infância não é a melhor forma de tratar o assunto com os filhos. "É importante orientar. Devemos oferecer informações às crianças na medida em que elas forem requisitadas e sempre em uma linguagem adequada ao entendimento de determinada faixa etária e de cada família", diz.

Caso contrário, explica Joana, se a criança ou o adolescente notar que está em um ambiente hostil à diversidade e ao diferente do padrão heterossexual, dificilmente vai se abrir.

Foi o que aconteceu com a estudante Sarah Angel, de 21 anos. Enquanto brincava com amigos da escola católica onde estudava, aos oito anos, ela disse que acharia legal se pudesse beijar meninos e meninas. Um dos funcionários do colégio ouviu e ligou para os pais de Sarah, que precisaram mudá-la de escola por "mau comportamento". 

"Eles reprimiram meu desejo. Minha mãe me levou para a igreja e disse que Deus não gostava do que eu estava fazendo. Essa vontade sempre esteve ali, mas, na minha cabeça, era algo errado. Quando fiz 12 anos, beijei um menino. Pouco depois, fiquei com uma amiga da escola. Foi bom, mas me senti muito culpada, indecisa. Com 15 anos, me assumi bissexual para os meus pais e fui expulsa de casa. Fiquei só um dia fora e voltei. Hoje, por eu estar em um relacionamento heterossexual, eles acham que eu estou curada", relata.

Interesse por outras pessoas começa na pré-adolescência

Segundo a psicóloga e psicoterapeuta infantil Miriam Barros, um jovem geralmente começa a se sentir atraído por um ou outro gênero, ou pelos dois, no início da pré-adolescência, que acontece entre 11 e 13 anos. "Esse entendimento depende de como a criança é criada. Se houver espaço para questionamento e conversa dentro de casa, o processo de conhecer a própria sexualidade fica mais fácil". 

"E ficou mesmo", conta a estudante de pedagogia Aneleh Gonçalves. A receptividade da família foi essencial para que ela conseguisse, desde cedo, entender a própria bissexualidade sem vê-la como um problema. 

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Sexualidade de Aneleh foi bem recebida pela mãe desde a infância Imagem: Arquivo Pessoal

"Desde pequena, minhas bonecas casavam entre si, nas brincadeiras. Era natural. Aos oito anos, comecei a sentir algo diferente por uma amiga. Contei para a minha mãe, que foi cuidadosa na hora de dizer que eu ainda era muito nova para me preocupar com o que sentia. E que, independentemente do que fosse, ela estaria do meu lado. Com 12 anos, me apaixonei por uma garota mais velha e, ali, tive certeza. Hoje, com 28 anos, me relaciono com homens e com mulheres, minha mãe me respeita e me apoia. Sempre foi assim". 

Algumas reações familiares, entretanto, podem não ser das mais compreensíveis. A costureira Stefhani Peruncelli, de 30 anos, conta que, até hoje, a família acredita que ela é lésbica e só fica com homens por medo de se assumir.

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Família de Stefhani acha que ela é lésbica e tem medo de assumir Imagem: Arquivo Pessoal

"Eles não entendem o conceito de bissexualidade, que é claro para mim desde pequena, quando me apaixonei por uma menina pela primeira vez. Apesar de saber que gostava de garotos e garotas, o medo da rejeição fez com que eu contasse para a minha família só aos 18 anos. Eu não queria ser bissexual, ser tachada de confusa. Hoje, sou casada com um homem, mas quase me casei com uma mulher. Eles não entendem, mas é assim que sou". 

Sexualidade na infância é autoconhecimento

Segundo Miriam, apesar da atração por outras pessoas se manifestar na pré-adolescência, o contato com a sexualidade acontece antes, por volta dos quatro anos, quando elas descobrem o prazer sexual. "Não é viável reprimir esse conhecimento do próprio corpo. A criança começa a se tocar e descobre as zonas de prazer. Não tem a ver com a malícia de um adulto, mas com esse autoconhecimento. Aos pais, eu aconselho: em vez de boicotar seus filhos, diga a eles que é um comportamento íntimo, e não errado, mas que não deve ser feito em público".