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Após demissão, ela empreendeu e criou 1ª marca de bijoux plus size do país

Reprodução/Instagram
Márcia Gattai, fundadora da Fofura Pimenta, primeira marca de bijuterias plus size do país Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Araújo

da Universa, em São Paulo

28/01/2019 04h00

Foi no desânimo com sua profissão que a socióloga Márcia Gattai, de 53 anos, encontrou não só uma oportunidade para empreender, como também se tornou pioneira na inclusão das mulheres plus size no mercado dos acessórios.

Após ser demitida de seu emprego de professora universitária em 2015, ela decidiu reavaliar como gostaria de seguir em frente e optou por transformar um antigo hobby em carreira ao criar sua própria marca de bijuterias.

"Fui professora por 12 anos, trabalhava 70 horas por semana e gostava, mas o desgaste me desanimou. Trabalhei mais de 10 anos em lojas quando estudava. Sempre trabalhei com o público", explicou ela sobre o momento em que decidiu investir em uma nova carreira.

Fã de acessórios, Márcia já costumava garimpar peças na companhia da afilhada -- cujo apelido, 'fofura', inspirou o batismo da Fofura Pimenta, que já conquistou adeptas como a modelo Mayara Russi (na foto com Xuxa).

"A gente ia à [rua] 25 de março, à Oscar Freire... Sempre gostei de bijuteria, desde criança. Procurava coisas diferentes e, por isso, tinha combinado com ela que faríamos um blog de achados, com fotos e endereços. Mas como estava demorando para sair, pensei 'por que não vendê-las?'", explicou à Universa.

Acostumada a dar dicas para as amigas sobre o assunto, ela fez um teste: comprou alguns anéis e passou a revendê-los para pessoas próximas. "Não havia divulgação no início. Depois, abri um Instagram, o Facebook e comecei a anunciar, mas sem divulgar os tamanhos."

Foi na prática que Márcia acabou descobrindo que havia uma demanda de clientes que não encontravam anéis e colares que servissem a todos os tipos de corpos.

"Um dia, vi uma blogueira linda e estilosa, a Mel Soares, que veste manequim 54. Conversamos e mandei para ela os maiores anéis que eu tinha de presente. Mel fez Stories dizendo que minha loja tem anéis que servem nos dedos gordos. Recebi 200 mensagens de pessoas pedindo anel para dedo gordo. Eu nem sabia que existia um mercado plus size".

Este não foi o primeiro pedido de parceria de Márcia, como as influenciadoras chamam a troca de produtos por divulgação. No entanto, foi esse contato, lá no começo da Fofura Pimenta, que despertou sua atenção para o nicho que a marca hoje ocupa.

"Eu queria fazer uma coisa diferente, e não o que já existia. Quando a loja começou, eu não estava satisfeita. Isso mudou quando percebi que havia esse mercado plus size. Até havia lojas com tamanhos maiores, mas ainda não existia uma marca", explicou.

O passo seguinte de Márcia foi fazer cursos e aprender a criar colares e chokers para suprir esta demanda. "Com seis meses da loja, acabei com os tamanhos pequenos. Compro materiais como miçangas, contas, cristais, metais, cobre, alumínio e metal galvanizado em casas de hidráulica. Também tenho alicates e medidores [para os anéis]. Faço as peças em casa."

Márcia também aprendeu não só a entender como a se adequar às necessidades de suas clientes. "Faço também peças sob medida. A pessoa me manda uma mensagem dizendo que o pescoço mede 48 cm, e eu faço. Outra adaptação que fiz é usar fechos de 1,5 cm em colares, com o dobro do tamanho tradicional, já que [o pequeno] é difícil para uma pessoa com o dedo gordo segurar."

Investimento e retorno

Ao finalmente encontrar seu público, Márcia passou a investir mais na loja. Ela estima ter gastado cerca de R$ 3 mil em materiais para as peças, embalagens, além de uma parte referente à contratação de uma webdesigner para criar o site da marca.

Apesar de o retorno não ter sido imediato, a Fofura Pimenta se tornou reconhecida no meio plus size e é presença constante de bazares de sucesso, como o Pop Plus, fundado por Flávia Durante, blogueira de Universa, e que acontece quatro vezes por ano em São Paulo.

"Na primeira vez em que fui ao bazar, em setembro de 2017, vi que é um evento com moda, dança, debates, comidas e com respeito para as mulheres gordas. Tem cerca de 10 a 15 mil pessoas e meninas muito estilosas. Pensei que se desse certo neste bazar, se as pessoas curtissem [minhas peças], seria uma referência. E vendi muito: mais de 300 anéis em dois dias. Comecei a encher meu Instagram com as fotos, o que aumentou minha divulgação."

Um anel vendido por Márcia custa R$ 10. Nos bazares, no entanto, eles saem mais baratos: três peças por R$ 20 ou R$ 25, dependendo do modelo. Chokers e colares estão avaliados em R$ 20, em média.

Inspirações e parcerias

"Faço uma moda acessível, com peças que as não-gordas também estão usando, mas que as gordas possam comprar". Para isso, ela diz que pesquisa inspirações em blogs, sites, revistas e durante as conversas com influenciadoras, que já se tornaram suas parceiras não só na divulgação, como na concepção das peças. 

"Recebo 20 pedidos de parcerias por dia. No começo, não sabia como funcionava e perdi muito dinheiro mandando coisas que não tinham retorno. Quando a loja se tornou plus size, comecei a pesquisar e ver quais influenciadoras tinham não só mais seguidores, mas quais eram as que as pessoas gostavam mais, com mais interação. Nos bazares, comecei a chamá-las para ser presença VIP no meu estande. Eu pagava um valor para uma delas ficar ali uma hora, tirar fotos. E elas me ajudavam a vender."

A ex-professora cria também acessórios para o público masculino. "Fiz uma parceria com o youtuber Caio Cal e fizemos uma coleção de chokers para gordos e para LGBTs. O público masculino é menor, poucos homens compram anéis, vendo mais chokers para eles", explicou.

Para Márcia, a mudança radical de vida compensou, mesmo que os valores nem sempre correspondam à realidade que tinha dando aulas. "Em mês de bazar, eu tenho uma renda próxima. Fora deles, é menos do que a metade do que eu tinha como professora, mas a qualidade de vida é infinitamente maior. Posso tomar sol e ir ao cinema no meio da tarde."

O contato com as clientes também tem lhe rendido experiências gratificantes.

"Várias pessoas me agradecem, quase chorando, porque nunca tinham usado um anel ou um colar comprido na vida. Parece uma besteira para quem pode entrar em uma loja e comprar o que quiser, quando quiser. Mas, para quem não costuma achar, faz a diferença."