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Violência contra a mulher


Advogada de vítima de violência doméstica: "Ex dela disse que vai me matar"

Reprodução/Instagram
Julia Nunes Santos: "Penso em mudar de cidade por causa das ameaças" Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

Da Universa

28/01/2019 04h00

"Ele colocou uma arma na mesa enquanto conversávamos. Só conseguia pensar que ia atirar em mim a qualquer momento".

"Ele falou que, quando sair da cadeia, vai me matar."

"Ele me perseguia. Consegui que a medida protetiva da minha cliente se estendesse para mim."

O "ele" dessas três frases tem um perfil específico: em todos os casos, são ex-maridos de vítimas de violência doméstica ameaçando as advogadas delas. Essas três profissionais relatam que constrangimentos de maridos ou ex agressores são comuns, e a violência de gênero praticada contra suas mulheres se estende às mulheres que se propõem a defendê-las.

Leia, abaixo, o relato das três advogadas:

Homem foi preso, mas advogada pensa em mudar de cidade

Arquivo pessoal
Ameaçada, Julia diz ter medo de ataques Imagem: Arquivo pessoal

A advogada Julia Nunes Santos, de Maceió, teve que ir à uma audiência acompanhada de uma equipe da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Alagoas para protegê-la depois de sofrer ameaças recorrentes do ex-marido de uma cliente que tentou matar a mulher. Ele enviava áudios via WhatsApp para a ex-mulher dizendo que sabia onde Julia morava e, certo dia, a advogada viu o carro dele rondando a rua de sua casa.

"Minha cliente sofria agressões e decidiu se separar quando ele entrou no box, no momento em que ela tomava banho, segurando uma faca para matá-la. Ela saiu correndo e conseguiu se salvar", diz Julia. "Claro que eu fico com medo. Ele disse que, se fosse preso, quando saísse da cadeia, iria matar nós duas."

Na quarta-feira (16), o homem foi detido pelo descumprimento de medida protetiva -- foram nove vezes seguidas que ele se aproximou da ex, mesmo sendo proibido pela Lei Maria da Penha. E Julia, que já fez boletim de ocorrência contra ele, cogita mudar de cidade por causa das ameaças. "O processo ainda está correndo e espero que a decisão final seja a prisão."

Julia diz que ouviu de colegas de profissão que deveria deixar o caso por ser mulher. "Autoridades do estado me disseram que fiz minha parte, que agora era para deixar um homem cuidar do processo."

Arma na mesa e ameaça de morte em audiência

Arquivo pessoal
A advogada Alessandra Nuzzo Imagem: Arquivo pessoal

Entre 2017 e 2018, Alessandra Nuzzo, especialista em direito de família e violência doméstica, cuidava do processo de divórcio de uma mulher quando recebeu a visita do ex-marido dela em seu escritório. "Ele foi sem avisar, minha secretária me ligou e fomos conversar na sala de reuniões". 

Ao entrar na sala, o homem tirou uma arma e colocou em cima da mesa. "Ele disse que tinha ido para falar sobre a proposta de divisão de bens. Não falou nada da arma. Mas claramente foi uma coação", diz Alessandra. "Por meia hora, eu só pensava que ele poderia atirar em mim a qualquer momento."

As ameaças passaram a ser explícitas à medida que o processo avançava. Em uma audiência, o ex-marido da cliente de Alessandra dizia que ia perseguir a advogada, que não ia deixá-la em paz caso ela continuasse tocando o caso. Ele também chegou a mover um processo contra ela. "Quando tivemos que discutir sobre a guarda do filho, falei sobre o histórico de violência doméstica dele, que se sentiu afrontado e me processou."

Sobre as agressões que a vítima sofria, havia boletim de ocorrência e uma ata notarial, um documento em que foi transcrito um áudio e reconhecido em cartório. O áudio é uma gravação de uma ameaça dele à vítima, dizendo que ia matá-la, "estourar sua cabeça" e "estourar seu peito". Mas, por ter medo do ex-marido, a ex-mulher não o processou pela Lei Maria da Penha. O caso foi resolvido há seis meses, com um acordo entre as duas partes.

Mas Alessandra tem outra situação de perigo para lidar, agora em março. O caso diz respeito a uma mulher, também vítima de violência doméstica, que se separou do marido e agora briga pela guarda do filho, que foi levado pelo homem quando ele saiu de casa. "O ex-marido manda áudios para minha cliente dizendo: 'Vou matar sua advogada no dia da audiência'". "Será em março, e estou com medo porque trata-se de um homem perigoso. Ele já bateu na cabeça da minha cliente com um taco, ela tomou 11 pontos."

'Advogada do sexo' e ataques on-line

Reprodução/Facebook
Gabriela Souza tem um escritório de advocacia exclusivamente para mulheres Imagem: Reprodução/Facebook

A advogada Gabriela Souza, de Porto Alegre, criou o escritório Advocacia para Mulheres há cerca de dois anos. E o porteiro de lá tem um trabalho específico: não permitir que homens entrem sem hora marcada. 

Em 2017, ela defendeu uma mulher trans que estava recebendo ameaças on-line. Os homens que ameaçavam sua cliente passaram a perseguir Gabriela também.

"Recebia mensagens dizendo que iam me matar", diz. "Mas o que mais me abalou foi saber que fizeram um cadastro com meu nome em um site de swing. Colocaram que eu era 'advogada do sexo'. Comecei a receber fotos de pênis, uma atrás da outra, pois no anúncio dizia para fazer contato via celular e meu número estava lá." Alessandra chegou a fazer um boletim de ocorrência, diz ter sofrido perseguição por alguns meses, até que as mensagens cessaram.

Em outro caso, foi perseguida pelo ex-marido de uma cliente. "Não posso dar muitos detalhes porque ainda tenho medo dele. É um homem grande, forte. Um dia, saindo do escritório, vi ele parado na frente, como se estivesse me esperando. Voltei para dentro e esperei que fosse embora."

A cliente já havia conseguido uma medida protetiva para que o ex não se aproximasse dela. A advogada, então, pediu que a medida se estendesse para ela, e conseguiu. Depois de uma audiência em que a mulher e o rapaz conversaram, e ela expôs toda a perseguição e o medo que sentia, ele parou de procurá-la. Gabriela também relata não ter mais notícias dele.

Mas mensagens a atacando são frequentes, pelas matérias que saem na imprensa, pelo discurso de proteção às mulheres e por se dizer feminista. "Estou na linha de frente sendo atacada. Preciso mostrar força às clientes, as defendendo. Mas esses ataques me fragilizam demais, e, disso, sou eu que tenho que me defender."