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Carreira e finanças


Carreira e finanças

Só pra mulheres: os escritórios colaborativos que estão bombando nos EUA

Reprodução/Instagram
Frequentadoras do escritório de coworking The Coven, em Nova York Imagem: Reprodução/Instagram

Amanda Denti

Colaboração para Universa

25/01/2019 04h00

Segunda-feira de manhã. Você chega ao escritório, um ambiente de décor moderninha, todo trabalhado no paisagismo, escolhe uma poltrona confortável para trabalhar e liga seu notebook. Vai até o banheiro pra secar o cabelo que não secou em casa e aproveita pra dar um up no perfume com o frasco da Chanel que está ali na bancada, à sua disposição. Antes de voltar pra sua estação de trabalho, passa pra pegar uma granola orgânica e uma caneca de café fresco, admirando a prateleira de livros, todos sobre mulheres e assinados por autoras. Dá oi pra colega do lado, na frente, atrás e sim: todo mundo ali é moça. 

Essa é a realidade de um monte de empreendedoras e freelas nos Estados Unidos que estavam cansadas de bater o ponto de pijama no sofá da sala, sem ninguém pra conversar entre um e-mail e outro, ou ter que disputar uma mesinha minúscula na cafeteria barulhenta para fazer uma reunião com um cliente em potencial. Fora aquelas que se sentiam desgastadas de operar em um sistema do qual mulheres não participaram da criação.

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Ambiente de trabalho do Hera Hub Imagem: Reprodução/Facebook

Elas escolheram, então, pagar para trabalhar num ambiente que se distancia de qualquer possibilidade de assédio sexual, pensado para o comportamento e as necessidades femininas - não estamos falando só de uma arquitetura acolhedora e uns cosméticos chics, mas também de salas de lactação à disposição de mães recém nascidas, e workshops para dar um up na sua carreira.  

Esses escritórios também querem facilitar parcerias de negócios em prol do empoderamento econômico de quem veste azul, rosa, poá, oncinha, salto fino ou tênis mesmo, mas se identifica como mulher. O formato começou a se popularizar em 2016, ano da eleição de Donald Trump e, quase num ato de resistência a políticos como ele, enquadrados na onda de movimentos feministas como o #MeToo, viraram comunidades femininas que não param de pipocar pelo país. 

Conheça um pouco mais sobre esses lugares aconchegantes, que levam nomes divertidos, fazem parcerias comerciais para mimar suas usuárias, mas são, na sua fundação, mulheres empoderando mulheres (e pessoas LGBT) através de salas menos competitivas, mais colaborativas e inegavelmente políticas. 

É coisa de seriado

O The Wing ("A asa", em português) é um dos precursores desse movimento moderno. Foi criado por duas nova iorquinas com apenas 30 anos de idade - tão bem relacionadas que uma delas foi inspiração para uma das personagens de "Girls" - se você é entendida da série, estamos falando da Marnie; a diretora do seriado é amiga de longa data de uma das fundadoras. 

Angela Pham/Reprodução/Facebook
Quando concorreu à presidência, em 2017, a candidata Hillary Clinton Imagem: Angela Pham/Reprodução/Facebook

Inspiradas pelo movimento dos Clubes das Mulheres que começou no século 19 e reunia donas de casa que queriam discutir reformas sociais e assuntos como trabalho infantil e planejamento familiar, hoje o coworking delas também dá vazão a discussões com agentes políticos e autoras de livros que vêm aos espaços para incrementar o happy hour de quem escolheu trabalhar ali. Hillary Clinton, que quase foi eleita a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, e Cynthia Nixon (a atriz que interpretava a Miranda em "Sex In The City"), que concorreu ao governo do estado de NY nas últimas eleições, são duas das que fizeram campanha no final do expediente desse coletivo - que começou em Manhattan, mas em breve lançará espaços em Toronto, no Canadá, e atravessa o Atlântico pra fincar os pés (ou as asinhas) em Londres.

Não à toa, foi de Nova York que também saíram ônibus rosas para a Marcha das Mulheres que aconteceu em Washington, no dia seguinte da posse do senhor que governa pelo Twitter. Um dos maiores objetivos do protesto que se multiplicou pelo país e contabilizou mais de 5 milhões de pessoas nas ruas era lutar contra o machismo no poder, e registrar mais eleitoras para eleger mais candidatas. 

Um clube das mulheres que aceita crianças

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The Wing conta com um espaço kids Imagem: Reprodução/Facebook

Há também salas de lactação e espaços com monitoria infantil pra você não se preocupar em parar para deixar o seu filho na creche... Lá eles vão fazer arte, ouvir música, dançar e, por que não, brincar com a mamãe quando ela quiser dar uma respirada. Bem mais legal sentar no chão pra montar uma casinha de blocos com o seu pequeno do que falar sobre a previsão do tempo com aquele mala que te interrompeu na última reunião, né?

No Man's Land?

O negócio tá indo de vento em popa e as empreendedoras do The Wing agora se aventuram com veículos de comunicação próprios: há um podcast e uma revista sob a alcunha de "No man's land", expressão que significa "terra de ninguém", mas aqui quer ter sentido literal mesmo: terra sem homem.

Na capa da primeira edição da revista está, ninguém mais, ninguém menos que Hari Nef, a modelo transgênero que virou símbolo da Gucci. Nesse coworking que nasceu afirmando que recebia "as que se identificam e vivem como mulheres", há poucos dias, já em 2019, soltou um comunicado oficial dizendo que a sua comunidade também está de portas abertas para quem se identifica como queer.

P.S. Um dos maiores investidores do negócio é um homem, mas parece que ele só pode visitar o seu investimento quando as associadas não estão no espaço.  

Pra entrar no clube, tem que ter arroba e entrar na fila

Além de se identificar como mulher, para participar desse network é necessário um desembolso anual de 3 mil dólares (cerca de 250/mês). Antes de sair passando o cartão de crédito, você precisa: 1. ser aprovada e 2. esperar, porque tem fila de espera - como num clube social mesmo. 

No processo seletivo vão avaliar até as suas redes sociais. Segundo as idealizadoras, não é saber se você tá bombando nas redes e vai trazer seguidores pra página deles, mas sim pra avaliar se o seu lifestyle traz diversidade pra esse time que, apesar de frequentado por fashionistas, intelectuais famosas e criado por moças abastadas, tem como meta a inclusão. Elas inclusive estudam a criação de um sistema de "bolsas" pra quem não tem condições de pagar a anuidade.  

Genderqueers generosas

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Ambiente do coworking The Coven Imagem: Reprodução/Instagram

Já no The Coven, que fica em Minneapolis, no estado de Minessota, no meio dos Estados Unidos, e tem uma pegada mais social, são bem vindas mulheres e pessoas não binárias (aquelas que não se identificam como sendo do gênero "masculino" ou "feminino"), e as cotas de inclusão são uma realidade. A cada cinco novas associadas pagantes, uma associação é doada (para ser membro custa cerca de 200 dólares por mês). 

Entre outros diferenciais, está uma sala ecumênica, para quem quiser fazer uma meditação, oração pra sua entidade religiosa ou pedir aquela ajudinha pro santo pra fechar o projeto sem estourar o deadline. Também rola uma parceria com estúdio de ioga, que oferece desconto para as associadas e organiza aulas coletivas mensais no espaço for free. 

Chefonas e bruxas numa timeline do Instagram

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Espaço do The Rise Imagem: Reprodução/Facebook

"A flexibilidade de um coffee shop com o acabamento de um escritório-boutique" é como se define o Rise (pode ser traduzido como "nascer", "ressurgir"), que também está mais no centro do país, em Denver, no Colorado, e em Saint Louis, no estado do Missouri. 

Com mesas coletivas, luminárias minimalistas, sofás e almofadas em tons de rosa bebê que contrastam harmoniosamente com o verde das plantas ornamentais, a maioria desses coworking spaces parecem recém saídos de um perfil de decoração no Instagram. 

A responsável pelo projeto arquitetônico do The Wing, por exemplo, afirmou numa entrevista que se inspirou na cenografia de Mad Men - sem o homem, é claro - pra criar um ambiente digno de Boss Ladys moderninhas. 

A delicadeza das flores coloridas posicionadas nesses ambientes geralmente contrastam com peças de decor que levam mensagens motivacionais sobre produtividade e ironizam o jogo de poder entre homens e mulheres por todas as paredes. Os símbolos políticos e feministas, como quadros da Frida Kahlo, também integram os espaços. 

No The Coven, por exemplo, a principal sala de conferências leva o nome e uma foto em fundo pink da Michelle Obama (que dispensa apresentações, né?). Já o nome da empresa faz referência a um "grupo de bruxas que se reúne regularmente". Elas também se apelidam de Boss Witches (chefes bruxas, bruxas chefes). 

Intimidades

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Escritórios têm espaços de beleza, como o "self care room" ("sala do autocuidado"), no The Coven Imagem: Reprodução/Instagram

Além de dividir o espaço com uma criativa que pode ser e-xa-ta-men-te aquela consultora que você tá precisando pra um determinado projeto, no The Wing também dá pra tomar banho antes de sair pra encontrar alguém depois do trabalho, mas sem se preocupar em colocar uma necessaire pesada na bolsa: tem vários produtinhos para todos os tipos de pele e cabelo na bancada do vestiário. Esses banheiros ganham o nome de "Beauty room", ou quarto da beleza. Já no The Coven, o nome de um espaço semelhante tem uma pegada mais feminista: "Self care room", ou quarto dos cuidados pessoais.

Aceleradores de negócios + uns bons drinks

E se pra relaxar depois de uma apresentação decisiva que você fez numa sala super profissional, que passou credibilidade pra sua cliente... Você precisar de uma tacinha de vinho? No Hera Hub, que começou na Califórnia e hoje já está chegando na Suécia, é só ir até o bar e pagar pelo drink a parte do pacote mensal, que vai de 130 a 370 dólares. Pra quem esqueceu das aulas sobre Grécia Antiga, "Hera" era uma rainha do Olimpo e na época o vinho era até usado como remédio. Talvez usado pra curar a dor de cabeça de ser casada com um deus grego tipo o Zeus.  

Workaholics unidos

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O The Riveter funciona 24 horas Imagem: Divulgação

Falando em vício (cada um tem o seu), também mais próximo do litoral oeste dos Estados Unidos está o The Riveter, que oferece espaços que funcionam 24h na hollywoodiana Los Angeles, e em Seattle, onde ficam os headquarters de gigantes de tecnologia como a Amazon e a Microsoft.

Lá tem até estúdio de rádio para quem quiser gravar seu próprio podcast e mais de um tipo de associação: pras que querem ter uma mesa flutuante (ou seja, sentar onde der), pras que preferem ter uma estação fixa de trabalho, e até pra quem quer estar lá, mas com a possibilidade de fechar a porta do seu escritório particular.

O nome "The riveter" faz referência às mulheres que trabalhavam nas fábricas durante a Segunda Guerra Mundial; a mais conhecida da história é a Rosie, aquela moça de bandana vermelha e branca e camisa jeans levantando o braço e mostrando o muque sob um fundo amarelo com os dizeres "We can do it!".

Eles ou elas se apresentam como um business criado por mulheres e pensado para impulsionar mulheres, mas, porém, contudo, todavia, entretanto, é aberto a todos! Quer dizer, se toparem dividir a mesa com a nossa criatividade, cuecas workaholics podem se tornar membros.

Entre as parcerias comerciais desse clube está uma cia aérea de baixo custo que oferece milhas e a possibilidade de esperar pelo próximo voo no lounge VIP do aeroporto. Afinal, esse pessoal tá acostumado a um wifi de alta qualidade, bons sofás e uns bons drinks.