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Diversidade


Filho trans de Witzel: "Seguidor do meu pai disse que queria me ver morto"

Talyta Vespa

Da Universa

24/01/2019 04h00

O cozinheiro carioca Erick Witzel diz que tem duas datas de aniversário: o dia em que nasceu e o dia em que renasceu como homem transexual. A terceira, ele brinca, é hoje, com a publicação desta entrevista, porque, segundo Erick, essa é a primeira vez que ele fala "sem medo" e "com um alívio enorme" sobre o fato de ter sido batizado com um nome de menina, sofrido muito e a vida inteira com a identidade sexual e ter tido a coragem de fazer a transição, iniciada em 2013. Erick é um dos quatro filhos do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

Aos 24 anos, o funcionário de um hotel de luxo na zona sul do Rio fala ainda à Universa sobre as incontáveis vezes em que chorou no colo da mãe e fecha o rosto ao lembrar da última vez que falou com o pai, em meados de 2018, meses antes do político se candidatar às eleições: 

"Disse para ele: 'Se você quiser entrar para a política, não me envolva nem fale de mim. Não me use como material de campanha'. Mas ele achou que deveria falar. Fiquei desesperado". Em duas entrevistas, o pai, durante a campanha, falou do filho e de sua transição de gênero. Os dois não moram juntos desde que Erick era pequeno e os pais se separaram, mas, depois da quebra de confiança, o filho não trocou sequer uma mensagem com Witzel. "Quando ele soube da minha condição, não se ofereceu para ajudar". 

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Erick prefere ocupar o curto tempo livre - só tem um dia de folga por semana - com a produção de queijos veganos, que faz na cozinha de casa. Ele e uma sócia vendem os produtos em feiras especializadas e sonham em poder trabalhar só com esse tipo de comida. 

Ao lado da namorada, Erick deu a seguinte entrevista à Universa:

Você é um homem que nasceu com um corpo de menina. Devem ter sido muito difíceis a sua infância e juventude. Quais foram os momentos mais complicados?
Eu sabia que era menino, mas era tudo confuso para mim. Desde a infância, eu não gostava do comportamento, das roupas e nem de atividades ditas femininas, tipo brincar de boneca. Eu era bastante masculinizada, adorava basquete e só andava com meninos. Na adolescência, comecei a perceber que talvez eu fosse diferente. Primeiro, me descobri lésbica; depois, me transformei em uma super lésbica, bem masculinizada, porque só comprava roupas nas lojas de homem. E, ainda assim, não era suficiente. Eu precisava de mais.

Quando você descobriu que era um homem transexual?
Eu tinha 17 anos, estava em casa e começou a passar na TV um documentário sobre gênero. Nele, havia um menino trans que contava como havia sido sua transição. Ele estava com a mãe e com o irmão. Parecia feliz. Eu me identifiquei na hora (Erick morava com a mãe e um irmão), mas pensei: "nunca vou ter essa coragem". Fiquei martelando esse documentário por alguns dias e, ao fim, falei para mim mesmo: "Não vou conseguir me livrar disso. Eu sou desse jeito". 

E o que você fez? 
Comecei a pesquisar. Fiquei apavorado com o que encontrei: transexuais têm expectativa de vida de 35 anos. O índice de suicídio entre pessoas trans é por volta de 60%, e 90% delas estão na prostituição. Quantos trans você vê na política? Quantos são médicos ou advogados? Eu pensei em desistir de me assumir homem. Mas era impossível. Eu já era aquilo. 

Quem mais te ajudou?
Minha mãe. Chorei muitas vezes no colo dela. Contar para a minha mãe, quando eu tinha 18 anos, foi emocionante. Eu disse: "Mãe, não gosto de ser mulher na sociedade. Não gosto de ser nem para mim, muito menos para os outros". Ela ficou estática, me olhando. Depois de alguns segundos, me abraçou e disse: "Vamos entender, descobrir juntos. Eu vou te ajudar, vamos lá, com calma". Ela é Deus. Me deu a vida quando nasci e continua me dando vida até hoje. É como uma injeção de vida atrás de vida.

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Como tem sido seu tratamento?
Com 18 anos, me inscrevi no SUS mas, até os 19 anos, eu ainda estava na fila. Desisti. Nessa época, com o dinheiro da minha mãe e mais o meu, que havia começado a trabalhar, iniciei o tratamento de forma particular. Fazia sessões de terapia e passei também a tomar hormônios masculinos. Durante uma época, parei com o psicólogo e foi um erro enorme porque cheguei a pensar em me matar. Agora, em 2019, consegui uma vaga na Clínica da Família, no serviço público. Vou continuar o tratamento pelo sistema público. O tratamento com hormônios é para a vida toda, e o início foi muito duro. Passei pela puberdade de novo. Foi horrível. Tinha picos de humor, ficava irritado, minha pele ficou zoada. Quando abandonei a terapia, meu coração batia mas eu não saía da cama. Isso já é morrer.

O que te ajudou a sair da depressão? 
Minha mãe e meu irmão, que são dois anjos que caíram do céu. Via minha mãe triste. Era injusto com ela. Comecei a me forçar a pensar: "Eu escolho viver, escolho ser feliz. É meu direito. Minha mãe me botou aqui para ser feliz, não para sofrer". Hoje, sou realmente feliz. Mas, dentro do armário, não era. Ninguém é. Esse armário é equiparável ao inferno. 

Qual foi o primeiro dia feliz desde que você começou a transição? 
Quando fui ao cartório pegar minha documentação alterada, com o nome social de Erick, no ano passado. Foi como se alguém me salvasse do afogamento. Ouvi um "Aleluia" dentro da minha cabeça, acho que ouvi até meu choro no parto. Queria sair gritando e pulando. Tive dois nascimentos. Meu terceiro é hoje, dando esta entrevista. Estar aqui sem medo de ser quem eu sou é um alívio enorme.

A decisão da transição afetou seu convívio social de alguma forma?
Eu cometi um erro. Quando comecei o tratamento hormonal, eu me isolei. Fui morar em outro bairro, longe de todo mundo. Conheci pessoas novas, fingindo que era um homem cis (uma pessoa do sexo masculino que se identifica como tal). Eu queria apagar minha história até aquele momento. Não queria ser visto como uma pessoa trans, não queria esse título. 

Seu pai expôs sua condição de gênero sem a sua autorização. Como é a relação de vocês hoje?
Quando ele me disse que entraria na política, pedi que não me citasse. Apresentei a ele os dados que mostram como é perigoso ser transgênero no Brasil. Mas, acho que ele julgou ser prudente falar de mim. Foram duas entrevistas. Na primeira, fui pego de surpresa, uma amiga que me contou. Eu entrei em pânico. Depois da segunda, logo no fim da campanha, fiquei muito bravo. Liguei para ele e pedi que não falasse mais de mim. Ele disse um "tá bom" bem seco. Desde então, não nos falamos mais. 

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Como foi a reação do seu pai ao saber que você se sentia um homem e faria a transição?
Eu o via muito pouco, três vezes por ano. Meus pais são separados desde que eu era criança. Ninguém contou de fato para o meu pai meu sobre a minha transexualidade. Ele foi tirando as conclusões por si próprio e um dia me perguntou. Aí eu disse que era isso mesmo e seguimos o baile. Não me lembro como foi a conversa. Apaguei completamente da minha memória. Ele não se opôs, mas não quis acompanhar. Não ofereceu ajuda em nenhum momento. (Wilson Witzel é casado pela segunda vez e tem outros três filhos, além de Erick). 

Seu pai, além de político, é evangélico. A revelação de que você é trans causou alguma reação nesses círculos dele? 
Comecei a ser seguido nas redes sociais por muitas pessoas. Alguns eram apenas curiosos e outros eram apoiadores do meu pai. Essas pessoas ficaram muito bravas. Uma delas me disse que meu "tipo de gente", a população LGBT, tem de ser silenciada, e que ela riria muito quando me visse morto no caixão. Essa me deu medo. Pelo menos, depois que a campanha acabou, as mensagens de ódio diminuíram. Agora, 99% delas são carinhosas.

Você passou por alguma cirurgia modificadora? 
Sim, por mastectomia, em 2015. Eu pensava: "Como as mulheres gostam dos seios e eu não gosto?". Via que elas sentiam prazer em usar um sutiã mais bonito, um biquíni legal, um decote. Eu odiava. Queria um peitoral, queria ir para a praia sem camisa. Mas não para fazer topless. Queria estar sem camisa com um peitoral masculino. 

Pode contar de algum momento curioso da sua transição? 
Claro. Aconteceu quando fui fazer o alistamento militar, no ano passado. Não sei como não desmaiei naquela fila. Achei que iria enfartar. Quando chegou minha vez, entreguei para um homem velhinho dois documentos, meu RG com o nome de Erick e um papel que o cartório me deu que explicava a minha condição de transgênero. Aí, eu disse pra ele: "Meu nome está aqui, mas esse outro papel é porque eu troquei". Comecei a me embaralhar todo, falar um monte de coisa para o cara. Ele ficou me olhando e, quando parei de falar, disse: "Meu filho, o que aconteceu eu não quero saber. É esse papel aqui, né (o RG)? Então o que importa é esse aqui". Meu processo de alistamento continua rolando. Vou ter a resposta esse ano. Não quero ir para o exército, SOS.

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Mudou alguma coisa no seu trabalho depois da transição?
Eu já era Erick quando comecei a trabalhar no hotel; então não tive problemas. Mas tive no trabalho antigo com uma funcionária do RH. Ela não deixava que eu usasse o vestiário masculino. Quando não tinha ninguém perto, eu corria escondido até a primeira cabine disponível. Uma vez, precisei ir até o RH falar de burocracias e ela me chamou pelo meu nome antigo. As colegas dela corrigiram: "Respeite o garoto". E ela disse que eu não era garoto, mas garota. Foi horrível. 

Seu Instagram bomba de pedidos de namoro. Tudo bem em casa, com sua namorada? 
Sim. Eu sempre respondo a essas mensagens dizendo que sou comprometido, que sou casado. Não no papel. Até fomos ao cartório, mas descobrimos que não temos dinheiro para casar. Quero fazer o negócio direitinho, mas preciso esperar um pouco. 

*Agradecimentos à Galeria Scenarium