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Carreira e finanças


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Demissão: perder o emprego faz você viver um luto difícil, mas necessário

iStockphoto/Getty Images
Luto por perder emprego existe, mas há recursos que podem amenizar a situação Imagem: iStockphoto/Getty Images

Carolina Prado e Simone Cunha

Colaboração para Universa

23/01/2019 04h00

O trabalho é uma atividade que ocupa lugar central no cotidiano da maioria das pessoas, além de ser usualmente a principal fonte de renda. "Por isso, podemos falar que, em uma situação de perda de emprego, há um processo de luto", afirma a psicanalista Camila Morais, mestranda em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. E, nesse momento, não adianta tentar ignorar o que sente. 

A demissão pode provocar diversas emoções, como culpa, medo, injustiça, vergonha e tristeza. "Permita-se vivenciar cada um deles. Mas permitir-se não significa ficar sem se movimentar. O isolamento pode ser ainda pior nesse período, por isso, aproveite a oportunidade para fazer uma análise de sua postura profissional e da carreira até aquele ponto", recomenda a consultora Renata Aranega, MBA em Gestão Empresarial da Fundação Getúlio Vargas.

Mas não vale se culpar pelos possíveis erros cometidos, nem deixar o baixo astral comandar a situação. "É importante listar as qualidades que você tem, avaliar o que fez de positivo durante o período em que esteve na empresa", diz Renata. Dessa forma, é possível reconquistar a autoconfiança e retomar os contatos, abrindo o jogo e pedindo indicações a quem pode realmente ajudar. 

"Chorei muito quando recebi a notícia", conta Bruna Reis, 26 anos. Ela era recepcionista de uma multinacional e, após um ano, às vésperas de sair de férias, foi demitida. "Era muito feliz, trabalhava meio período, tinha um bom salário e estava fazendo faculdade porque almejava ser promovida e ter um plano de carreira ali", diz. 
Ela conta que ficou mais de um ano desempregada e isso contribuiu para que a sua recuperação demorasse a acontecer: "Sentia muita saudade da empresa, das pessoas e do meu trabalho. Após três anos, percebo que o luto foi vencido". 

Em geral, a superação da demissão ocorre com a obtenção de um novo emprego. Mas, para isso, é preciso vivenciar o luto, se dar o direito de ficar triste, com raiva ou mais introspectivo por um tempo. Mas tão importante quanto é elaborar a perda e seguir adiante. "Caso contrário, a pessoa pode provocar uma perda dupla, do que já foi e das chances que aparecem. Mesmo sem muito ânimo, vale fazer conexões, procurar compreender o que está acontecendo no mercado e até focar em encontrar empresas semelhantes, se deseja manter-se na mesma área", explica Wilma Dal Col, diretora do Manpower Group, empresa global de recrutamento e seleção de profissionais.

Livre-se dos ressentimentos   

"Fui chamada pelo dono da escola e a responsável do RH e ambos falaram que eu seria desligada da empresa por um tempo, como se fosse um namoro. Não imaginava que seria demitida e me senti muito injustiçada, pois era bastante dedicada", afirma Soraia Menezes*, 34 anos, auxiliar de secretaria. Ela acredita que foi dispensada porque uma pessoa tinha ciúme dela e tentou prejudicá-la

Segundo as especialistas, após a demissão, o que vale, mesmo, é refletir sobre as lições aprendidas e não ficar remoendo a história. "Tentar encontrar justificativa gera um desgaste. É preciso colocar energia para voltar ao mercado, pois isso ajudará a se reconectar com a autoestima", diz Renata. 

Embora dolorida, a rescisão é uma das fases da vida profissional e pode ser provocada por motivos diversos, como reestruturação de estratégia ou contenção de gastos, sem ser, necessariamente, uma questão pessoal.

Redes sociais

No período do luto, que pode durar dias ou meses, manter-se nas redes sociais pode piorar a dor. Sentindo isso na pele, Bruna optou por excluir os colegas da empresa, para não ficar acompanhando os momentos felizes deles ou as novidades da companhia. 

Mas excluir todos pode ter um impacto grande sobre a sua rede de contatos, portanto, a decisão deve ser bem pensada. "O sentimento de ser preterido dói muito, por isso, vale se autopreservar, talvez apenas com um silêncio temporário", afirma Wilma. 

Mudança de planos

O influencer Lucas Nascimento, 23 anos, trabalhou um ano e meio em uma empresa de comunicação. Na época, era estudante e se deslumbrou. Amava o trabalho e recebia um bom salário, que garantia a mensalidade da faculdade, passeios e viagens. A notícia da demissão acabou mudando completamente seus planos. "De cara, cancelei uma viagem que estava planejando para o exterior. Depois, tive que trancar a matrícula da faculdade, fiquei sem dinheiro e perdi o padrão que havia conquistado. Bateu uma tristeza arrasadora e caí em depressão", conta.

Os pais o ajudaram no período e o encaminhamento para uma psicoterapia foi decisivo para que ele se reerguesse profissionalmente: "A lição foi grande e aprendi a ser mais humilde". 

Quando a angústia e o desconforto com a nova situação demoram a passar, é essencial buscar ajuda profissional, como fez o Lucas. Uma boa pedida é tentar enxergar a situação como uma grande oportunidade de revisitar seus valores e estilo de vida e de recomeçar ainda mais alinhado aos seus propósitos. 

* Nome trocado a pedido da entrevistada