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Mães e filhos


Mães e filhos

Casal de lésbicas faz duplo tratamento: uma engravidou e as duas amamentam

Michelli Crestani
Melanie foi quem engravidou dos gêmeos Bernando e Iolanda, mas tanto ela como Marcela amamentam os bebês Imagem: Michelli Crestani

Renata Turbiani

Colaboração à Universa

21/01/2019 04h00

Quem vê a produtora cultural Melanie Jeanne Maria de Carvalho Graille, de 29 anos, e a arte-educadora Marcela Rebelo Tiboni, de 36 anos, com os gêmeos Bernardo e Iolanda, de três meses, nos braços, cada um mamando no peito de uma mãe, não imagina tudo o que elas tiveram de fazer para realizar dois sonhos: serem mães e amamentarem os filhos.

As duas sempre quiseram ter filhos, tanto que logo que se conheceram, em 2013, em São Paulo, já falaram a respeito. Depois que o namoro engatilhou e a relação amadureceu, foram várias conversas até decidirem quem gestaria o bebê. "A vontade da Mel acho que era maior do que a minha, então, abri mão", conta Marcela.

Em 2017, o casal começou a pesquisar sobre reprodução humana assistida, bancos de sêmen, valores e clínicas e, no ano seguinte, iniciaram os procedimentos em um instituto em Santo André, na região do ABC Paulista.

Durante alguns meses, elas se dedicaram à realização de exames e escolha do doador. Em seguida, começaram o tratamento. Os óvulos de Melanie foram colhidos em novembro. "Conseguimos seis, mas apenas dois evoluíram. Inicialmente, tínhamos pensado em congelar um, para ter um filho de cada vez, mas, como talvez só tivéssemos essa chance, implantamos os dois", explicam. 

A fertilização in vitro (FIV) aconteceu no dia 29 de janeiro de 2018 e, em 12 de fevereiro as companheiras receberam o resultado positivo e uma surpresa: estavam esperando gêmeos.

Michelli Crestani
Marcela teve que fazer um protocolo de indução de lactação para fazer a amamentação conjunta Imagem: Michelli Crestani

Amamentação conjunta

Apesar de os bebês não terem sido gerados em sua barriga, Marcela tinha o desejo de amamentá-los, exatamente como Melanie faria após o nascimento. "Para mim, era importante vivenciar isso. Passei a investigar o assunto e descobri que era possível", diz a arte-educadora. 

Com a ajuda da equipe de uma clínica localizada da capital paulista, que já estava fazendo o acompanhamento da gestação do casal, ela iniciou, na 20ª semana de gravidez da parceira, um protocolo de indução da lactação.

Ele consistia no uso de medicações --todas prescritas pela ginecologista--, como hormônios, para aumentar os níveis de estrogênio e progesterona, e simular uma gravidez no seu corpo, e galactogogo, substância que eleva a prolactina, cuja principal função é estimular a produção de leite pelas glândulas mamárias.

Faltando seis semanas para o parto, os hormônios foram retirados. No mesmo dia, Marcela passou a utilizar uma bomba elétrica para incitar ainda mais a produção. "Eu fazia a ordenha cinco vezes ao dia, mais ou menos a cada três horas. Na primeira semana saiu apenas uma gota, e só isso já foi incrível. Eu e a Mel ficamos muito emocionadas. Na terceira semana, consegui ter uma produção maior e, perto do nascimento, congelei 500 ml".

Kely de Carvalho, consultora internacional de amamentação da Lumos Cultural, que acompanhou o casal no período, explica que nem todas as mulheres reagem da mesma forma e que o leite não sai jorrando do peito de um dia para o outro. "Mesmo seguindo o protocolo corretamente não dá para garantir resultados, até porque cada corpo funciona de um jeito. De toda forma, o fundamental neste processo é buscar o auxílio de especialistas, pois existem contraindicações e todo um passo a passo e orientações que precisam ser seguidos", complementa. 

No caso de Marcela, logo após a chegada de Bernardo e Iolanda --eles nasceram com 37 semanas e 5 dias, de cesárea, apesar do desejo e da tentativa de um parto natural humanizado-- ela já conseguiu amamentá-los. Nos primeiros dias, inclusive, pelo fato de Melanie ter feito no passado uma cirurgia para redução de mamas, o que afetou sua produção de leite, ela ficou responsável por 80% das mamadas.

"Isso foi tão especial. A gestação é algo orgânico, você vai vendo as mudanças no seu corpo dia a dia. Comigo, não. Não tive nenhuma alteração física, a não ser aumento dos seios, e, de repente, estava lá produzindo leite, depois com meus filhos nos braços, dando de mamar. É algo incrível", celebra.

 
Rotina organizada

Atualmente, as duas mamães têm alimento suficiente para os gêmeos. Apenas vez ou outra precisam recorrer a fórmulas indicadas pelo pediatra. Nesses momentos, elas utilizam a técnica da relactação (ou translactação). Ela funciona da seguinte forma: uma sonda é acoplada a um recipiente com leite --pode ser a mamadeira-- e tem sua ponta fixada no bico do seio materno, a fim de que o bebê sugue os dois ao mesmo tempo para, além de se alimentar, continuar estimulando a produção do líquido.

Na casa do casal não existe uma divisão de amamentação durante o dia. "O Bernardo e a Iolanda mamam por livre demanda (sem horários determinados), e a mãe que estiver mais perto de quem está com fome, ou com mais disponibilidade, é a que vai se encarregar disso", informam.

À noite, no entanto, a situação é um pouco diferente. Melanie cuida do menino e, Marcela da menina. "É até divertido, porque em algumas noites o 'meu bebê' não acorda e 'o dela' sim. Em outras acontece o contrário. É meio que uma loteria, com o bebê premiado", brinca a arte-educadora.

História vai virar livro

Com tanta história para contar sobre a gravidez envolvendo duas mães, Marcela decidiu escrever um livro. "No começo de toda essa aventura estávamos superperdidas. Como sou muito da literatura, fui atrás de alguma obra sobre o assunto, algo que pudesse nos ajudar, mas, para minha surpresa, não encontrei nada. Resolvi então escrever eu mesma, e foi ótimo, meio em tempo real, acompanhando tudo o que acontecia."

O livro, ainda sem título definido, e que abordará a fertilização, a compra do sêmen, a escolha do doador, o protocolo para que ambas pudessem amamentar e o processo para emissão da certidão de nascimento em nome das duas, será lançado nos próximos meses pela Ema Editora. 

E tem mais: Lívia Perez, cineasta e diretora dos documentários "Quem Matou Eloá" e "Lampião da Esquina", está fazendo um longa-metragem sobre o casal. Batizado de "M", ele mostra o dia a dia de Marcela e Melanie desde o quinto mês de gravidez até o pós-parto. O projeto agora está em busca de financiamento para completar a produção e poder chegar às telas brasileiras.