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Carreira e finanças


Carreira e finanças

Egnalda achou pouco ser executiva de sucesso; ela queria voz para os negros

Arquivo Pessoal
Egnalda Côrtes, 45, viu no audiovisual uma oportunidade para falar sobre preconceito Imagem: Arquivo Pessoal

Carolina Prado e Simone Cunha

Colaboração para Universa

18/01/2019 04h00

Aos 45 anos, Egnalda Côrtes é uma das pessoas mais influentes do mundo digital. Ela enxergou no audiovisual uma oportunidade de negócio. Motivada pelo entusiasmo do filho Pedro Henrique, o PH, hoje com 16 anos, ela percebeu que poderia manter o ativismo racial em pauta e decidiu apostar em jovens influencers negros. "Para manter esse trabalho, era preciso capitalizar, ter uma estratégia comercial, para que pudessem continuar tendo voz", diz. 

Primeiro, ela direcionou o próprio filho. Era uma questão muito mais pessoal do que profissional. Porém, como a estratégia deu certo, começou a ser procurada por outros jovens que buscavam esse mesmo caminho. Foi assim que nasceu, em janeiro de 2017, a Côrtes Assessoria e Agenciamento, que a colocou no ranking das mulheres mais inspiradoras do ano pelo Think Olga, reconhecimento da ONG Olga, que luta pelo empoderamento feminino por meio de informação. 

Só que Egnalda não era tão familiarizada assim com o mundo digital. "Não fazia vídeos e percebi que isso podia estar ligado com a questão da autoimagem. Eu me obriguei a fazer vídeos no Snapchat para testar e me inteirar desse universo. Hoje, minha plataforma são os stories; neles vendo a imagem da minha empresa", conta. 

Transformando sonhos em profissão 

A agência comandada por Egnalda trabalha apenas com criadores negros e, para participar, é preciso apresentar um bom conteúdo. Até mesmo o humor tem de ser inteligente e todos são ativistas. "A questão política é essencial para garantir discussões e conseguir notoriedade", afirma. Quando PH assistiu à peça teatral "O Topo da Montanha", com Lázaro Ramos, ele sentiu-se motivado a lutar contra o racismo. Ela tentou segurar a euforia do jovem e avisou: "Calma, você tem apenas 13 anos". Mas ele retrucou que, com a mesma idade, ela já se posicionava. Naquele momento, Egnalda percebeu que não deveria freá-lo, mas incentivá-lo. 

Ambos começaram a pesquisar sobre líderes negros estrangeiros e brasileiros, mas a mãe estabeleceu algumas regras, e uma delas estava relacionada com a imagem. Ele não podia postar qualquer vídeo, tinha que escolher um tema sério e precisava de uma produção à altura. "Foi dessa forma que comecei a me envolver com os projetos", conta. Ela ainda ficou um tempo acompanhando-o nessas produções, até chegar ao Google para realizar alguns cursos, e perceber que o digital contava com a participação de poucos negros. "Eles existiam, mas precisavam estar mais presentes", afirma. 

Devido à experiência na área comercial, Egnalda percebeu que poderia fazer disso um negócio e seguiu adiante. Afinal, se houvesse mercado, o trabalho de PH também estaria garantido. Como mentora da assessoria, seu trabalho é buscar publicidade para o próprio canal e contratos com marcas que utilizem o conteúdo gerado pelos criadores agenciados. Além disso, os influencers podem participar de eventos, palestras e painéis de debates. É isso que faz o negócio girar, garantindo a renda financeira de todos os envolvidos. "Não é só entretenimento, é trabalho, compromisso, ativismo digital e empoderamento do negro", explica. 

Atualmente, a agência é apenas um de seus negócios; Egnalda também faz curadoria para marcas que buscam o ativismo e querem direcionar um olhar mais voltado para as questões de raça. No Google, ela atua como mentora de aceleração comercial para canais diversos. Todo esse trabalho gera visualizações e seguidores e, no digital, uma coisa está linkada com a outra, fazendo o projeto realmente acontecer. 

Realizada, em uma área completamente diferente  

"Meu trabalho é muito comercial", diz Egnalda. O primeiro emprego foi como vendedora em uma loja de shopping mas, já aos 19 anos, ela entrou para o mundo do contact center. Trabalhou quase 23 anos na área, em que começou como operadora de telemarketing. Passou por vários cargos de gestão, até virar executiva. "Fui muito feliz nessa carreira", afirma. 

Ela lembra que, na época em que iniciou a carreira, na década de 1990, a área era bastante valorizada. Para conseguir uma vaga, era preciso passar por um processo seletivo rigoroso. Mas, em um ano e meio, ela teve três promoções e foi crescendo. Viajou para implantar o sistema em outros estados e dedicou-se muito: conquistou respeito, estabilidade e um salário digno, cujo valor ela não revela, mas indica que alcançou cinco dígitos.

Egnalda manteve essa rotina até 2013. Nessa fase, atuava como pessoa jurídica e realizava projetos específicos, como consultora. Encerrou o último deles e decidiu que ia parar por dois meses. Além do criador PH, ela também é mãe de Maria Morena, hoje com 11 anos, e considerou dar um pouco mais de atenção aos dois nesse intervalo. No entanto, seu filho sofreu um acidente e isso mudou totalmente o rumo das coisas. Ela precisou cuidar dele, enquanto, para se distrair, PH fazia vídeos e postava. Ela era uma mãe-enfermeira e o acompanhava de perto. E, desse período em diante, os caminhos profissionais dos dois seguiram juntos. Atualmente, ela garante que se sente tão realizada como na época em que atuava no contact center, garantindo o mesmo salário de executiva, e ainda com um propósito muito especial: empoderar jovens negros.