menu
Topo

Diversidade


"Cabelo Bombril" gera polêmica na rede: entenda ditadura do cacho perfeito

Reprodução/YouTube
Daiane falou que só usaria crespo sem finalização para uma "festa temática" Imagem: Reprodução/YouTube

Marcos Candido

Da Universa

11/01/2019 04h00

Há uns dois ou três anos, era raro ver mulheres com o cabelo natural. Por anos, a mulher brasileira, que é majoritariamente crespa e cacheada, se viu obrigada a usar chapinha e fazer alisamentos químicos para seguir um padrão de beleza imposto, o de ter cabelos lisos. Isso está sendo superado. Muitas mulheres passaram pela transição capilar, seguida do big chop -- cortaram os cabelos bem curtos ou rasparam a cabeça buscando se livrar de químicas anteriores para, enfim, ver seus cabelos crescerem de maneira natural. Nas prateleiras dos mercados e farmácias, o que se viu foi uma profusão de produtos que privilegiavam o cacho. Não apenas uma consequência de lavar o cabelo e deixar secar naturalmente, as curvas perfeitas nos fios viraram um objetivo. 

Isso nos traz até aqui, 2019: em meio a um sem fim de blogueiras e youtubers que falam sobre cachos nas redes, Daiane Nascimento causou polêmica em dezembro em seu canal no Youtube voltado ao cuidado para cabelos cacheados. Canais assim normalmente são reconhecidos por incentivarem as mulheres a manterem os fios naturais. Mas mesmo seguindo essa premissa em seu canal, seu vídeo foi acusado de racismo e gerou discussão sobre aceitação e autoestima na rede. Nas imagens, Daiane escova o cabelo seco até deixá-lo bem volumoso. Enquanto mostra o fio natural, ela afirma que parece "com Bombril" ou de uma "nega maluca". 

"Olha isso aqui, gente. Parece um Bombril, mano. Não parece um Bombril? Tá horrível isso daqui. Tá muito feio, parece o Bozo. Olha essa textura. Tá horrível. Tá muito com cara de Bombril esse cabelo. Eu to 'chocada' com o meu cabelo. Muito feio, muito horrível. Tá com aspecto de ressecado. Eu não usaria, a não ser em uma festa temática", diz. O vídeo foi produzido em comemoração aos 200 mil inscritos no canal mantido por ela no YouTube.

A publicação teve reação espontânea. Youtubers que se dedicam a cuidados com o cabelo crespo repudiaram a fala. Para elas, os comentários mostram que a aceitação ao cacheado cresceu, sim, nos últimos anos. A questão é que o cabelo crespo ainda sofre preconceito. Usar o termo pejorativo "BomBril" não é aceitável. Já deveria estar claro que a expressão é racista.

Orgulho e preconceito

"Há os produtos que prometem o 'cacho perfeito', com volume, enquanto o crespo continuou sendo tratado como o 'cabelo que não tem mais jeito'", explica Sah Oliveira, youtuber e colunista de Universa.

"Até entendermos que o nosso cabelo é crespo, demora. Por que crespas não se sentem representadas e, assim, não tem a mesma coragem e ousadia para aceitar sem se fragilizar com o que as pessoas vão pensar", diz. 

Gabi Oliveira, do canal DePretas, afirma em um vídeo, em resposta à Daiane, que há um "limite" para pessoas negras na mídia.

"Nós falamos aqui em aceitação, mas ela vai até um determinado nível. Com essa imposição de um mercado de cachos perfeitos, vejo muita menina desistindo da transição" e "voltando a aplicar químicas transformadoras" que, segundo ela, servem para modificar e deixar o cabelo em um padrão.

Na percepção das garotas, não adianta nada que o mercado da beleza feminino tenha superado a "ditadura da chapinha" se o processo de alisamento será trocado por outras químicas para, agora, manter os fios com um cacho aberto de determinada forma. Ou é natural ou não é.

O vídeo de Gabi em resposta à Daiane já conta com mais de 580 mil visualizações.

Outro lado

A Universa tentou falar com Daiane, mas não obteve retorno. O vídeo com os comentários foi excluído, mas continua a circular na rede. Em uma nova publicação, ela pede desculpas às mulheres crespas que se ofenderam com os comentários e afirma que não soube se expressar direito.