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Direitos da mulher


"Não preciso ser de esquerda pra militar": conheça as feministas de direita

Arquivo pessoal
A administradora Renata Ferreira: "Acredito no potencial feminino, mas temos que conquistar nosso lugar por meritocracia" Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

Da Universa

10/01/2019 04h00

A funcionária pública Adriana Turetti, 32 anos, é dona da página Feminista de Direita no Facebook e diz tê-la criado para mostrar às mulheres com que nem toda adepta do feminismo é esquerdista. "Apesar de a maioria das pautas sobre igualdade de gêneros estarem associadas a esse grupo político."

As pautas dela, assim como a de outras entrevistadas nesta reportagem que também se reconhecem como feministas de direita , dizem respeito principalmente ao mercado de trabalho: elas exigem oportunidades e salários iguais aos dos homens. Também querem mais mulheres na política -- pensam, inclusive, em se candidatar. Das referências políticas que a inspiram, citam Joice Hasselmann (deputada federal) e Janaína Paschoal (deputada estadual), ambas de São Paulo.

Elas todas são contra o que chamam de "feminismo tradicional", resumido por elas como um "movimento radical", em que "mulheres exibem partes do corpo em manifestações" e "ferem valores morais e familiares". Buscam mudanças sociais, mas se definem como conservadoras.

Veja, abaixo, relatos de três feministas de direita:


"Não concordo com o discurso de 'morte ao pênis'"

Arquivo pessoal
A funcionária pública Adriana Turetti Imagem: Arquivo pessoal

Evangélica, casada há 10 anos e mãe de um menino de sete, Adriana diz que aderiu ao feminismo e criou a página para mostrar a outras mulheres que elas não precisam se acomodar com a ideia de o homem ser o provedor da família. 

Das amigas de direita com as quais conversa, percebe que boa parte tem a visão de que o marido é o protagonista. "Isso ainda vai levar tempo para mudar, se é que um dia vai mudar, mas é por isso que milito", diz. "Acredito que devemos ser donas da própria história, por isso me considero feminista, ainda que não concorde com pautas da esquerda, como o aborto."

Para ela, grupos radicais criaram um embate entre feminino e masculino, com o qual discorda. "Já ouvi que o mal da sociedade são os homens e que se eles não existissem o mundo seria uma maravilha. Não consigo concordar com uma frase como 'morte ao pênis', que já ouvi de meninas de esquerda; nós precisamos dos homens", afirma. "Quero que a gente viva em harmonia."


"Não há contradição entre ser feminista e votar em Bolsonaro "

Arquivo pessoal
A empresária carioca Marcia dos Santos diz que pretende se candidar à deputada estadual pelo PSL Imagem: Arquivo pessoal

A empresária carioca Marcia Maria Ferreira dos Santos, de 44 anos, diz ser defensora da família e dos valores cristãos e, por isso, "não poderia votar em ninguém menos que Bolsonaro". Não vê contradição em ter escolhido o atual presidente, considerado misógino por alguns, e ser feminista. "Ele é a favor da família, dos valores cristãos e defende as crianças. Eu também." Marcia ainda é a favor da diminuição do Estado na sociedade "como forma de reduzir a corrupção, garantindo a liberdade individual e o desenvolvimento econômico."

Das pautas do movimento, as que mais apoia são estímulo à participação feminina no mercado de trabalho e equidade salarial. Pretende se candidatar para deputada estadual em 2022 pelo PSL e, em sua campanha, diz que vai levantar essas bandeiras. Também quer estimular o empreendedorismo. 

Dona de uma relojoaria, divorciada e mãe de dois filhos, diz já ter sofrido, dentro de casa, com o machismo. "Ouvi do meu ex-marido que um negócio que comecei a tocar iria fracassar. Ele falava como se fosse superior a mim. Mas me dediquei e minha empresa vingou."

Marcia espera de Bolsonaro um governo mais atuante para garantir que as leis de combate à violência contra a mulher sejam colocadas em prática. "E que crie uma maneira de garantir mais oportunidades de emprego." No geral, se diz otimista. 


"Temos que conquistar nosso lugar por meritocracia"

Arquivo pessoal
"Feminismo não é ruim, ruim é a deturpação que fazem com ele", afirma Renata Ferreira Imagem: Arquivo pessoal

Diferentemente de Marcia, a administradora Renata Ferreira, de 29 anos, acredita que o Estado não tem que interferir na sociedade e, por isso, não se deve esperar do governo ações contra desigualdades de gênero no trabalho. "Acredito no potencial feminino, mas temos que conquistar nosso lugar por meritocracia", afirma.

Solteira e sem filhos, diz ser conservadora e contra "ideias novas". "Venho de uma família militar cristã, então tenho comigo esses valores. É nessa base que eu acredito, no fazer por merecer." Mas defende uma mudança de mentalidade e o fim do machismo. "Mulheres são julgadas incapazes."

Para Renata, que é vice-presidente do Movimento Brasil à Direita, feminismo não é doença, como já afirmou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), em quem ela votou. "Ele se referiu ao jeito que a esquerda age. Sair sem roupa na rua, fazer protestos em frente a templos religiosos, mexer com a fé e com a cultura alheia. Nisso eu concordo com ele. Feminismo não é ruim, ruim é a deturpação que estão fazendo com ele. Nunca vamos ter paz desse jeito."