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Mães e filhos


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Gestação não é só coisa de mulher: terapeuta ajuda homens a serem bons pais

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"É necessário haver uma desconstrução deste masculino tóxico que existe há milhares de anos", diz Imagem: iStock

Bárbara Stefanelli

Colaboração para Universa

10/01/2019 04h00

Quando Tiago Koch, 35, e sua mulher decidiram se tornar pais, o terapeuta formado em naturologia passou a pesquisar sobre o papel do homem na gestação e sobre paternidade em geral. Em vão. Suas buscas pela internet não o auxiliaram, já que o conteúdo sobre o assunto é normalmente voltado para as gestantes. 

"Nessas procuras, percebi que nenhum conteúdo respondia minhas dúvidas, nada conversava comigo. Acho que 99% dos conteúdos eram voltados para as mulheres. Claro, elas são as protagonistas da gestação, mas eu também queria entender melhor." Além de não achar o que ler sobre o assunto, Tiago também não tinha amigos com quem compartilhar as experiências.

É realmente um padrão dos homens não falar sobre assuntos mais profundos. As respostas que eu ouvia, quando conversava com outros amigos, eram normalmente superficiais, do tipo 'Deixa isso para lá, gestação é coisa de mulher'. Eu me via realmente bem sozinho e perdido dentro desse cenário.
 

Para contornar essa lacuna, ele mesmo resolveu criar, no começo de 2018, o projeto Homem Paterno, que visa apoiar, tirar dúvidas e prestar atendimentos a homens que estão vivenciando a gestação, parto e puerpério --fase do pós-parto em que a mulher experimenta modificações físicas e psíquicas-- das mães de seus filhos.
 
As consultas são feitas de forma individual ou coletiva, por meio de rodas de conversa, palestras e vivências. "O pilar principal de todo meu projeto é olhar para a masculinidade. Digo que, antes de sermos bons pais, precisamos ser bons homens. E se tornar pai deve ser uma transformação deste homem, uma evolução e amadurecimento dele." 

O que os homens precisam saber?

De acordo com Tiago, quando esse homem prestes a se tornar pai resolve se informar sobre a paternidade e gestação, ele acaba criando mais empatia pela companheira. "Essas mulheres passam por um renascimento; elas não serão mais como eles as conheciam antes. Mas vejo que a maior parte dos homens não tem a menor noção do que é o puerpério para as mulheres."

"Nunca vamos engravidar ou passar pelo pós-parto e o homem não consegue enxergar as necessidades e vulnerabilidade da mulher. Então, a única forma de se colocar no lugar do outro e criar empatia é por meio do conhecimento."

É geralmente nesta fase conturbada após o nascimento do bebê que começa o desalinhamento entre os casais. "Muitos homens, por não entenderem tudo isso que está se passando com essa nova mulher, acabam se sentindo sós. Alguns chegam a 'pular fora do barco'." 

E, para Tiago, a parceria entre o casal, inicialmente, tem que partir muito mais do homem do que da mulher. "Ele tem que tentar entender e conhecer mais sobre essas transformações. E, a partir disso, eu acho que naturalmente a mulher começará a ver essa mudança e passará a valorizá-lo mais."

Uma nova geração de homens

O naturólogo percebe que muitos homens estão interessados em refletir sobre esses padrões da masculinidade para se tornarem melhores. "Vejo muitos grupos surgindo com esse objetivo. Já tem muita gente despertando." 

Ele sabe, no entanto, que essa mudança não acontecerá do dia para a noite. "É necessário haver uma desconstrução deste masculino tóxico que existe há milhares de anos. Não será lendo um livro ou vendo um filme que esse comportamento vai ser modificado por completo. Temos um longo caminho pela frente."