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Minha história


"Meu ex me agrediu e ameaçou, mas nenhum delegado quis registrar o caso"

Getty Images/iStockphoto
Analista de marketing conta que sofreu agressão do ex-marido Imagem: Getty Images/iStockphoto

Luiza Souto

Da Universa

04/01/2019 00h00

Flavia pausa a fala algumas vezes enquanto relembra a agressão que afirma ter sofrido do pai do seu filho, hoje com 4 anos. A criança, diagnosticada com Asperger, um autismo brando, estava em seu colo, conta ela. Mesmo passado mais de um ano do ocorrido, a analista de marketing digital, de 33 anos, parece não acreditar que até seu pai, de 65 anos, machucou-se na briga tentando acalmar os ânimos. E a violência, frisa, continuou: ela diz que não conseguiu prestar queixa na Delegacia da Mulher e na comum -- segundo ela, ambos os delegados disseram que não valia a pena. E ainda foi intimada para depor: o ex quem registrou um boletim de ocorrência, alegando ter sido agredido por ela e pelo pai. "A lei Maria da Penha nem existiu para mim", reclama ela, que relata à Universa sua história.

"Moramos juntos por quase dois anos na zona oeste de São Paulo, e decidi me separar quando ele deu um soco na porta do carro durante uma discussão.

Neste dia, falei: "Chega. Amanhã essa porta sou eu".

No início do nosso relacionamento, em 2013, ele era um gentleman, daqueles que abrem a porta do carro. Mandava flores no Dia Internacional da Mulher.

Ainda durante a mudança para nosso primeiro apartamento, descobri a gravidez. Ele ficou animado no início, mas dois meses depois começou a ficar estranho e ausente. Todo fim de semana, ele saía para jogar bola enquanto eu arrumava as coisas. Mas quando questionava essa mudança, dizia apenas que era cansaço. 

Na reta final da gravidez, sugeri que nos separássemos, mas ele insistia que queria continuar com o relacionamento. Quando o bebê nasceu, ele passou a ficar até mais tarde no trabalho. E ainda me acusava de passar o dia inteiro em casa, sem fazer nada. Aos fins de semana, levava eu e meu filho para a casa dos meus pais e saía. Às vezes, eu até dormia com eles.

Tive depressão pós-parto e, depois de tantos problemas no casamento, resolvi me separar. Nosso filho tinha cinco meses quando aconteceu o soco na porta do carro.

Ele era muito bom com nosso filho e tentou reatar mas, com o tempo, começou a me acusar de ter destruído uma família, que meu filho não tinha um pai por minha culpa. E também foi desaparecendo do nosso convívio.

Era outubro de 2017 quando ele apareceu na casa dos meus pais com a noiva para levar nosso filho para passear. Aproveitei para pedir aos dois que buscassem mais o menino, porque ele estava reclamando da ausência do pai. 

A noiva dele, de dentro do carro, me acusou de querer me livrar do meu filho e disse que não ia mudar a agenda deles por minha causa. Quando respondi, meu ex colocou o dedo na minha cara, dizendo para eu não responder sua mulher.

O pai do meu filho tem 28 anos, quase 1,90 metro, e eu tenho 1,58 metro. Ele me empurrou depois de ver essa discussão com a noiva dele e o empurrei de volta. Peguei nosso filho de dentro do carro e avisei que ele não levaria mais o garoto. Mesmo com o menino no colo, meu ex veio para cima de mim. Meu pai viu, tentou separar e se machucou. Eu também fiquei com o braço roxo. Entramos em casa para fugir e ele tentou abrir o portão.

Nesse mesmo dia, fui até a uma delegacia comum com meu pai. Era um domingo e o escrivão nos mandou fazer a queixa na Delegacia da Mulher. Quando cheguei lá, o delegado disse que só registra casos enquadrados na lei Maria da Penha de segunda a sexta, e mandou voltar no dia seguinte.

Eu ainda insisti que nem precisava ter a ver com a lei Maria da Penha, até porque tinha meu pai, um idoso, mas o delegado não quis. Insistiu que eu voltasse na segunda. (A reportagem ligou para a delegacia, que confirmou não atender aos fins de semana. As vítimas, numa ocasião parecida, devem dirigir-se à região central, onde há a única Delegacia da Mulher que funciona 24h, ou a uma delegacia comum).

Voltei no dia seguinte e quando contei que já era separada havia três anos e que não convivia mais com o pai do meu filho, o delegado deu a entender que era "apenas" briga de ex-casal e que não se enquadrava na Maria da Penha. Ele mandou então meu pai fazer exame de corpo de delito, mas estávamos cansados e resolvemos deixar para lá.

A lei Maria da Penha nem existiu para mim. Meu sentimento, quando fui em ambas as delegacias, foi a de ter sido vista como uma madame louca que está frustrada porque o ex está com outra. É muito cruel para a mulher essa situação.

Ainda ouvi de amigas de infância que homem é assim mesmo, que eu tinha que relevar porque ele é pai do meu filho. Não, ninguém precisa passar por isso nem relevar nada.

Até achar uma advogada para resolver a questão da pensão e das visitas foi difícil. Muitos acharam que era dor de cotovelo. Já ouvi de delegados e advogados que eu tinha interesse em reatar, perguntavam se a pensão era para mim ou para meu filho e alegaram que, pela minha aparência, eu não precisava de pensão.

Arquivo pessoal
Flavia mostra o braço com marcas roxas, que teriam aparecido após a agressão do marido Imagem: Arquivo pessoal

Recebi algumas mensagens ameaçadoras depois disso, com xingamentos, e registrei um boletim de ocorrência. Ele falava coisas do tipo: "você não é ninguém" e "vou acabar com a sua vida". Recentemente, fui convidada por uma prima dele para uma festa de criança, e eu combinei que só deixaria meu filho lá no local para depois buscar. Ele enviou mensagem mandando eu tomar cuidado, caso aparecesse. Quando fui registrar BO, na Delegacia da Mulher, o delegado se recusou. Disse que era "picuinha".

Em outubro último, eu e meu pai recebemos uma intimação. Meu ex tinha feito BO da nossa briga, alegando que o proibi de ver nosso filho e também que eu e meu pai demos socos e chutes nele e na noiva dele. O próprio escrivão olhou pra gente e perguntou: "mas a vítima é ele?". Aproveitei para anexar fotos minhas e do meu pai machucados.

Ele não vê nosso filho há um ano. Também atrasa a pensão, assim como o pagamento do plano de saúde. Refiz a minha vida, estou namorando, mas se eu vir no meu celular uma mensagem ou ligação dele novamente, entro em pânico. Agora é esperar para ver o que a Justiça vai decidir."