menu
Topo

Minha história


Taxista está fazendo transição aos 55: "Usava as roupas das minhas ex"

Arquivo pessoal
Marcella iniciou sua transição de gênero há seis meses, quando completou 55 anos Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

2018-12-20T04:00:00

20/12/2018 04h00

Começou com uma brincadeira: o artista plástico dinamarquês Einar Wegener (1882-1931) posava vestido de mulher para a esposa, Gerda, produzir suas pinturas. Ele gostou da ideia, até assumir a identidade de Lili Elbe e passar por uma das primeiras cirurgias de readequação sexual da história, drama contado no filme "A Garota Dinamarquesa" (2015). A taxista paulistana Marcella Almeida, de 55 anos e 1,74m, começa a entrevista comparando-se ao casal de artistas. Ela já se vestia de mulher com roupas da irmã na infância e a ajuda de suas ex-mulheres enquanto se identificava como Marcus Vinícius. Foi só há seis meses que iniciou sua transição de gênero. Ela conta como tem sido à Universa.
 
"Tenho uma irmã um ano mais velha que eu. Aos 6 anos, eu pegava as roupas dela e me admirava no espelho. Adorava ser menina. Roubava as calcinhas e colocava batom da minha mãe. Gostava de boneca. Esperava todo mundo sair de casa para ficar me montando.
 
Quando adolescente, era bonito, loiro, olhos claros, e pegava muita menina. Quando elas dormiam, eu colocava suas roupas, ou trocávamos mesmo. Gostava do ser feminino, não para transar. Via uma mulher bonita e a invejava.
 
Minha questão não era ser gay, mas ser mulher. O problema é que, na minha juventude, não tinha acesso a tratamento no Brasil. E aceitei minha situação da seguinte forma: amo Ferrari mas tenho Chevrolet, então serei feliz com o que tenho. Nesses 55 anos, o Marcus Vinícius foi feliz como pode.

Vestia roupas das ex-mulheres

Casei duas vezes. Com a primeira mulher, fiquei cinco anos e tivemos um filho quando ela tinha 14. Ela sabia das minhas manias e transávamos vestidas de mulher, fazíamos trocas de roupas. A segunda mulher, com quem estava há 30 anos, me dava baby dolls.

Arquivo pessoal
Marcella casou-se duas vezes e tem dois filhos Imagem: Arquivo pessoal
 

De uns anos para cá, comecei a acompanhar casos de transição de gênero e imaginar como seria comigo. Estudei os locais em que poderia ser atendida e, há três anos, cheguei ao Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento, em São Paulo. Me inscrevi para o tratamento gratuito, e somente em maio de 2018 me ligaram para a triagem. 
 
Eu sei que não serei 100 % mulher. Eu sou trans. São gêneros diferentes, e o importante é ser feliz.

Fiz exames de sangue para saber se podia tomar hormônio e não tive dificuldade para começar o tratamento. Fui a duas sessões com um psicólogo e, em junho, iniciei a terapia hormonal.

Sem orgasmos

A Marcella nasceu de julho para agosto deste ano, quando estava completando 55. Tomo bloqueador de testosterona. Já emagreci 20kg. Em 40 dias de hormonização, meu sexo encolheu 50%. As calcinhas nem me incomodam. Minha certidão de nascimento já foi mudada. Sempre achei que tinha cara de Marcella. Hoje, por causa do tratamento, choro à toa. Perdi 30% da minha força física. Parece que a massa muscular está derretendo, a pele está fina. Ainda faço depilação a laser. Ser mulher custa caro. Só não tenho orgasmo, mas prazer.

Minha mulher pediu para não fazer a transição. Ela teve um ataque, disse que ia colocar veneno na minha comida. Não pensou que minha vontade de ser mulher sairia das quatro paredes.

Ela vomitou, ficou mal. Contei o que faria no dia do aniversário da nossa filha, de 23 anos. Uma vez, ela foi atrás de mim no DST [sigla usada para o ambulatório]. Queria quebrar meu carro, abriu as portas do ambulatório.
 
A gente se ama muito. Brigamos pouco nesses 30 anos e ela criou meu filho do primeiro casamento. Mas estamos contornando. Ela procurou um psicólogo e já conheceu uma pessoa. Entramos no processo de divórcio.
 
Questionei muito a mim mesma se faria tudo isso. Foram 55 anos da minha vida analisando. E, como ela sabia disso, pensei que aceitaria mais fácil essa transição. Ela ama o Marcus e a Marcella, mas sabe que o primeiro não existe mais. Eu o enterrei. Quando a gente sai, ela me apresenta como uma amiga. 

"Enfiei a Marcella goela abaixo"

Minha mulher se culpa por ter me vestido de mulher durante todo esse tempo. Às vezes, dormimos juntos, e dia desses ficamos. Se ela me aceitasse assim, seria bom, porque sempre a amarei. É difícil perdê-la. Era infeliz quanto à minha sexualidade, mas feliz no casamento. Agora é o contrário. 

Arquivo pessoal
Marcella trabalha como taxista pelas ruas de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal

Eu enfiei a Marcella goela abaixo. Simplesmente acordei, fui no departamento jurídico do transporte público de São Paulo e falei que ia mudar meu gênero. Fui no ponto de táxi que fundei, em Moema, e falei para todo mundo.

Meu filho mais velho, de 31 anos, foi a única pessoa que me ofendeu nesses seis meses de transição. Ele queria que eu me afastasse e o atendi.

Ele está preso após uma briga com um policial e fui na cadeia como mulher visitá-lo. O pessoal de lá falou que ele deveria tirar o chapéu para mim e se encher de orgulho pela coragem.

Minha filha aceitou e meus cinco netos estão aprendendo a conviver. Meus pais são falecidos e minha sogra, que mora conosco, é cega e tem Alzheimer. Não compreende. Acho que minha mãe iria se decepcionar, porque eu era um filho lindo. Minha irmã chora todo dia. Não consegue aceitar. Disse que nunca vai me chamar de Marcella.

Tive amigo que jantava na minha casa e hoje não olha na minha cara. Às vezes fico chateada, porque as pessoas à minha volta estão tristes enquanto deveriam me apoiar. 

Experiência com homens

Nunca tinha ficado com homem e, a princípio, achei que era lésbica. Tenho muito prazer com mulher. Mas conheci um carinha na rede social há dois meses, casado com uma moça e bissexual. Saímos algumas vezes e me senti maravilhosa. Tive muito prazer nos braços dele, porque me senti feminina. Nunca transamos. Me apaixonei como uma menina de 15 anos, e não soube lidar com a situação. Eu queria algo sério.

Contei tudo para minha mulher. Uma vez, marquei de dormir com esse rapaz. Comprei camisola e mostrei para ela. Mas não aconteceu. Também fiquei com um modelo famoso, mas ele é casado e tem filha. Nos falamos até hoje. 

Eu me considero bissexual. Transei com uma mulher dia desses, mas tenho gostado mais de ficar com homem. Minha primeira experiência sexual com homem foi com um menino de 22 anos e foi maravilhoso porque tirei todas as vontades que tive durante esses 55 anos. 

Não sei se farei a cirurgia de redesignação sexual. Num primeiro momento, não queria mais usar meu órgão, mas os caras gostam assim e posso querer usar com uma mulher. Também não sei se colocarei silicone. Não quero ser uma miss. 

Nunca sofri nenhum tipo de agressão, nem tenho medo. Eu votei no Bolsonaro (presidente eleito), mas se ele acabar com o tratamento gratuito para pessoas trans, vou lá e compro os medicamentos.

Depois de ficar 55 anos dentro de um corpo que não é meu, nada me atinge. Pode chamar de travesti, trans, 'viado' mas o que me importa é minha família. Não dependo de ninguém para nada. Uma mulher que foi cliente minha por 20 anos não quer mais meu serviço como taxista, por causa da religião dela. Respeito, e quero que me respeitem também".