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Conhecemos Ariel Barbeiro, ex-presidiário que "blinda" topetes na periferia

Carine Wallauer/UOL
Ariel Franco (ao centro), 25, criou técnica que mantém penteado no lugar por até uma semana Imagem: Carine Wallauer/UOL

Natália Eiras

Da Universa

2018-12-20T04:00:00

20/12/2018 04h00

Há quatro anos, Ariel Franco, 25, aprendeu a cortar cabelo usando lâminas de barbear partidas, tesoura de escola sem ponta e pente de bolso. O salão dele era o Centro de Detenção Provisória de Vila Independência, em São Paulo (SP), onde estava preso por tráfico de drogas. "Quando eu cortava o cabelo eu me sentia livre, porque a minha cabeça saía da cadeia", diz o barbeiro à Universa, que acompanhou uma manhã de trabalho dele. Longe da cadeia há três anos, o jovem agora é conhecido por outro tipo de técnica de blindagem muito diferente da usada na cela que dividia com mais 11 pessoas. Ele é o criador do "blindado", topete que está na cabeça dos meninos de Brasilândia, bairro da zona norte de São Paulo (SP), e da internet, onde ele é chamado de Ariel Barbeiro.

O penteado no estilo pompador, usado por Elvis Presley, foi a base que Ariel usou para criar o topete com degradê nas laterais e mechas desconectadas, moldadas milimetricamente com ajuda de um pente e dedos do barbeiro. Maquiagem capilar garante costeletas e raiz na régua. As cores ficam por conta de spray capilar de Carnaval. O barbeiro garante que o penteado dura por até uma semana. "Para dormir, é só deitar de lado para não amassar", afirma.

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Ariel Franco (ao centro), 25, aprendeu a cortar cabelo na prisão; quatro anos depois, conquistou a internet Imagem: Carine Wallauer/UOL

Começou a vida no crime

Cerca de quatro anos antes de criar o penteado, Ariel era gerente da boca de fumo do bairro. "Entrei bem cedo para o mundo do crime, aos 13, 14 anos. Botei na minha cabeça que era isso que eu tinha escolhido fazer", fala. Ele não mudou de ideia mesmo quando, aos 19 anos, foi condenado a cinco anos de prisão. Ensinada por um colega de cela, a barbearia era apenas uma forma de diminuir a ansiedade da reclusão. "Nunca pensei que eu me tornaria barbeiro para valer", conta.

Tanto que, com um ano de detenção, acabou se envolvendo ainda mais no crime. "Encontraram uma barra de ferro na minha cela e eu e meus companheiros fomos para a solitária", diz. No espaço, do tamanho de um banheiro com um único buraco para ver o céu, ele decidiu que mudaria de vida. "Foi quando me lembrei da barbearia."

No dia 24 de novembro de 2015, ele saiu do centro de detenção. No dia seguinte, pegou uma maquininha emprestada e fez seu primeiro corte de cabelo. Apesar de logo conquistar uma clientela, ele se profissionalizou mesmo quando reencontrou o amigo Paulo Black, responsável pelo cabelo do jogador do Corinthians Ralf e de Ricardinho, vocalista do Art Popular. "Ele disse que eu precisava estudar, para crescer na vida." Ele começou a frequentar cursos e workshops, cujos certificados ele ostenta na parede do salão de quatro cadeiras que abriu há sete meses, na Brasilândia.

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Barbeiro ficou famoso ao colocar seus topetes blindados à prova: nem motocicleta abaixa o penteado Imagem: Carine Wallauer/UOL

Na internet

Empreendedor nato, Ariel sabia que precisava ter um diferencial para se destacar. Primeiro, focou nos cabelos coloridos da molecada. Depois, Paulo o aconselhou a investir em marketing nas redes sociais. "Comprei um celular bom e iluminação [para fazer as fotos]", diz.

O topete "blindado" surgiu há cerca de um ano e meio. Luan, 22, foi "cobaia" de Ariel. O profissional estava fazendo um teste de penteado no jovem. Quando acabou, Luan foi com a mão direto nos fios endurecidos por laquê. "Não mexe, não", alertou o barbeiro. O salão cheio se assustou com o grito de Ariel e com o fato do topete não ter se desmanchado. "Foi quando eu comecei a criar a técnica que garante a durabilidade", narra.

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Luan, 22, foi a "cobaia" de Ariel; topete "blindado" surgiu em teste feito com o jovem Imagem: Carine Wallauer/UOL

Para mostrar a resistência do penteado, Ariel já o colocou, em seu Instagram, inúmeras provas: o blindado enfrentou labaredas de fogo, o peso de um frigobar, marretadas e até o peso de uma motocicleta. Os vídeos surgiram junto com o próprio penteado. "Gravei o Luan mexendo no celular e o cabelo não saindo do lugar. Fez bastante sucesso e não parei mais", conta. Desde então, conquistou 120 mil seguidores no Instagram e o patrocínio de duas marcas internacionais. 

Nas imagens, ele sempre aparece fazendo um sinal de silêncio, sua marca registrada. É um recado para os "haters" do início de sua carreira. "Quando comecei com a onda de cortar cabelo, as pessoas diziam que não daria certo, que eu seria para sempre apenas um criminoso", explica. "Mando fazer silêncio para dizer que não preciso fazer barulho, que o meu trabalho faz por mim."

Atualmente, Ariel recebe 10 clientes por dia na barbearia. "93% dos meus clientes pedem o blindado." Os clientes costumam ser desde crianças até jovens adultos de até 25 anos. O penteado custa R$ 80 e demora cerca de uma hora para ser feito.

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De acordo com Ariel, 93% dos clientes da barbearia querem o topete que não cai por nada Imagem: Carine Wallauer/UOL

Por mais que esteja ficando famoso na quebrada --inúmeras pessoas pararam na porta do salão para comentar com Ariel sobre os memes e montagens na internet-- o barbeiro não tem como principal objetivo assinar o cabelo de pessoas famosas. O olho brilha mesmo é dando workshops e seminários. O jovem que nasceu e cresceu na Brasilândia vai sair do país pela primeira vez em janeiro, quando irá dar aulas no Chile. Em março, ele vai para Itália e Alemanha ensinar a técnica do blindado e pesquisar. "Ensinando eu mudo a vida das pessoas. Quero que mais gente tenha uma transformação de vida que nem eu tive."