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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Premiada nos EUA, cientista ajuda a salvar jovens de drogas e prostituição

Divulgação/Wilker Maia/Grupo Etiqueta
A professora e doutora Joana Félix; Ela e seus orientandos já ganharam 103 prêmios e registraram 15 patentes Imagem: Divulgação/Wilker Maia/Grupo Etiqueta

Natália Eiras

Da Universa

18/12/2018 04h00

A professora e pesquisadora em química de Franca, no interior de São Paulo, Joana Félix, 54, acumula mais de 70 prêmios internacionais na carreira, como o prêmio Kurt Politzer de Tecnologia de "Pesquisadora do Ano", em 2014. Com um pós-doutorado na Universidade de Harvard, ela poderia estar sendo prestigiada nos Estados Unidos. Mas questões pessoais fizeram com que seus planos se alterassem. Há 14 anos, ela muda a vida de jovens em situação de risco em sua cidade natal. "É a transformação através da pesquisa científica", diz a paulistana à Universa. Ela é uma das palestrantes magistrais da Campus Party Brasil 2019, que acontece do dia 12 a 17 de fevereiro de 2019, em São Paulo (SP). 

Desde 2004, a cientista consegue bolsas de iniciação científica para alunos da Escola Técnica Prof. Carmelino Corrêa Junior, que fica em City Petrópolis, bairro da periferia de Franca (SP). Atualmente, Joana tem, ao todo, 20 orientandos, selecionados em um um processo que não leva em conta a nota do aluno, mas sua história. "Os outros professores me falam de jovens que podem estar envolvidos com o tráfico e a prostituição e eu ofereço a bolsa para eles", explica Joana. 

Segundo Joana, o projeto já conquistou 103 prêmios nacionais e internacionais, além de ter registrado 15 patentes. Entre elas estão pele sintética desenvolvida a partir da pele suína e o cimento ósseo para reconstruir fraturas. "Foram todos trabalhos feitos junto com os alunos", esclarece. Nas pesquisas, eles reutilizam sobras do setor calçadista de Franca, que gera 220 toneladas de resíduos diariamente. 

Excluídos

Moradora da cidade conhecida por sua indústria de calçados, Joana cresceu em uma casa construída no terreno de um curtume, onde o couro animal passa por processos químicos para ser tratado e usado na indústria. Como o cheiro do local é muito forte, eram poucos o coleguinhas que iam até a casa dela brincar ou visitá-la. "Eu e meus irmãos éramos conhecidos como Os Meninos Fedidos do Curtume", narra. 

Aos 4 anos, a patroa da mãe, que era empregada doméstica, conseguiu uma vaga para escola em um Senai ao vê-la lendo. "Minha mãe me ensinou para que eu ficasse quietinha enquanto ela trabalhava", ri. Aos 14, ela tinha se formado no ensino médio. O curtume, que lhe rendeu os apelidos maldosos, virou a inspiração para que ela fosse estudar química na Unicamp. "Eu via os químicos com aqueles jalecos brancos e achava lindo", comenta. Formou-se em química industrial e partiu para os EUA, de onde retornou em 2002, após a morte da irmã e do pai. 

Apesar da trajetória de sucesso, Joana sempre se sentiu "por fora" do meio acadêmico. "Eu sei o que é ser excluída, humilhada pelos outros", diz. Por isso, ela decidiu trabalhar com outros jovens que, assim como ela, só precisavam de uma oportunidade. 

Ela explica que teve a ideia de abordar estudantes envolvidos com o tráfico ou prostituição porque percebe que eles não costumam ver que podem ir além do ensino médio ou a escola técnica. E a pesquisa científica é uma forma de "transformar" a vida deles. "Temos o costume de premiar apenas os melhores alunos, mas também precisamos trabalhar com os 'piores', mostrar que todos têm talentos". Joana conta, orgulhosa, que já formou cerca de 34 alunos, 26 deles cursaram ou estão cursando o ensino superior. 

A preocupação com o aspecto social e ambiental da ciência não são à toa. Por ter sempre estudado em escolas públicas, Joana Félix sente que tem uma dívida com os brasileiros. "Eu pude me formar graças aos impostos pagos pelas pessoas", afirma. "Foco em pesquisas aplicadas, que possa mudar a vida das pessoas, porque esta é uma forma de retribuir". 
 

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