menu
Topo

Sexo


Curiosidades: o que as pessoas consideraram fetiches através dos tempos

Reprodução/Domínio Público
Cabelos extralongos eram considerados sensuais na era vitoriana Imagem: Reprodução/Domínio Público

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

15/12/2018 04h00

Para uma peça ou uma característica física ser considerada um fetiche, é preciso levar em consideração o contexto social, econômico e, principalmente, moral de uma época, já que o proibido, como de costume, sempre desperta mais curiosidade. É por isso que, em certos períodos históricos, tocar a mão "nua" de uma mulher ou ver um rápido lance do seu tornozelo deixavam os homens excitadíssimos.

Mãos e dedos

Romances emblemáticos do século XIX como "A Mão e a Luva" (1874), de Machado de Assis, enalteciam o caráter erótico de dedos finos e longos aos olhos sedentos dos rapazes da época. Os toques e os gestos, principalmente quando homens e mulheres dançavam nos muitos bailes de então, eram a oportunidade para aliviar ou aumentar ainda mais a tensão sexual. O fato de a adoção de luvas ser uma regra social deixava a experiência ainda mais sofrida -- e ao mesmo tempo, prazerosa.

Veja também:

Peles

Se hoje há uma patrulha ideológica bastante ativa contra o uso de peles de animais em peças do vestuário, nos anos 1920 as estolas e os casacos tinham passe livre em qualquer situação. Foi uma década em que a mulher, em especial na Europa (que sempre ditou as tendências para o mundo), passou a adotar uma atitude mais atrevida, corajosa, ardilosa e independente - qualidades que, não por coincidência, sempre foram atribuídas às raposas, cuja pelagem foi o fetiche mor da época. Mesmo em dias de calor lancinante, as mulheres elegantes surgiam nos eventos sociais ostentando um animal morto inteiro -- cabeça, pernas e rabo -- sobre os ombros. As gírias "fox" (raposa, em inglês) e "foxy lady" datam desse período.

Cabelos extralongos

Tiveram seu apogeu durante a era vitoriana, por volta do século 19. Conforme as tradições europeias, os fios compridos e soltos frequentemente foram associados à juventude, à pureza, à virgindade e ao romantismo. Depois de casadas, as mulheres deviam prendê-los ou cobri-los com uma touca de renda. Somente os maridos (ou amantes) tinham o privilégio de vê-los e tocá-los soltos, o que alimentava muitas fantasias eróticas.

Tornozelos e panturrilhas

Às vezes, em se tratando de desejo erótico, aquilo que não é mostrado é justamente aquilo que mais desperta a vontade de ver. No século XIX, embora os seios e as nádegas da mulher fossem bastante valorizados em decotes profundos e anquinhas (peça que dava volume ao vestidos), os homens ficavam facilmente excitados com a visão rápida de um... tornozelo. As panturrilhas também faziam grande sucesso -- quando conseguiam ser observadas na intimidade ou sorrateiramente -- e havia um fascínio enorme por meias finas.

Pés e sapatos

São uma parte do corpo dotada de grande simbolismo -- segundo estudiosos, a cena em que Cinderela calça o sapatinho de cristal é uma metáfora do defloramento -- e alvo de fetiche em várias culturas e em diversos momentos. Na China imperial, por exemplo, as dançarinas usavam amarrações e calçados específicos para atrofiar os pés e deixá-los diminutos. No Brasil do século XIX, em que a moda pregava o uso de saias longas, os pezinhos das senhoras despertavam curiosidade. Cientes de seu poder de sedução, muitas usavam sapatos ricamente decorados e bordados. E também caprichavam no modo de andar, movendo-se para deixar a ponta do pé à mostra. Historiadores afirmam que esse foi o truque da condessa de Barral para conquistar o imperador Dom Pedro II. Poetas como Álvares de Azevedo enalteciam essa área da anatomia em palavras apaixonadas. O escritor José de Alencar, por sua vez, construiu toda uma história de amor sobre um homem apaixonado pela "ponta de um pezinho mimoso" visto em um baile em "A pata da gazela" (1870). Em meados do século XIX, uma prostituta francesa recém-chegada para trabalhar em um bordel de elite em Nova Orleans (EUA) trouxe na bagagem vários sapatos de saltos altos, febre na Europa, mas novidade quentíssima no chamado Novo Mundo. Como os clientes passaram a disputar, e a pagar melhor a moça, a dona do local tratou logo de encomendar vários pares para as outras garotas. Muitos homens também fizeram o mesmo para suas esposas. A demanda foi tanta que em 1880 foi inaugurada uma fábrica de modelos de salto em Massachussets.

Lingerie

O interesse por peças íntimas bonitas, gostosas ao toque e sensuais começou por volta do século XVIII e teve seu apogeu entre 1890 e 1910. Até então, as mulheres usavam roupas de baixo práticas de linho que apenas protegiam as "as partes" e não tinham função embelezadora. Além do desenvolvimento de produtos de higiene, foi a disseminação da lingerie que melhorou a qualidade do sexo entre os casais, principalmente no quesito "preliminares". Macias e agradáveis de tirar, as novas calcinhas eram tidas como as grandes responsáveis pela manutenção dos casamentos, já que os homens satisfeitos não procurariam aventuras na rua; uma ideia com uma certa aura machista que perpetua até hoje.

Livros consultados: "A Linguagem das Roupas" (Ed. Rocco), de Alison Lurie; "Fetiche - Moda, Sexo & Poder" (Ed. Rocco), de Valerie Steele; "Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil" (Ed. Planeta), de Mary Del Priore; "O Guia dos Curiosos - Sexo" (Cia. das Letras), de Marcelo Duarte e Jairo Bouer