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Minha história


"Meu padrasto me espancava e chegou a me trancar em um banheiro por 2 dias"

Arquivo pessoal
Samantha Melo Oliveira, que sofria violência doméstica do padrasto Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

Da Universa

14/12/2018 04h00

Samantha Melo Oliveira tinha 13 anos quando foi presa por dois dias, pelo padrasto, em um banheiro da casa em que vivia com ele e a mãe dela. Hoje, aos 32, relembra a história em depoimento à Universa. "No dia que me prendeu no banheiro, disse que era porque eu tinha lavado mal a louça. Ele era violento, me espancava e me dava 'correções', como ele chamava, por algo de errado que eu fazia."

As agressões seguiram até os 16 anos. Nesse meio tempo, a mãe de Samantha também começou a apanhar do marido. O casal, então, se separou, mas o homem se negava a sair de casa. Um dia, ele ameaçou matar Samantha. Para se defender, ela ligou para a polícia. Foi então orientada a ir com a mãe a uma delegacia da mulher. Lá, as duas conseguiram uma medida protetiva, e o agressor foi obrigado a se mudar. 

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"Minha mãe conheceu esse homem, um advogado, quando eu tinha 8 anos. Em dois meses, ele foi morar na minha casa. Lembro que logo no começo ele já se mostrou agressivo com ela. Um dia, estava falando com um conhecido, e ela chegou para participar da conversa. Ele a mandou ficar quieta porque 'a conversa não tinha chegado no chiqueiro'.

Comigo, as agressões já começaram com tapas. Se eu passava o braço na frente dele para me servir, por exemplo, ele dizia que era falta de educação e me dava um tapa na orelha. Uma vez, me bateu tão forte, que minha vista escureceu.

Quando eu fiz 11 anos, a gente mudou para outra casa. Antes, morávamos ao lado dos meus avós, pais da minha mãe. Minha avó o criticava, e ele chegou a proibir visitas dela. Os castigos em casa foram piorando. Uma vez, ele me deu uma surra que deixou meu corpo cheio de marcas roxas. Tudo só porque eu estava na janela da minha casa, brincando com amigas que moravam na casa da frente, que também estavam na janela delas. Dei uma banana para as meninas, ele viu e disse que eu estava fazendo o gesto para ele. 

Mas a pior vez foi quando ele me trancou em um banheiro por dois dias, sem água nem comida. Era um fim de semana. Eu era encarregada de lavar a louça, e ele falou que tinha sabão nos pratos, que eu não tinha enxaguado direito. Me levou para o banheiro, um lavabo desativado, sem lâmpada e sem água. Sentei no vaso sanitário, e ele ficou lá, me xingando. Trancou a porta e me deixou presa. Eu tinha 13 anos.

Eu escutava minha mãe passando e dizia, baixinho, que estava com fome. Não podia gritar, tinha medo que ele ouvisse e me batesse mais. Minha mãe não respondia. Tenho uma cena muito forte na minha memória: eu, sentada no vaso, ouvindo os dois assistindo televisão e dando risada. É horrível. Principalmente porque minha mãe, a pessoa que devia me proteger, estava sendo conivente com aquela violência. Eu rezava e chorava muito. Não lembro como foi o momento em que me tiraram daquele castigo.

Depois disso, ele começou a agredir minha mãe. E eu passei a reagir. Um dia, ele deu tapas no rosto dela. Eu peguei uma garrafa de cerveja vazia e atirei nele. Passou raspando. Ele se virou e falou que ia 'me arrebentar'. Respondi: 'Vem'. Foi a primeira vez que me defendi. Ele começou a me bater e revidei com socos e tapas. Minha mãe entrou no meio e conseguiu nos separar. 

Com 14 anos, comecei a frequentar uma igreja evangélica com a minha mãe. Passávamos muito tempo lá, fizemos amizades. Ele disse que se ela continuasse indo à igreja, ia se separar. Ela não parou. Meu padrasto decretou então que eles estavam separados, mas que ele não iria sair da casa, já que o imóvel estava no nome dos dois. Ele começou a dormir no escritório, e nós duas passávamos dias na casa de amigos da igreja.

Chamamos a polícia em um dia que chegamos em casa e ele estava bêbado. Alterado, nervoso, começou a nos ofender. Ficamos com medo. O policial disse que não tinha muito o que fazer. 'Pega sua filha e vai embora', ele orientou.

Antes disso, eu já tinha recorrido à polícia. Tinha 14 anos, apanhei dele e fiquei com a perna roxa. Minha avó me pegou e fomos fazer um boletim de ocorrência. Na delegacia, soubemos que minha mãe também responderia a um processo. Minha avó então desistiu de denunciá-lo.

Chamei a polícia quando ele ameaçou me matar

Muita gente sabia o que acontecia em nossa casa, e ninguém fazia nada. Quando eu tinha uns 16 anos, tivemos uma briga em que ele me ameaçou de morte. Eu me tranquei no quarto, liguei para a polícia e disse que estava escondida, porque meu padrasto podia me matar. Liguei para a minha mãe e para os meus avós para avisá-los. Até então, ouvia da minha mãe que, se eu contasse o que acontecia para alguém, ela contaria a ele. 

Até que disse para mim mesma que não teria mais medo. Nesse dia, a polícia chegou, registraram a ocorrência, e ele passou a noite fora. No outro dia fomos à delegacia da mulher e conseguimos uma medida protetiva. Fomos informadas que em seis dias a polícia iria à nossa casa fazer com que ele saísse de lá --o que de fato, aconteceu. Um tempo depois, a irmã dele foi pegar suas coisas. E nunca mais soubemos dele.

Hoje vivo com muito amor: do meu marido, que é maravilhoso, e do meu filho de quatro anos. Fiz faculdade de história, dei aula e realizei sonhos, como o de viajar para o Egito. Faço minha segunda graduação, engenharia de produção, falo inglês e francês. 

Vivi muitas coisas ruins. Logo depois de ter sido presa no banheiro, pensei em me matar. Queria fazer a dor parar, já que a situação parecia não ter solução. Sobre minha mãe, entendo que aquele homem fez um jogo perverso com ela. Carente, ela aceitava tudo. Não moramos na mesma cidade nem somos próximas. Ainda é difícil confiar nela.