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Placa proíbe criança com paralisia de brincar: "Ela é totalmente excluída"

Arquivo pessoal
Mãe de Valentina, de 8 anos e com paralisia cerebral, protesta contra placa Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

09/12/2018 04h00

Valentina, de 8 anos, chegou ao Barra Shopping Sul, em Porto Alegre (RS), toda animada para brincar ao lado da mãe em um escorregador, mas foi barrada: na entrada, havia uma placa com uma cadeira de rodas e um xis na cor vermelho em cima, indicando que ali não se podia entrar cadeirantes. A criança tem paralisia cerebral. A ideia da mãe, a pedagoga gaúcha Paula Marques, de 44 anos, era carregar a menina e acompanhá-la no brinquedo, como faz em tantas outras atividades para as quais leva a filha.

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Na mesma hora, postou em sua rede social uma imagem de Valentina em frente ao aviso e cobrou uma posição do estabelecimento: "vocês conseguem me dar alguma explicação para tal exclusão e preconceito tão declarado? Tem certeza que minha filha não tem o direito de ser criança dentro do seu espaço?", escreveu ela.

O shopping respondeu o post dizendo que o intuito "foi apenas apontar os cuidados recomendáveis para acesso ao escorregador". Em nota, o estabelecimento agradeceu a "colaboração, sempre necessária ao aprimoramento das sinalizações dessa natureza e informamos que a sinalização já foi adequada". Procurada por e-mail e telefone, a administração do shopping não se posicionou nem explicou como foi feita essa adequação.

No Dia da Criança Especial (9), Paula Marques conta a história de sua "valente".

"Descobri que a Valentina tem holoprosencefalia (HPE) dois dias após o nascimento dela. Tive uma gravidez normal, e um parto tranquilo. Tanto que os médicos pareciam mais chocados do que eu. Fiquei bem mal por ser uma má formação cerebral com sequelas graves. Valentina tem paralisia cerebral e não anda.

Mas me dei dois dias para chorar e entender o que estava acontecendo. Pensava: o ruim já tenho, então vamos seguir com o que podemos fazer de bom para ela.

Arquivo pessoal
A criança num ensaio como sereia Imagem: Arquivo pessoal

Sempre acreditei que podia fazer tudo para a Valentina. Aos seis meses, ela deu início à fisioterapia, e dentro de casa há uma dedicação total. Sou pedagoga por formação, e escolhi parar de trabalhar para cuidar dela. O estímulo é importante, e levá-la para a rua também, porque é ali onde as crianças aprendem.

Minha filha toma café na padaria de manhã, vai ao parque, anda a cavalo, patina no gelo, anda de avião. É a gente que se adapta a ela, não o contrário. Se ela acha que consegue fazer, se há segurança e a gente pode proporcionar, ninguém pode falar que é proibido. Valentina tem uma vida muito legal positiva e produtiva.

O que me preocupa é poder carregar minha filha, ter um andador, que é muito caro, e construir um mundo adaptado para ela porque, com adaptação, chegamos a qualquer lugar. As dificuldades são as pessoas que impõem. Ela já estudou numa escola da qual o diretor praticamente a expulsou. Ele questionava por que ela tinha que ficar as quatro horas na escola e nunca deu atendimento especial a ela na escola -- atitude obrigatória em instituições de ensino com alunos especiais.

Há alguns dias estávamos no shopping e vi aquela placa. Acredito que nem eles tenham noção do que provoca aquele símbolo. Era uma exclusão total.

A placa estava em frente ao escorregador. Qualquer um podia descer seguindo a regra de segurança. Eu a tiraria da cadeira, e o pai a pegaria no fim do brinquedo. Achei um absurdo a proibição.

Arquivo pessoal
Valentina com o pai, Alexandre, em Porto Alegre Imagem: Arquivo pessoal

Meu objetivo nem era brigar com o shopping, mas impedir que isso se repita, porque na nossa vida esse tipo de situação é uma constante. Já aconteceu de não conseguir chegar ao Papai Noel com ela em época de Natal. Ou não entrar num desses trenzinhos de brinquedo. Ela é totalmente excluída, assim como todas as crianças com deficiência, seja em brinquedos, praças, essas mesinhas para desenho. Nada tem acessibilidade. Esse episódio foi a cereja do bolo.

Quando postei a minha revolta, ainda falaram que estou de "mimimi". O ser humano não se coloca no lugar do outro. Quero dizer que saio com minha filha para andar de bicicleta, skate, fazer stand up. Ela é muito esperta e, como mãe, me sinto na obrigação de fazer as coisas com ela.

Quando as amigas vêm visitar, elas ficam na cadeira de rodas para brincar com minha filha. Isso é empatia, é amor.