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Vício em sexo: veja os sinais que indicam que o desejo virou um problema

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Conheça os sinais que indicam o vício em sexo Imagem: Getty Images/iStockphoto

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

06/12/2018 04h00

Algumas pessoas são mais ligadas em sexo do que outras. Uma libido mais, digamos, animada pode ser o desejo de muita gente, mas pode se tornar um grande problema quando se torna a principal fonte de prazer --ou de contornar a ansiedade-- da vida. Mais do que um contratempo, a sexualidade exacerbada é uma doença que, em 2018, passou a fazer parte da 11ª. atualização da chamada CID, sigla em inglês para a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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O transtorno do comportamento sexual compulsivo, nome correto do chamado "vício em sexo", é caracterizado, principalmente, por atitudes constantes e repetitivas durante um período de tempo de pelo menos seis meses.

"A pessoa tenta se controlar, mas não consegue. Ela começa a priorizar o sexo em detrimento de outras atividades cotidianas, como relacionamentos afetivos, compromissos sociais e profissionais. Nem sempre essa compulsão inclui o sexo com parceiros, mas também o vício em pornografia e em masturbação", conta Marco de Tubino Scanavino, coordenador do AISEP (Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e de Prevenção aos Desfechos Negativos Associados ao Comportamento Sexual) do Ipq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Para o psicólogo e terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do InPaSex (Instituto Paulista de Sexualidade Humana), é necessário compreender que não é o número de vezes que uma pessoa faz sexo que determina o problema, mas a função das atividades sexuais. "O problema é que a pessoa sente-se dominada por 'desejos incontroláveis' e busca constantemente contatos sexuais com pessoas variadas, sem atentar para o autocuidado", afirma.

A compulsão sexual prejudica o dia a dia dos doentes em diversos aspectos. As cenas de decadência física e emocional da personagem Joe (Charlotte Gainsbourg) mostradas em "Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2" (2013), de Lars von Trier, correspondem mesmo à realidade.

"A pessoa cria sofrimento, dor e problemas para si e para as pessoas ou para a sociedade em geral", fala Carlos Eduardo Carrion, psiquiatra especializado em sexualidade, de Porto Alegre (RS). Em tempo: os termos "ninfomania" e o seu correspondente masculino, "satiríase", não são adotados pelos especialistas.

Enfim, as consequências vão desde o comprometimento emocional e dos relacionamentos principais, com brigas familiares, possibilidade de divórcio e perda da guarda de filhos, até isolamento social, queda da produtividade no trabalho e problemas financeiros por conta de desemprego até gastos excessivos com profissionais do sexo e consumo de pornografia e acessórios eróticos. Os perigos mais graves são a contaminação por IST's (infecções sexualmente transmissíveis), já que os compulsivos costumam transar com vários parceiros e, em boa parte das vezes, sem proteção.

"Há, ainda, o risco de detenção pela polícia por atentado violento ao pudor, já que muitas pessoas fazem sexo ou têm atitudes libidinosas em ambientes públicos", comenta Marco.

É frequente, ainda, o uso de substâncias que alteram a consciência, como álcool e drogas, que acabam potencializando situações de risco como o sexo desprotegido. O tema ainda é cercado de controvérsia, principalmente sobre as razões de origem, mas, via de regra, os problemas psíquicos que mais acompanham a compulsão sexual são os transtornos do humor, em especial depressão e ansiedade. Porém, alguns doentes também manifestam outras compulsões, como o vício em compras ou jogo.

Tratamento não exige abstinência

A cura, ao contrário do que se possa imaginar, não é a abstinência sexual. A psicoterapia (em geral, em grupo) é uma parte fundamental do tratamento, pois as pessoas aprendem ferramentas para lidar melhor com a compulsão e aprender a controlá-la.

Medicamentos como antidepressivos e estabilizadores do humor também são utilizados e, em muitos casos, o acompanhamento psiquiátrico deve ser mantido ao longo da vida. A necessidade de internação é rara, ocorrendo apenas em casos em que existem outros problemas psíquicos associados.

"A internação deveria ocorrer quando o risco na saúde seja imediato ou de modo intenso e extremo. O problema com a internação é que quando retornar ao ambiente comum as contingências continuarão existindo e produzindo as mesmas condições anteriores que conduziram ao excesso sexual patológico", diz Oswaldo.

Segundo estatísticas do AISEP, cerca de metade dos paciente consegue administrar a compulsão em aproximadamente oito meses de tratamento. A outra metade costuma apresentar alguns episódios em que a hipersexualidade sai de controle e requer uma observação mais atenta. Ao longo do tratamento --e da vida--, os pacientes recebem instruções sobre como lidar com os gatilhos que costumam desencadear a libido fora de controle: certos ambientes, músicas, consumo de bebida, amizades ou quaisquer outros estímulos que despertam a memória prazerosa do comportamento compulsivo.

"O tratamento, em geral, visa levar a pessoa a se enxergar melhor, diminuir a ansiedade da frustração ao se reprimir um pouco, canalizar parte dessa energia para outros campos. E, ainda, a aprender a ter mais prazer no próprio sexo, substituindo quantidade por qualidade, a procurar outras fontes de satisfação, pois um problema de qualquer vício é os estreitamento do 'cardápio' de prazeres", afirma Carrion. Uma revisão de hormônios e uma eventual investigação mais profunda do cérebro (ressonância magnética e outros exames) também podem ser solicitados.