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Relacionamentos

Como em "Wanderlust", estes casais contam como foi abrir o relacionamento

Divulgação/Netflix
Os atores Toni Collete e Steven Mackintosh vivem um casal que abre o relacionamento após anos de casamento Imagem: Divulgação/Netflix

Jacqueline Elise

Da Universa

06/12/2018 04h00

Na série “Wanderlust”, distribuída pela Netflix no Brasil, um casal (interpretado por Toni Collete e Steven Mackintosh) decide transar com outras pessoas sem desistir da relação, após perceberem que o casamento estava virando uma amizade. Com o passar dos episódios, eles vão se dando conta de que abrir o relacionamento e não desenvolver sentimentos é mais difícil do que parece.

A curiosidade em saber como ingressar em um relacionamento aberto tem aumentado a ponto do assunto ser cada vez mais abordado no entretenimento e nos consultórios de terapia de casais. Mas a transição da monogamia para a relação aberta, sem vínculo afetivo com outros, ou até mesmo para o poliamor ainda é confusa. Como os casais têm lidado com esta nova dinâmica de relação após anos de casamento com exclusividade?

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A arquiteta Palloma Pinheiro, de 25 anos, namora o professor Ezequiel, 26, desde a adolescência. Eles sempre foram monogâmicos, mesmo no começo do relacionamento, em 2009, quando viviam separados: ela morava em Surubim, interior de Pernambuco; ele, em Recife. Dois anos depois, Palloma e Ezequiel ficaram juntos em Recife e continuaram com a exclusividade. Até que, em 2013, veio a notícia da traição por parte de ambos: ela curtiu com alguém sem compromisso, ele estava desenvolvendo sentimentos por outra pessoa.

“Éramos meio conservadores sobre traição e sentimentos. A ideia de se interessar por outra pessoa era abominável, pois se ligava a extinção automática do nosso amor”, explica a arquiteta. Mesmo com esse pensamento, os dois quebraram o compromisso e terminaram. Eles passaram três anos separados, até que reataram em 2016, mas com outro acordo.

“Tivemos uma conversa sobre cada um continuar a viver com liberdade e chegamos ao relacionamento aberto. Tivemos conhecimento desse formato algum tempo antes, com um casal de amigos dele que viviam em um relacionamento aberto e vimos que, para nós, depois de tudo que passou, era uma ótima forma de recomeçar”, relata.

As regras do relacionamento atual envolvem diálogo constante para falar sobre o que estão sentindo e sempre usar camisinha quando se relacionam com outros. Por enquanto, os dois só tiveram encontros casuais.

“Ficar com outras pessoas não atrapalharia nosso relacionamento”

Leticia M. e Everton, ambos de 25 anos, estão juntos desde 2012, quando se conheceram na faculdade, em São Paulo. Começaram monogâmicos e fizeram tudo “como os pais ensinaram”: construíram uma casa juntos e se casaram dois anos depois. Mas sempre com a sensação de que aquela vida “certinha” não era para eles.

A frustração definitiva veio em 2016, quando tentaram ter um filho por um ano, sem sucesso. “Foi a última de uma longa lista de itens que nos fez aceitar que não somos uma família como a sociedade espera”, avalia Leticia.

Um ano após a tentativa de engravidar, o casal contemplou a possibilidade de abrir a relação. “Comecamos a ver que ir para a balada e ficar com outras pessoas não atrapalharia o relacionamento sólido que temos”.

Hoje, eles saem com pessoas diferentes, mas ainda se mantêm como o casal principal, sem envolvimento amoroso com outros. “Nossa base é a conversa. Certamente nosso maior aprendizado é ver o quanto nosso relacionamento é forte e que isso nos permite usar de nossa liberdade”, conclui Leticia.

“A monogamia é uma construção histórica e ideológica”

Ana Maria Fonseca Zampieri, sexóloga e autora do livro “Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade - Sexualidade Conjugal e Prevenção do HIV e da Aids” (Editora Ágora), relata que o número de casais que a procuram para terapia e relatam a vontade de abrir a relação aumentou consideravelmente nos últimos tempos.

“Muitos casais percebem que eles domesticaram a vida erótica e sexual. A rotina é muito difícil de ser evitada, e ela destrói o desejo sexual, que nem precisa ser altíssimo, mas alguns casais acabam ‘zerados’ na vida sexual, mesmo tendo uma boa relação como amigos, tendo um projeto econômico-financeiro que funciona”, explica. “Então eles querem manter o casamento e começam a fazer acordos de abertura para namoros e casos com alguma frequência”.

Ela afirma que, em sua experiência de 42 anos e na pesquisa que realizou para seu livro, descobriu que a monogamia “é uma construção histórica e ideológica”, mas que ainda é difícil se esquivar dela. “Senão a gente desestrutura as famílias, o sistema econômico fica complicado, desestabiliza a criação dos filhos... E as pessoas ainda se casam muito, sejam heterossexuais ou homossexuais”, diz.

Na sua avaliação, uma relação aberta, após anos vivendo juntos, pode “reenergizar um casamento que estava muito sem sal e sem açúcar”, e que até casais mais velhos têm considerado a não-monogamia como opção.

Zampieri diz que o elemento essencial que todos os casais precisam ter caso queiram tentar um modelo de relacionamento diferente é diálogo constante e acordos bem firmados --se podem se apaixonar por outros ou não, se somente encontros casuais são permitidos, se os parceiros podem conviver com a família. “O relacionamento aberto funciona desde que o acordo seja mantido”.

Superando o medo de traição para viver um amor a três

A carioca Rafaela*, 37, tem um casamento feliz com Cris* há 11 anos. Rafaela diz que sempre foi fiel e monogâmica, já Cris tinha traído suas antigas namoradas.

“Fomos fiéis durante sete anos, não sentia a necessidade de outras pessoas”, lembra Rafaela. “Depois desse tempo, Cris se interessou por outra garota. Ela era de São Paulo, e já tiveram um lance pela internet no passado. Descobri o interesse, discutimos, porém ela afirmava que me amava e que não queria terminar, apesar da minha restrição quanto a isso”.

Enquanto passavam por esse impasse, as duas descobriram as relações livres assistindo a um programa de TV. Procuraram mais sobre o assunto, conversaram com pessoas que tinham aberto o casamento e foram vendo que dava para viver de outra forma.

“Veja bem, não que eu não era feliz antes. Aliás, eu era muito feliz, só não sabia que poderia ser ainda melhor e partilhar isso com mais pessoas”, explica Rafaela, que driblou o medo da traição para continuar com Cris e descobriu uma nova forma de amar.

Hoje, Rafaela e Cris dividem a casa com Isabela*, namorada de Cris há um ano e meio, e as três se dão muito bem. “Acredito que nossa convivência é pacífica pelo simples fato de não haver competição entre nós. Aliás, vejo, nas duas, uma solidariedade, empatia enorme em ceder para que a outra se sinta bem. Sim, às vezes nos pegamos, eu e Cris (risos). Não tão frequente como gostaria”, admite.

*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas