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Como é ser um homem trans e precisar ir ao ginecologista

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Ainda é muito difícil encontrar ginecologistas que atendam homens trans Imagem: iStock

Jacqueline Elise

Da Universa

03/12/2018 04h00

É raro encontrar um homem na sala de espera de ginecologista. Quando há, normalmente eles estão acompanhando a parceira. Mas e quando é um homem que precisa de atendimento ginecológico? É o que ocorre com homens transgêneros.

São pessoas que, quando nasceram, foram designados como mulheres, mas perceberam sua verdadeira identidade de gênero com o tempo. Por isso, muitos homens trans possuem vulva, vagina e útero --alguns se interessam em fazer a cirurgia de redesignação sexual, conhecida popularmente como "mudança de sexo", outros não, ou ainda não puderam fazer a cirurgia. No caso de homens trans que não passaram pela operação, ainda é necessário visitar o ginecologista, especialmente após o início do tratamento com hormônios, como a testosterona, que afeta diretamente a menstruação e os órgãos reprodutores. Mas muitos deles encontram dificuldades para cuidar da própria saúde.

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É o caso do videomaker e YouTuber mineiro Lucca Najar, de 27 anos. Em seus vídeos, ele, que iniciou sua transição em 2015, cita que uma das primeiras dificuldades que encontrou foi quando tentou ir ao médico, mas na recepção não sabiam que era para chamá-lo pelo nome social masculino, pois ele ainda não tinha corrigido os documentos de registro, que ainda levavam o nome feminino.

Arquivo Pessoal
Lucca Najar, 27, diz que os constrangimentos já começam antes mesmo da consulta Imagem: Arquivo Pessoal

"Há meninos trans com todos os documentos no feminino, mas que já chegam no consultório com uma aparência mais masculina, e normalmente lá está cheio de mulheres", explica. "Alguns profissionais já lidam com isso, mas a maioria não está acostumada a atender homens trans pelo nome social. E a gente tem outro problema no caso de homens trans que já retificaram os documentos, porque o ginecologista é uma coisa específica do gênero feminino, então se alguém chega com os documentos todos no masculino, é um problema".

Fez o tratamento hormonal clandestinamente por não querer ir ao médico

Pietro  Zacarelli, 22 anos, mora em Catanduva, interior de São Paulo, e é um dos coordenadores municipais da Aliança Nacional LGBTI e administrador da página "Homens Trans" no Facebook. Ele conta que sempre teve receio de ir ao médico, "por medo de sofrer preconceito". Por conta disso, passou a tomar os hormônios por conta própria e comprava o tratamento clandestinamente, o que lhe custou diversos problemas de saúde.

"Eu só fui a médicos depois da minha mulher e minha família se juntarem para me arrastar até um posto de saúde. Eu acabei sendo um pouco egoísta e não queria aceitar a ajuda dos meus familiares para pagarem consultas ou medicamentos, então me virava como podia", relembra. 

Arquivo Pessoal
Pietro Zacarelli teve que brigar no SUS para ter seus direitos respeitados Imagem: Arquivo Pessoal

Quando passou a se consultar com frequência, na rede pública de saúde, os problemas continuaram. "Eu tive que brigar em quase todas as consultas, tanto na secretaria como com os médicos despreparados e sem vontade de atender meu caso. Meu nome social acabou não sendo respeitado por diversas vezes e eu tive que aprender a conversar e explicar meu lado para as pessoas ao invés de bater de frente, desistir ou sair chorando. Chegava nas consultas e na triagem já vinham as perguntas sobre mudança de sexo. Então eu fui procurando meus direitos, até que deu certo".

Hoje, Pietro conseguiu realizar a mastectomia e a histerectomia, as cirurgias de retirada dos seios e dos órgãos reprodutores, respectivamente. Ele também regularizou seu tratamento hormonal e agora está bem.

A importância da ginecologia para o homem trans

O acompanhamento médico para homens trans deve ser contínuo por conta das alterações que os hormônios causam no corpo, principalmente a testosterona, principal "masculinizador": não só a voz engrossa e os pelos começam a crescer, mas ocorre também a menopausa e os órgãos reprodutores ficam "parados". De acordo com Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (SP), com o uso contínuo da testosterona, é necessária a realização da histerectomia, caso o homem transgênero não queira engravidar.

"Se ele tem interesse em reprodução, aí ele pode adiar a histerectomia por um tempo, mas não por muito, porque a pessoa pode ter problemas no útero, no ovário, nas trompas e até mesmo na vagina", afirma. "Essa região tem que ser muito avaliada, com consultas periódicas com ginecologista, com endocrinologista, uma equipe multidisciplinar que conversa entre si, lidando com as questões desta pessoa para ver o que é melhor para ela".

Antes da cirurgia, o homem transgênero precisa se consultar com ginecologistas para ter certeza de que está tudo em ordem. E se passar por constrangimentos, deve procurar seus direitos. 

"Na medida que os transexuais sabem quais são seus direitos, como o uso do nome social, já facilita a vida da população trans e evita algumas situações vexatórias. Outra possibilidade é, quando eles vão à consulta e precisam conversar com a recepção, o melhor é explicar a situação --'meu nome é este, gostaria de ser chamado desta forma'. É o que muitas pessoas fazem quando ainda não retificaram os documentos. É a maneira mais fácil: lidar com o fenômeno de um maneira clara e tranquila, para evitar constrangimentos a eles".

Soluções e indicação de profissionais

Luca Scarpelli, 28, é publicitário e dono do canal do YouTube “Transdiário”, onde divulga vídeos sobre sua transição, que iniciou há dois anos. Assim como Najar, Scarpelli também teve sua dose de situações esquisitas no consultório ginecologista. Hoje, mesmo morando em São Paulo, ele passa com um profissional que o atende há tempos em Belo Horizonte, pois foi lá que encontrou alguém que soubesse lidar com seu caso.

"Eu sei que é um pouco fora de mão, mas é muito difícil encontrar médicos que atendam, não só pela questão da aceitação do tratamento pois se negam a tratar pessoas trans, mas também porque muitos não sabem como tratar pessoas trans", explica. Para evitar exposição, ele marca consultas em horários e dias "alternativos", quando há menos mulheres no consultório.

Arquivo Pessoal
Luca Scarpelli diz que é difícil encontrar profissionais que atendam pessoas transgênero Imagem: Arquivo Pessoal

Ele reconhece que, em capitais mais populosas, há uma facilidade maior em encontrar profissionais especializados. "O Brasil é muito grande, é muito difícil de atender todo mundo. Em São Paulo ainda dá para achar profissionais --é difícil? Sim. Mas dá. Agora, imagina nas cidades menores? É complicado", diz.

Com o alcance do seu canal e o uso da internet, Scarpelli e outros youtubers transgêneros costumam pedir indicações e também passam contato de médicos que conhecem e sabem que atenderão esta população para quem precisa. "Hoje é por indicação mesmo, boca a boca", afirma.