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Viciada em paixão: estar sempre a fim de alguém pode atrapalhar sua vida

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Por trás da vontade de estar sempre apaixonada pode haver uma busca incessante pelo amor não recebido quando criança Imagem: Unsplash

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

02/12/2018 04h00

Algumas mulheres precisam sempre estar interessadas em alguém para se sentirem vivas. Parece um comportamento volúvel, de quem não sabe muito bem o que busca em um parceiro, mas não é. Trata-se de um vício pela paixão -- e, como toda adição, o viciado parece nunca se satisfazer e procura sempre por mais, mais, mais. "Quando a fase mais efusiva termina e a mulher já não sente mais tanto prazer, acha tudo sem graça e logo parte em busca de emoção novamente", atesta Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP). A sensação de prazer da conquista e da paixão se assemelha a qualquer outro vício: a pessoa precisa cada vez mais e não consegue ficar sem.

De acordo com Joselene L. Alvim, psicóloga clínica de Presidente Prudente (SP) e especialista em Neuropsicologia pelo setor de Neurologia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a paixão é uma fase em que o organismo é invadido por uma espécie de “banho químico”. O cérebro de uma pessoa apaixonada contém substâncias da família das anfetaminas, causando reações fisiológicas que provocam o estado de euforia. "Por isso uma pessoa apaixonada está sempre bem-humorada, cheia de energia e de desejo. Algumas mulheres encontram sentido na vida justamente através dessa adrenalina. Isso as motiva a ter realizações em outras áreas da vida, como o trabalho, e as leva a sentir mais energia também para cuidar de si mesmas", aponta.

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No entanto, não é o alvo de suas investidas amorosas que importa e provoca esse efeito. "A paixão é pela adrenalina que a paixão provoca. Há uma necessidade de sentir constantemente o frio na barriga, pois só desta forma essas mulheres sentem-se vivas, motivadas e produtivas. Há uma busca pela intensidade amorosa e é esse estado de êxtase que vicia", explica Joselene. Os problemas, aliás, ficam minimizados ou até esquecidos.

Por trás desse padrão, pode haver uma busca incessante pelo amor não recebido quando era criança. "Ou, ainda, a dificuldade de se vincular e aprofundar na relação tenta camuflar o medo do abandono, que pode ter sido real ou sentido nas relações anteriores, tanto na infância quanto na vida adulta", diz Triana. Outra explicação seria a idealização do romance somada às expectativas irreais sobre o outro: quando a segurança, o companheirismo e a rotina se instalam no relacionamento, ele deixa de ser interessante. Se a mulher cresceu em um lar onde um ou outro cuidador colecionou inúmeras relações que não vingavam, também pode ter aprendido que "é assim que funciona", ou seja, não se empenha para fazer dar certo já que pode trocar facilmente por um novo amor.

Na opinião da psicóloga Luiza Colmán, que atua em Goiânia (GO) e é especialista em temáticas ligadas ao amor, existe um aspecto cultural muito atuante nesse comportamento. "Nós, mulheres somos ensinadas desde muito cedo a colocar a nossa felicidade no amor. E somos, inclusive, muito cobradas socialmente em ter sucesso nessa área. Uma mulher que não se casa ainda é considerada frustrada ou fracassada, mesmo que tenha muito sucesso em outras áreas de sua vida", diz. Portanto, uma crença inconsciente também motiva a paixão.

Efeito contrário ao supostamente desejado

As viciadas em paixão não se prendem a nenhum relacionamento, até porque a paixão tem prazo de validade e assim que a chama diminui elas vão à procura de outra pessoa que possa propiciar tal euforia. Pulando de romance em romance, podem acabar afastando potenciais parceiros bacanas, que partem assim que percebem que a mulher não consegue evoluir ou conciliar o desejo sexual com intimidade e estabilidade a relação se desfaz. É grande o risco de acabar sozinha ou se relacionando sempre com pessoas que estão na mesma vibração e que só se entusiasmam com a aventura, a novidade, com aquilo que é fugaz. "Se em um vínculo de dependência ou codependência a necessidade de posse e o controle sobre o outro se sobrepõem ao desejo sexual e ao erotismo, no círculo do dependente de paixão não há espaço para ligação de outra ordem. O combustível é o renovar constante do desejo", observa Triana.

Outras áreas podem sofrer consequências. "Quando se quer muito um relacionamento, comumente deixamos de valorizar outras partes importantes da nossa vida, diminuindo nossas conquistas e colocando todo o peso da felicidade no amor. Com isso, ao entrar numa relação, é muito comum que todo o resto fique em segundo plano, e isso muito comumente gera prejuízos nas amizades, no trabalho, na convivência em família, nos estudos", aponta Luiza.

Estar com alguém e gostar da sensação de estar com o par amoroso é prazeroso, porém é importante também amar outras coisas e, principalmente, amar a si mesma. "Costumo falar para minhas pacientes que o momento ideal para iniciar um novo relacionamento é quando se está bem e satisfeita consigo mesma e com a própria vida. Isso diminui a urgência pelo amor e permite escolher melhor os parceiros, não aceitando ser tratada de qualquer forma.

O amor, quando saudável, pode ser uma das experiências de maior crescimento em nossa vida, mas quando é adoecido se transforma numa vivência destrutiva", fala Luiza. Para Joselene, as chaves para romper o padrão são o reconhecimento de sua existência e o autoconhecimento. "A partir daí, é possível viver um relacionamento de forma real e não idealizada. Para amar e ser amada é preciso estar numa relação sem delegar ao outro a responsabilidade da própria felicidade que, nesse caso, vem em forma de adrenalina", argumenta Joselene.