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Ranço: depois que pegou, dá para reverter?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

30/11/2018 04h00

Já há algum tempo a gíria "ranço" foi incorporada ao nosso vocabulário para descrever o sentimento de repúdio, raiva, desprezo e até nojo que uma pessoa pode desenvolver por algo ou alguém. Em posts ou memes nas redes sociais, é fácil dizer que "pegou ranço". Afinal, há uma tela de computador ou celular para nos proteger.

Na vida real, porém, será que é possível lidar com tanto sentimento negativo quando precisamos conviver com aquele ou aquela que se tornou alvo do nosso ranço? A verdade é que dá, sim. Porém, é necessário colocar em prática o sentido real de duas outras palavrinhas: empatia e empenho.

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Segundo a psicóloga Livia Marques, do Rio de Janeiro (RJ), é possível saber lidar com emoções como nojo, raiva, frustração, medo e angústia de forma mais funcional, ou seja, sem desrespeitar ou despejar a ira em cima dos outros. "Precisamos pensar que é importante rever nossas atitudes em relação às situações. Afinal, temos a chance de aprender algo em cada situação de nossas vidas", diz.

Um ponto importante em qualquer circunstância --profissional, social ou familiar-- é avaliar se a convivência com a pessoa que provoca "ranço" é mesmo necessária. Se for, de acordo com Livia, vale ponderar os termos dessa convivência: ela se baseia em bate-papos aleatórios ou exige um relacionamento mais estreito? O que puder evitar, evite, mas, se não puder escapar, o segredo está em fugir de assuntos controversos e de conversas em que o objetivo nunca é a troca de ideias, e, sim, expressar opiniões fechadas.

Já Mônica Bayeh, psicóloga clínica e psicoterapeuta que também atua na capital do Rio, destaca que uma das maneiras de reverter o ranço é puxar da memória as boas lembranças. "Liste os favores que essas pessoas já fizeram para você, as viagens felizes que tiveram, os momentos especiais que compartilharam. Esforce-se para realimentar essas relações. Se são pessoas boas, sempre vale a pena. Tente entendê-las e lembre-se que você, vista com outros olhos, também não deve ser muito fácil de lidar em alguns aspectos, não é mesmo?", declara.

Esse exercício simples de autoconhecimento é a chave para modificar a situação. De acordo com Mara Lúcia Madureira, psicóloga especializada em terapia cognitivo-comportamental, de São José do Rio Preto (SP), ranço também tem a ver com a intolerância à diversidade e à liberdade de expressão. "Como diria Caetano Veloso, 'é que Narciso acha feio o que não é espelho'. Cada um de nós percebe e lida com a realidade de modo único, com base em nossas características e experiências pessoais. Por conta disso, é natural volta e meia sentir dificuldade em compreender e resistência em aceitar o que difere do nosso modelo perceptivo", explica.

Mara reforça que é possível mudar nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos e, desse modo, melhorarmos as relações contaminadas por desafetos. "Uma consulta à nossa consciência para reconhecer e aceitar a nossa intolerância é o primeiro passo na transformação do ranço em empatia. Se assumirmos a responsabilidade por nossas emoções, podemos modificá-las, mas se culparmos os outros nada há a se fazer, a não sofrer os efeitos do ódio tratado, com eufemismo, de ranço", diz.

Isso não significa incorporar valores ou assumir posturas incompatíveis com nosso sistema de crenças, mas se esforçar em compreender como as outras pessoas pensam e agem. "A partir daí, podemos até influenciar novas ideias e modificar atitudes alheias. Porém, a mudança sempre deve começar em nós", ressalta Mara.