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Minha história

"Fui expulsa de casa por causa do meu padrasto, que engravidou minha irmã"

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Mulher conta que foi expulsa de casa por causa do padrasto, que engravidou a enteada Imagem: iStock

Luiza Souto

Da Universa

28/11/2018 04h00


A paulista Bianca Aparecida foi expulsa de casa aos 14 anos por tentar defender a mãe: seu padrasto ia bater na mulher durante uma discussão quando a ainda menina tentou impedir. Esse mesmo homem abusou de sua irmã desde seus nove anos de idade e, hoje, aos 14, ela está grávida de seis meses dele. A mãe quase foi agredida por vizinhos, pois ela foi considerada culpada pela tragédia familiar.

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Mãe de três, Bianca, 28, hoje fala que perdoa a mãe, e que a luta agora da família é “manter a cabeça da irmã erguida”, pois a gestante se cortou algumas vezes depois que a história veio à tona e o padrasto foi preso, há três meses. Ela conta sua experiência à Universa.

"Minha mãe casou com esse homem quando eu tinha 14 anos e minha irmã, apenas oito meses. Somos filhas de pais diferentes e não os conhecemos. Foi esse padrasto quem a registrou.

Nós tínhamos uma relação boa, mas ele maltratava muito a minha irmã. A deixava, por exemplo, por muito tempo sentada no peniquinho, mas minha mãe achava que era uma maneira de ensiná-la. Quando ela cresceu, ele a impedia de se arrumar.

Uma vez, vi minha mãe e ele discutindo. Meu padrasto partiu para cima da minha mãe. Eu entrei no meio e bati nele. Horas depois, minha mãe pegou minhas coisas e me mandou embora. Fui humilhada. Ela disse que ele não me queria mais ali.

Nessa época, eu já trabalhava em casa de família para comprar leite para minha irmã. Depois de expulsa, fui morar de favor e, além de trabalhar, tinha que cuidar de onde estava dormindo. Vivia de batata. Só almoçava. O dinheiro servia para comprar o cigarro da pessoa com quem eu morava.

Acho que minha mãe tinha um pouco de ciúme de mim. A sogra dela vivia dizendo que preferia que o filho tivesse me namorado, e não a ela. As duas não se davam bem, e minha mãe começou a sentir ciúme de nós dois. Imagine: eu tinha 14 anos. Talvez tenha sido esse o maior motivo para minha mãe me mandar embora.

Mas não perdi o contato. Não tive raiva. E ela teve uma filha com meu padrasto. Há 3 anos, eles resolveram se mudar para o Mato Grosso em busca de uma oportunidade. Uma tia pediu para minha mãe não fazer isso. Ela começou a desconfiar do comportamento da minha irmã. Disse várias vezes para minha mãe que meu padrasto ‘não estava fazendo coisa certa com minha irmã’, mas ela nunca acreditou.

Eu sempre conversei muito com a minha irmã, mas ela é uma pessoa fechada. Nunca notei nada diferente, a não ser quando começou a ganhar coisas do padrasto, como celular, após a mudança deles. Meu padrasto nunca deu nada para ninguém.

Há três meses, do nada, ele falou para minha mãe que estava desconfiado da gravidez da minha irmã, porque a menstruação dela não descia. Não sei explicar o que foi, mas, nesse momento, parece que minha mãe acordou. Como meu padrasto poderia saber de uma coisa dessas? No mesmo dia, ela fez uma ligação para o Disque Denúncia. Mais tarde, descobriu que já existia uma queixa anônima contra ele, por abuso, mas nunca descobrimos de quem.

Em seguida, agentes do Conselho Tutelar procuraram minha mãe e irmã. Foi quando ela confessou que era abusada pelo meu padrasto desde os nove anos. Fizeram um exame de corpo de delito e constataram que ela já estava grávida de três meses. Por causa disso, disseram os médicos, não a deixaram abortar e deram a opção de entregar a criança para a adoção, mas ela decidiu criar. A minha sobrinha vai se chamar Ana Julia, uma sugestão minha e do meu marido.

Meu padrasto confessou tudo e está preso, aguardando julgamento. Nunca desconfiamos de nada, principalmente porque minha irmã contava tudo para ele. Acho que ele a induziu, como se aquilo fosse normal. Tanto que ela se cortou algumas vezes depois da prisão dele. Minha irmã está envergonhada.

Mesmo depois disso tudo, a sogra da minha mãe chegou a mandar outro filho dela destruir a casa onde viviam: ela culpou minha mãe por tudo. Os moradores da cidade também. Diziam que minha mãe tinha que ter percebido alguma coisa e estar na cadeia também. Mas a gente nunca acha que vai acontecer dentro de casa.

O que tento fazer hoje é conversar bastante com elas, que estão sendo assistidas por psicólogos. A minha irmã mais nova, hoje com 13 anos, está revoltada. Não pode nem ouvir o nome do pai que fica agressiva.

Nunca disse que amava minha mãe e, hoje, digo. Mesmo longe, mando mensagens frequentemente, falando o quanto elas são lindas. Elas são vítimas, não culpadas. Tenho medo de acontecer algo pior, já que minha irmã se cortava, então tento sempre levantar sua autoestima.

Hoje, não guardo mágoa. A justiça foi feita e entrego a Deus. Quanto às mães, elas devem confiar mais nos seus filhos e conversar mais com eles".