menu
Topo

Política

Vereadora que levou coworking para Câmara já foi agredida e é contra aborto

Iwi Onodera/UOL
A vereadora Janaína Lima é pioneira no conceito de coworking legislativo na cidade de São Paulo Imagem: Iwi Onodera/UOL

Luiza Souto

Da Universa

24/11/2018 04h00Atualizada em 26/11/2018 18h20

O Capão Redondo já era considerado o bairro mais violento da cidade de São Paulo quando Janaína Lima, 34, sofria agressões dentro da própria casa, na década de 1990. E torcia diariamente para a brutalidade não ultrapassar as quatro paredes. "Descia do ônibus pensando 'hoje sou eu'", conta ela após falar sobre combate ao estupro.

Veja também

Primeira vereadora eleita pelo partido Novo na capital, e pioneira no conceito de coworking legislativo no país, diz ser comprometida no combate à violência contra a mulher, na briga pela igualdade de gêneros. Ela afirma que respeita a decisão pelo aborto, "mas somente dentro das medidas legais" -- ou seja, quando há risco de morte da mãe, anencefalia e em vítimas de estupro.

"Sou contra o aborto fora desses casos porque quando minha mãe descobriu que estava grávida, meu pai, desempregado e num ato de desespero, a mandou tomar um chá para abortar. Ela se recusou. Nasci com muitos problemas de saúde, epilepsia grave, mas cheguei até aqui e sou orgulho para meu pai. Agora, nos casos em que é permitido por lei, a decisão é da mulher e respeito isso", justifica ela, mãe de um menino de dois anos.

O pai de Janaína, o motorista de ônibus Expedito Lima, era alcoólatra e agredia a vereadora quase todos os dias de sua infância. Seus pais se separaram quando ela tinha 12 anos. "Com a ajuda da nova mulher e da religião ele se curou e hoje somos amigos". O irmão mais velho também era dependente químico, e tentou, por 23 anos, tratamento contra o vício em drogas. "Todos os dias é uma luta para se manter longe das drogas e tenho orgulho dele", afirma.

Iwi Onodera/UOL
A vereadora Janaina Lima é pioneira no conceito de coworking legislativo na cidade de SP Imagem: Iwi Onodera/UOL

Mas para as mulheres que não recebem ajuda espiritual ou não têm uma rede de apoio para se livrar das agressões e vícios, Janaína aposta no treinamento de agentes da GCM (Guarda Civil Metropolitana) para atender vítimas de violência, na promoção de mediação de conflitos e nas políticas de primeira infância, uma das suas bandeiras. Semana passada, inclusive, lançou o Plano Municipal pela Primeira Infância, em que várias pastas como Educação, Saúde e Assistência e Desenvolvimento Social coordenam em conjunto ações para o público de zero a seis anos. As crianças serão cadastradas num sistema único, acessado por diferentes secretarias, que verão, por exemplo, o histórico de vacinação ou quem é vítima de violência doméstica. 

"Não pedi licença para entrar"

Eleita com mais de 19 mil votos, em 2016, Janaína encontrou uma Casa onde a proporção de mulheres é de 9 para 45 vereadores eleitos. Afirma não se permitir sofrer machismo no local de trabalho. "Não pedi licença para entrar e não aceito que nenhum homem, nem ninguém, tire um milímetro do espaço que foi conquistado pelo voto popular", diz ela, que em 2014 concorreu a uma vaga na ONU Mulheres América Latina e Caribe, dedicada a promover a igualdade de gênero.

Iwi Onodera/UOL
Janaina Lima foi a primeira vereadora eleita pelo partido Novo na cidade de SP Imagem: Iwi Onodera/UOL

No início do mês, subiu o tom numa discussão com o presidente da Casa, Milton Leite, sobre a ideia de levar para o local o que é considerado o primeiro coworking legislativo do Brasil. "Se cercar vira hospício, se cobrir vira um circo", gritou ela no plenário, após críticas do político.

O objetivo do coworking em seu gabinete é dividir tarefas, espaço e recursos entre pessoas de funções distintas. De dentro da sua sala no sexto andar, reformada por empresas parceiras, Janaína e equipe recebem e analisam ideias levadas pela população para a cidade. A intenção é selecionar os projetos possíveis de realizar, voltados para zeladoria, empreendedorismo e primeira infância. No site da vereadora, qualquer um pode cadastrar as propostas. Até agora, contabiliza ter dado andamento a 284 demandas, entre elas limpeza da fachada do Pateo do Collegio, marco zero da cidade que em abril deste ano amanheceu pichada. Algumas tiveram apoio da iniciativa privada.

A reclamação da Casa é que a vereadora estaria abrigando empresas num espaço destinado ao exercício do mandato, e utilizando verba pública para tal. Janaína garante que não é isso. "Aqui não entra dinheiro. A gente recebe projetos e levamos alguns para empresas apoiarem. O que posso dizer a elas é que o nome dessa empresa será divulgado", justifica.

"A ideia é o compartilhamento de poder. A gente quer formar uma rede de voluntários para que eles sejam a ponte não só para trazer problemas, mas propor soluções. Todo mundo quer colaborar. O problema é que não existem regras claras de como regulamentar essa relação entre poder público e iniciativa privada. Estamos sugerindo uma inovação, mas a Casa ainda não entendeu a proposta".

A assessoria de imprensa da presidência da Câmara Municipal de São Paulo procurou a reportagem para esclarecer que na sessão do dia 7 de novembro, ocasião da discussão, o presidente Milton Leite comunicou que "todos os projetos conduzidos pelos vereadores devem cumprir o Regimento Interno e as leis em vigor". E, de acordo com as normas da casa, informa o órgão, "as cessões de uso dos espaços da Câmara podem ocorrer apenas para eventos pontuais". Em nota enviada, a assessoria da Casa  informa ainda que "todos os bens móveis que guarnecem o gabinete, como computadores, são custeados com dinheiro público, e se destinam única e exclusivamente ao exercício do mandato”, segundo trecho do parecer da Procuradoria lido por Leite na ocasião.