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Sexo

Homens também fingem orgasmo. Mas por quê?

Talyta Vespa

Da Universa

23/11/2018 04h00

Fingir orgasmos é prática recorrente na rotina do analisa de marketing Danilo Florencio, 29. Ele recorre à interpretação sempre que o sexo "fica chato". "Às vezes, a moça não é recíproca na hora das preliminares e, por não ter sido estimulado, eu demoro muito pra gozar e fico transando por horas. Sei que sexo muito longo entedia, e se percebo que ela parou de curtir, finjo que gozei para dar um tempo", conta. 

A tática, para enganar, é simples: "Eu tiro a camisinha rápido e jogo no lixo para que ela não veja". Se a desculpa não satisfizer, ele parte para o plano B. "Digo que gozei pouco porque havia me masturbado antes do encontro". 

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Danilo explica que a performance começa bem antes do grande momento. "Não basta chegar e fingir. Eu diminuo a velocidade, vou mais fundo nas penetrações e faço picos na respiração para que elas pensem que a qualquer momento eu posso gozar". É claro que, como em toda atuação, há cenas mais complicadas. "O mais difícil é quando elas querem que eu ejacule no rosto, nos seios ou na boca. Aí não tem jeito, preciso usar o braço e me masturbar", revela. 

O motivo para esconder a verdade, segundo Danilo, é a falta de intimidade. "Não teria problemas em dizer que não estou a fim para alguém com quem tenho liberdade. Às vezes, é minha primeira vez com a pessoa. Prefiro não falar. Só fui descoberto uma vez e a moça lidou bem com a situação". 

"Fingi ter gozado porque ela estava seca"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Apesar de já ter sido adepto do orgasmo fake, o personal trainer Marcelo Lopes abandonou a prática. "Eu não me dedicava ao sexo como deveria. Em vez de trabalhar para que a mulher ficasse excitada, eu preferia fingir um orgasmo e resolver a situação. Eu só fico com tesão se ela estiver curtindo", conta. 

"Sempre demorei muito para gozar, e isso é um problema para o sexo, que vai ficando monótono para a mulher se o cara não tentar coisas diferentes. Comecei a perceber que, com o passar do tempo, minha parceira ficava seca. A penetração começava a ficar incômoda para os dois, então, eu fingia um orgasmo", conta. 

A técnica da camisinha de Danilo foi a mesma que salvou Marcelo de ser descoberto. "Hoje, sei que falar a verdade é a melhor opção. Se o sexo fica ruim, eu tento adequar. Se não dá, eu paro e digo: 'Não tá rolando'. As pessoas precisam dizer o que estão sentindo e não se submeter a uma relação sexual ruim. Isso não deve ser uma questão'. 

Ser sincero nem sempre resolve os problemas do personal trainer. "Às vezes, falo a verdade e a moça fica chateada. As mulheres são tão cobradas pela sociedade que acham que o problema é sempre delas. E não é". 

"Não conseguia gozar sempre que transava com a minha ex-cunhada"

A tensão tomava conta do engenheiro Bruno* sempre que ele e a ex-cunhada se encontravam. Apesar da vontade, ele ficava tão nervoso -- por estar transando com a ex-mulher do irmão -- que não conseguia chegar ao orgasmo. "A gente tinha uma tensão sexual, mas eu sabia que aquilo era moralmente errado. Ela tinha sido casada com meu irmão e ele ainda sofria por causa da separação. Saímos algumas vezes e eu fingi orgasmo em todas. Depois, desisti. Entendi que era um risco muito grande para pouco retorno. Não queria que ele descobrisse".

Bruno garante que se esforçava, mas a situação se transformou em uma bola de neve. "Eu ficava com medo de não conseguir gozar e isso me inibia ainda mais. Já transamos durante duas horas sem parar, e nada. Eu me sentia pressionado e fingia", explica.

"Da última vez, ela percebeu. Em vez de jogar a camisinha na privada, joguei no lixo, e ela viu que estava vazia. Eu disse que saiu pouco porque estava com retenção de líquido. Ela não acreditou. Foi embora e ficou dois meses sem falar comigo. Nunca mais saímos".

Machismo estrutural é um dos problemas

Segundo a psicóloga e sexóloga Carla Cecarello, do canal de Youtube Sexualidade e Você, o estereótipo de macho alfa que é imposto aos homens é um dos principais motivos que os levam a fingir orgasmo. "Muitos caras têm medo de serem considerados impotentes, ruins de cama, apesar de a falta do orgasmo não ter nada a ver com a performance. Por isso, eles preferem fingir", explica. 

Carla afirma que a mentira acontece, principalmente, no sexo casual. "A transa pode não ser das melhores por vários motivos. Só que quando não há intimidade, o homem se sente mais à vontade para mentir. Alguns não querem ser questionados, enquanto outros temem que a mulher se sinta responsabilizada. O mesmo machismo torna comuns situações em que elas relacionam a falta de orgasmo do parceiro à própria aparência e se sentem insuficientes", diz. 

Além da "técnica" da camisinha, Carla revela outras manobras dos homens para confundir as parceiras. "Quando o sexo é feito sem preservativo, as táticas são outras: alguns mudam rapidamente de posição, outros escondem a cabeça do pênis com o prepúcio, fingindo terem espalhado o líquido. Dá para fingir, mas o cara tem que ser rápido". 

O que elas pensam

Descobrir que o primeiro namorado fingiu um orgasmo durante o sexo foi um problema para a autoestima da estudante Carla*, 20. A situação aconteceu há dois anos e foi crucial para que o relacionamento chegasse ao fim. "A mentira me fez acreditar, erroneamente, que eu não era boa o suficiente para que ele ficasse com tesão", conta. 

A estudante conta que, antes de transar, o ex-namorado costumava fumar maconha. "Ele me dizia que a erva retardava a ejaculação. Sempre acreditei. Mas, certa vez, ele estava demorando mais que o normal e eu perguntei o que estava acontecendo. Hoje, percebo que o pressionei, mas na hora não me dei conta, eu era inexperiente. Ele fingiu um orgasmo, jogou a camisinha longe e foi até o banheiro. Peguei o preservativo e não tinha nada. Me senti péssima", conta. 

O mesmo aconteceu com a comerciante Livia*, 46, que não se importou com o orgasmo fake e tirou sarro do marido: "Ele fingia e eu sempre descobria. Dava o grito de guerra dele, mas não saía nada do pênis. Eu perguntava e ele respondia: 'Ah, dessa vez saiu pouco'. Sei! Não dá para enganar a gente, não, molecada". 

*Os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios e visam preservar a identidade dos personagens