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Diversidade

Bissexual e pansexual são a mesma coisa? Entenda a diferença entre os dois

Getty Images
Pessoas protestam com anBi, uma organização bissexual, com a bandeira bissexual na Parada do Orgulho Gay em Los Angeles Imagem: Getty Images

Jacqueline Elise

Colaboração para Universa

22/11/2018 04h00

A atriz e cantora Janelle Monae, a atriz Nanda Costa e os cantores Jason Mraz e Brendon Urie (vocalista da banda Panic! at the Disco) foram algumas das celebridades que assumiram ser bissexuais ou pansexuais, este ano. Antes agrupados com gays e lésbicas, como se fossem sinônimos, as pessoas chamadas "não-monossexuais" (ou seja, que não se relacionam com somente um gênero) estão fazendo questão de mostrar que suas orientações existem.

Mas tudo isso gerou novas dúvidas: existe algo além de homossexual, heterossexual e bissexual? O que é ser pansexual? São a mesma coisa ou têm diferença? Sexualidades fluidas têm suas particularidades, sim. Andrea de Carvalho Perez, psicóloga do Hospital das Clínicas, em São Paulo, explica que, historicamente, a psicologia definia a bissexualidade como sendo a atração "por dois gêneros, independentemente de qual for". Como antes havia muito menos menção à transexualidade, a definição de bissexual ficou atrelada à “gostar de homens e mulheres”.

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O termo pansexualidade, segundo a psicóloga, surgiu como um movimento para "quebrar o preconceito" contra pessoas transgênero que ainda existia na comunidade bi --antes, muitas pessoas que se consideravam bissexuais ainda rejeitavam pessoas trans ou não-binárias, tanto no movimento quanto nas relações.

A pessoa que se autodenomina pansexual sente atração por pessoas, independentemente do sexo, do gênero ou de como se apresentam ao mundo. Por exemplo:


Mulher ou homem cisgênero: que se identifica com o gênero designado ao nascer;
Homem ou mulher trans: que não se identifica com o gênero designado ao nascer;
Não-binários: que não se limita aos gêneros masculino ou feminino;
Intersexo: pessoa cuja anatomia genital e/ou cromossomos não se encaixam totalmente na definição de “masculino” e “feminino”;
Andróginos: pessoas que possuem traços e características físicas que pareçam masculinas e femininas ao mesmo tempo.

E, ao contrário do que muitos pensam, pessoas pan não se identificam assim por sentirem atração por objetos ou coisas. “Quando a gente fala de pansexualidade, as pessoas misturam com parafilia e pedofilia. Então pensam que pansexual sente atração por árvore, por criança… A pessoa pan sente atração apenas por pessoas capazes de consentir uma relação”, explica Perez.

Com o passar do tempo e com a visibilidade do movimento trans, a explicação para a bissexualidade foi modificada para que ficasse claro que uma pessoa bi pode sentir atração por alguém que não se identifique como somente homem ou mulher. Assim, atualmente, podemos dizer que ser bissexual significa sentir atração por mais de um gênero --podendo incluir todos eles ou só alguns, mas sempre mais de um --aproximando-se da pansexualidade.

Como pessoas bi e pan se definem

Natasha  Avital, 32 anos, se identifica como bissexual e é membro do coletivo Bi-Sides, que luta pelos direitos das pessoas não-monossexuais. Ela afirma que descobriu sua sexualidade da forma "tradicional". "É aquele clichê de 'acho que sempre soube'. Desde criança, eu olhava para meninos e meninas", lembra. A militância bi veio para ela em 2010, quando conheceu Daniela Furtado, fundadora do coletivo, durante a Caminhada Lésbica e Bissexual de São Paulo.

Para Natasha, a definição de bissexualidade se encaixa no entendimento atual --atração por mais de um gênero. “Não precisa ser necessariamente só por dois. Hoje, a gente sabe que não existem só homens e mulheres no mundo. Muita gente que não se identifica com nenhum desses dois gêneros, ou se identifica como 'fora' dos dois, como uma mistura deles. A bissexualidade é a capacidade de se atrair por qualquer pessoa". Ao mesmo tempo, algumas pessoas bi também podem não se atrair por todos os gêneros e sexos existentes.
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Já Gabriel Delicato, 22 anos, é ator e se identifica como pansexual. Ele relembra como se deparou com o termo. "No final do colegial comecei a questionar se eu era mesmo heterossexual, e comecei a me identificar como bi, mas sentia estranho quanto a isso e não sabia muito onde ir ler a respeito", conta. Ao fazer uma prova para o vestibular, ele teve uma conversa que abriu seus olhos. "Estava conversando com uma veterana que me conhecia da época do colégio e falamos sobre sexualidade. Expliquei minha confusão e, sem cerimônias, ela disse 'é pansexualidade o nome disso aí'".

Em suas palavras, "a definição que mais me agrada [de pansexualidade], e com a qual mais me identifico, é 'atração independentemente de gênero'”.

A palavra “bissexual” vale para tudo?

Com as mudanças que ocorreram na nomenclatura da bissexualidade, seria até possível usar o termo como uma forma genérica de se referir a quem não é nem hétero nem gay. Apesar de outros termos, como pansexual e queer, estarem se popularizando, eles ainda não são tão conhecidos quanto bi. Mas isso não necessariamente permitiria que bissexual se tornasse um termo “guarda-chuva", que abarcasse todos os outros nomes.

"Como a pansexualidade se define como 'atração por todos os gêneros', e como a bissexualidade é definida como 'atração por mais de um gênero', teoricamente você pode ter pessoas bi que não se atraem por todos os gêneros que existem. Então como que uma definição mais restrita vai ser o termo guarda-chuva?", pensa Natasha, ressaltando que ainda há esta pequena diferença entre algumas pessoas bi e pan.

Isso não faria com que tivesse a invenção de muitos nomes para definir uma coisa só? A psicóloga Andrea Perez crê que, daqui um tempo, a busca por novos nomes será menor. "Com a diminuição do preconceito, acredito que não será mais necessária essa busca por categorização. Existe muita diversidade dentro da diversidade. Então creio que isso é mais uma tentativa de apropriação do que cada um é depois de tanta repressão".


Preconceito fora e dentro da comunidade LGBT


Pesquisas sobre o impacto do preconceito com bissexuais e pansexuais têm resultados preocupantes. Em 2015, o Journal of Public Health, do Reino Unido, publicou um estudo que comprova que mulheres bissexuais têm a saúde mental pior do que mulheres lésbicas: bis têm 64% mais chances de desenvolver distúrbios alimentares e 37% mais chances de se automutilarem em comparação às lésbicas. As bissexuais também são 26% mais propícias a desenvolver depressão e 20% mais vulneráveis a crises de ansiedade, em comparação com o mesmo grupo. Além disso, o estudo aponta que pessoas bissexuais em geral sofrem discriminação não somente dos heterossexuais, mas de gays e lésbicas também.

Os problemas apontados são consequências da chamada bifobia: ações preconceituosas contra pessoas bissexuais. "Quando você diz que é bissexual, os homens héteros se acham no direito de fazer convites e te pressionar para fazer sexo a três. Muitas vezes você não quer, mas todos a veem como alguém 'muito liberada' sexualmente. A gente também tem um índice muito alto de violência doméstica e relacionamentos abusivos, porque as pessoas se sentem no direito de ter ciúme de nós por tudo".

Segundo ela, os ataques dentro do movimento LGBT são constantes, com acusações de traição e até de espalharem doenças sexualmente transmissíveis aos outros membros da sigla pelo fato de pessoas bis terem “mais opções” para se relacionar. "Tem o mito entre gays e lésbicas de que pessoas bi só assumem relacionamentos heterossexuais. Ainda tem a questão do movimento LGBT achar que bifobia não existe, que não é opressão, que a gente não sofre violência física, que ninguém morre por ser bissexual, que ninguém é atacado na rua ou expulso de casa por ser bi".