menu
Topo

Carreira e finanças

Bagunceiros no trabalho podem ser mais criativos, entenda o porquê

Carolina Prado e Simone Cunha

Colaboração para Universa

21/11/2018 04h00

A professora de inglês Tania Gregório Ravena, 33 anos, conta que sempre foi chamada de bagunceira pelos colegas. Um de seus hábitos é espalhar todos os seus materiais pela mesa, durante as aulas. “Se não ocupo todo o espaço disponível com o meu material, me sinto limitada. Para muitas pessoas, pode parecer o caos, mas, para mim, é mão na massa e é ali que eu me encontro”, afirma.
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Minnesota (EUA), coordenada pela psicóloga Kathleen D. Vohs, indicou que a bagunça pode ser positiva e aguçar a criatividade. “Alguns perfis profissionais precisam de espaço para a criatividade e um local muito padronizado não dá a eles a oportunidade de criar algo diferente”, explica o psicólogo e coach Roberto Debski. Em outras palavras, em um ambiente muito rígido, esses profissionais podem não se sentir à vontade para ousar.

Veja também:

O especialista em desenvolvimento da performance humana Eduardo Shinyashiki diz que pessoas mais criativas têm um cérebro com um poder de conexão maior: “Por isso, quem tem uma mesa desarrumada coloca à sua disposição vários elementos que podem ser conectados, como se fosse um quebra-cabeças. Os diversos elementos são um convite para criar infinitas possibilidades”, explica.

O psicólogo Debski reconhece que em áreas como educação, comunicação, marketing e tecnologia, esse perfil bagunceiro tende a ser mais facilmente aceito. Porém, já há empresas em que a bagunça é vista como estratégica. É o caso da rede de idiomas Minds English School, que contratou uma consultoria especializada para treinar a equipe e, hoje, incentiva o que chama de bagunça consciente. “Inovação já não é um diferencial. É um item de sobrevivência empresarial. É preciso saber lidar com esses profissionais, que podem fazer a diferença na equipe”, afirma Fabiano Castro, especialista em carreiras e diretor da Minds.

Inovação X resultados

É claro que, para agregar ao time e compensar a bagunça, é preciso entregar resultados. Por isso, Tânia faz o possível para não transferir a desordem espacial para o âmbito da entrega dos resultados do seu trabalho: “Dissocio absolutamente uma esfera da outra: minha desorganização visual não é também mental”. A atenção às entregas também é uma preocupação da bancária Claudia Santinelli, 45 anos, que assume o rótulo de bagunceira sem maiores constrangimentos. Ela organiza as próprias tarefas, dia a dia, em um papel de rascunho, sem muita linearidade. “Vou listando as coisas que preciso entregar, com setas e anotações por toda parte”, conta. Quem olha de fora não entende uma linha. Mas é dessa forma que ela se orienta, sem seguir, necessariamente, um padrão.
No banco, Cláudia já trabalhou em um setor em que eram despachadas propostas manualmente. Certo dia, havia um emaranhado delas aguardando por uma assinatura. “Percebi que muitas continham o mesmo parecer e decidi criar uma resposta padrão”, conta. Ela apresentou a ideia para o seu líder, que aprovou a mudança. Com isso, houve um ganho de tempo enorme nessa tarefa tão burocrática. “O ambiente pode parecer desordenado, mas a minha mente está sempre tendo estalos”, afirma.
A assistente de Relações Públicas Ruth Augusta Amaral, 22 anos, diz que não consegue pensar de maneira organizada ou manter as próprias coisas tão arrumadinhas. “Mas ninguém é mais ou menos profissional por isso, desde que tenha um equilíbrio para conviver”, diz. Ela toca em um ponto fundamental: o de que a bagunça, por mais produtiva que seja, não pode afetar as pessoas ao redor. “Também é importante que nesse ambiente caótico o bagunceiro consiga produzir algo útil à empresa, caso contrário, não justifica”, diz o coach Silvio Celestino, autor do livro O líder transformador e sócio fundador da Alliance Coaching.
Ruth defende que todo bagunceiro consegue pensar rápido e diagnosticar possíveis situações que poderiam sair do controle antes dos demais. O psicólogo Debski concorda: “Um profissional mais metódico precisa de planejamento e análise antes de tomar decisões, o que, em algumas áreas, é essencial. O criativo não funciona assim”. 

O papel do gestor

No mundo moderno, em que se busca uma equipe inovadora, comprometida, determinada e, principalmente, geradora de resultados, é imprescindível que os líderes também saibam respeitar e lidar com os diferentes perfis de profissionais. “O gestor precisa ter flexibilidade para resgatar o que cada funcionário tem de melhor e incentivar isso”, diz o coach.
Proporcionar uma área de descanso ou lazer, onde os funcionários possam intensificar seus relacionamentos, já é uma forma de estimular a bagunça criativa. “Às vezes, o processo de desconstrução de padrões ajuda o gestor a flexibilizar atitudes, porém, sem abrir mão dos resultados”, diz Shinyashiki.

Para não atrapalhar a carreira 

Mesmo a bagunça que impulsiona a geração de ideias novas também precisa respeitar alguns limites para ser considerada saudável. Confira quatro sinais que indicam que ela não está sendo positiva:
1) afeta sua produtividade, ocasionando perda de tempo
2) tira seu foco e não permite que você e sua equipe cheguem ao consenso sobre temas importantes
3) dificulta a avaliação das ideias de maneira racional e objetiva
4) está apenas no ambiente físico ao seu redor mas não se reflete em um pensamento criativo.