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Carreira e finanças

Protagonistas? Elas ainda ralam por espaço na frente e atrás das câmeras

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Uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos de Mulheres no Cinema e na Televisão, da San Diego State University, mostra que a indústria ainda tem muito a consertar Imagem: iStock Images

Jacqueline Elise

Colaboração para Universa

20/11/2018 04h00

O movimento #MeToo fez com que Hollywood repensasse sua postura com as mulheres na indústria do cinema: após um ano desde a exposição do caso Harvey Weinsten, 201 homens foram destituídos de seus cargos por acusações parecidas, e as mulheres começaram a tomar seus lugares. Mas uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos de Mulheres no Cinema e na Televisão, da San Diego State University, mostra que a indústria ainda tem muito a consertar.

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O estudo, chamado “Thumbs Down 2018: Film Critics and Gender, and Why It Matters” (“Dedões para baixo 2018: críticos de filmes e gênero, e porquê isso importa”, em tradução livre), analisou todos os críticos que têm seus textos divulgados no site Rotten Tomatoes, que compila críticas de filmes e séries. Considerando cerca de 900 críticos cadastrados, somente 32% deles são mulheres, em comparação com 68% dos homens. Dos 16.000 textos publicados no site, 71% deles foi escrito por homens, e 29% por mulheres.

Aqui no Brasil, a coisa também não vai muito bem para as mulheres que gostam de escrever sobre cinema. Dos 110 críticos que fazem parte da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, só 20,9% deles são mulheres.

Uma realidade nada surpreendente

“Onde estão essas mulheres? Por que nos festivais não há mulheres no júri, nos catálogos, na programação? As respostas que recebemos dos homens que organizam estes eventos é que ‘não tem mulheres que trabalham com isso’”, diz Joyce Pais, crítica, editora-chefe do site Cinemascope e docente da Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. Ela também é membro do Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema, criado em 2016. O nome é em homenagem a Elvira Gama, jornalista e poetisa que se tornou a primeira mulher no país a escrever sobre filmes, no Jornal do Brasil, durante o século XIX.

“O Elviras surgiu há quase três anos a partir desta problemática, da gente se sentir à margem nos grandes veículos na nossa realidade. A gente se sentia pouco articulada entre nós, e percebemos que não tínhamos o hábito de ler mulheres críticas”, lembra a jornalista. “O coletivo surgiu como uma oportunidade de mapear esta presença. A nossa realidade é exatamente esta, mas não é surpreendente”.

Joyce Pais também contribui para o canal do YouTube “Meus 2 Centavos”, de Tiago Belotti, e diz que, mesmo estando em frente às câmeras, é constante a forma como tiram seu mérito. “Tenho uma seção no canal dele na qual falo sobre filmes dirigidos por mulheres, mas parabenizam o Tiago ao invés de mim. Eu fiz todos os vídeos, ele só fez o upload. E antes mesmo da parceria, ele divulgava meus vídeos do canal do Cinemascope, e as pessoas achavam que a gente tinha um caso”, conta.

Na crítica e nos filmes, o machismo ainda reina

Se no jornalismo a situação ainda é desigual, nos bastidores do cinema a condição se repete. Em 2017, apenas 18% da equipe dos 250 filmes mais rentáveis do ano era composta por mulheres, entre diretoras, roteiristas, produtoras e editoras. Houve um aumento de 1% em comparação ao ano anterior, mas ainda é muito pouco. As personagens femininas protagonistas somam somente 24% dos longas de maior bilheteria. E quando os estúdios tentam fazer um esforço para trazer mais representatividade, chega um novo problema: a ira dos homens na internet.

Quando anunciaram que um novo filme da franquia “Caça-Fantasmas” estava em produção, mas com mulheres no lugar dos protagonistas, alguns fãs se revoltaram. O trailer do longa, após a divulgação no YouTube, recebeu uma chuva de comentários negativos, vindo majoritariamente de homens, dizendo que “tinham estragado tudo” colocando mulheres nos papéis principais - e pedindo para que o longa fosse boicotado. O mesmo também ocorreu com “Oito Mulheres e um Segredo”, lançado este ano, que é uma versão 100% feminina de “Onze Homens e um Segredo”.

Colocando os homens fora da zona de conforto

“Para essas pessoas que sempre foram contempladas, a mudança dá a impressão de que elas estão sendo lesadas. É difícil para quem nunca teve que questionar isso ver sua visão sendo posta em dúvida”, pensa Pais. “A coisa já é de um jeito [que privilegia homens] há tanto tempo, e isso não preocupa a todos. Então esse grupo que responde de forma negativa é porque sua zona de conforto está sendo mexida”.

Apesar de se animar ao ver as mudanças nos bastidores do entretenimento, a jornalista reconhece que ainda há muito a mudar - e a mudança poderia começar na própria faculdade de Cinema. “Eu observo isso e já ouvi muitos relatos de estudantes. Quando os formandos de cinema vão fazer um TCC, já existe um movimento de opressão às mulheres que demonstram interesse em dirigir. Os caras jogam as mulheres para funções menores. Acho que esse sistema oprime tanto que acaba minando as mulheres de chegarem lá.”

Conquistando o espaço em outras mídias

Além do trabalho de crítica, editora e professora de Cinema, Pais notou que as mulheres têm se apropriado de outros meios para conquistar seu lugar ao Sol. “Acho que a gente tem que usar a internet para se colocar. Já trabalhei na imprensa tradicional, mas vejo que, na internet, especialmente em podcasts, tem uma presença muito interessante de mulheres que trabalham sob a ótica do Cinema e do feminismo, do recorte de gênero.”

E, para que a força feminina não fique presa somente ao mundo online, ela também acredita que é preciso desconstruir certos conceitos para haver representatividade de verdade na indústria do entretenimento e na crítica. “O lugar do crítico deveria ser mais desconstruído no geral, sair desta posição se ser inacessível, principalmente para mulheres. E deveria ter um esforço nas escolas de cinema de ajudar no processo de empoderamento, para as mulheres se enxergarem merecedoras e pertencentes àquele lugar”, completa.