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Minha história

"Larguei meu emprego formal para pisar em homens e dominar pessoas"

Arquivo Pessoal
Rainha Nefertiti Ishtar, dominadora profissional Imagem: Arquivo Pessoal

Jacqueline Elise

da Universa

18/11/2018 04h00

Rainha Nefertiti Ishtar para os desconhecidos, "Nefer" para os íntimos, "Senhora" para seus clientes e servos, e "Patrícia" para as burocracias da vida. É assim que a dominatrix de 43 anos é chamada por aí. Há mais de dez anos conhecida no meio BDSM (acrônimo para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), conjunto de práticas sexuais que envolvem amarrações, chicotes, coleiras e dar ou obedecer ordens de alguém; Nefertiti Ishtar trabalha como dominadora profissional, ou seja, seus clientes pagam para ser seus escravos sexuais por algumas horas.

Mas nem sempre foi assim: ela passou por muitas dificuldades quando era mais nova e, depois de um tempo, largou o emprego de representante comercial em uma multinacional para se dedicar ao ProDomme (como é chamada sua ocupação atual), atividade que a faz feliz. Hoje, Nefertiti mora em um bairro pacato e nobre de São Paulo, junto à seu marido, seu filho mais novo, e uma de suas servas fixas, e nunca esteve tão feliz. Em seu apartamento, recebe tanto os amigos quanto os clientes, tudo na maior naturalidade - garante que nunca teve problemas com vizinhos, ou com o porteiro. Veja como ela tomou a decisão de viver do BDSM:

“Fui criada em Búzios (RJ). Eu nasci em uma família pobre que acabou crescendo economicamente, e que virou classe média-alta. Meus pais tinham uma rede de sorveterias e eu trabalhava com eles, ajudando na parte administrativa. Mas em casa, não sabia fazer nada, nem um arroz.

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Com o Plano Collor, nos anos 1990, minha família perdeu tudo. Me casei com meu primeiro marido em 1992, mas saí de casa brigada com minha família e fui morar na região serrana do Rio de Janeiro. A gente não tinha para onde ir, não tinha dinheiro, então fomos morar juntos na varanda do barraco da minha ex-sogra. Em 1993, tive minha primeira filha.

Quando eu morava com meus pais, costumávamos ir em Hotéis Fazenda, e eu gostava muito das brincadeiras dos monitores. Como eu precisava trabalhar, vi uma plaquinha em um destes hotéis dizendo que precisavam de recreadores. Entrei neste hotel para trabalhar, fiquei quase nove anos fazendo isso, e sempre tive este ‘quê’ de liderança, de comandar, especialmente de organizar grupos, treinar equipes. Meu ex-marido não tinha trabalho fixo, então a grana certa para sustentar a casa era minha.

Fiquei casada por 14 anos, tive meu segundo filho com ele, mas via que a vida estava ficando muito difícil, principalmente depois que o caçula chegou. Concluí que, ali, eu não conseguiria dar um futuro para meus filhos e para mim. Minha relação com meu ex não estava boa, mas ele não aceitava a ideia de separação. Então eu tomei uma decisão muito difícil: deixei meus dois filhos com ele e, em 2006, fui morar com meu pai, que tinha se separado da minha mãe e estava vivendo em Indaiatuba, São Paulo. E decidi que eu iria batalhar para não viver mais em um barraco.

No passado foi muito duro deixar as crianças, mas eu sabia que seria temporário. Eu só precisava me estabilizar para dar a vida que eles mereciam e nunca deixei faltar nada. Enquanto eles estavam com o pai, eu pagava tudo para eles.

Vida nova, trabalhos novos

Quando cheguei em São Paulo, passei a me relacionar com o Guilherme, meu atual marido. Nos conhecemos primeiro pela internet, em sala de bate-papo. Depois que me mudei, ficamos juntos, mas ainda não morávamos sob o mesmo teto.

Arquivo Pessoal
Rainha Nefertiti Ishtar e seus escravos na Parada LGBT de 2018 Imagem: Arquivo Pessoal

Ele sempre contou sobre o que ele curtia e foi ele quem me mostrou o BDSM: antes, eu não sabia nada sobre isso. Com ele fui, pela primeira vez na vida na Parada LGBT de São Paulo. Ele sugeriu que eu beijasse mulheres e, quando fiquei com uma pela primeira vez, me descobri bissexual. Ele fotografou o momento do beijo, mas depois meu pai encontrou a foto e me expulsou de casa.

Nesta hora, eu e Guilherme fomos morar juntos. Alugamos uma casa, trabalhei em alguns locais até arrumar um trabalho como representante comercial em uma multinacional, na Avenida Paulista, e fui crescendo na empresa.

Escolhendo entre o BDSM e o emprego formal

Meu marido me levou em uma casa FemDom, um lugar no qual a dominação feminina predomina. Ele queria me apresentar o BDSM. Para entrar, passamos em uma entrevista porque era um lugar exclusivo. Chegando lá, a minha primeira visão foi de vários homens deitados no corredor, de barriga para baixo, e as mulheres passando por cima deles! Era um tapete de homens! Já me interessei aí.

Entrando lá na casa, me deram um chicote na mão. E eu não sabia mexer, mas me ofereceram um submisso para eu bater. Quando eu percebi que ele estava sentindo prazer por eu estar batendo nele, eu pensei ‘espera. Em que mundo eu estou?’. E aquilo me encantou.

Comecei a estudar mais e percebi que dizer que sou fascinada por BDSM é pouco. Eu estudava isso o tempo todo. E foi então que eu percebi que estava incomodada com a minha vida. Meu trabalho me atrapalhava. Meu marido então me disse ‘se você está deprimida com seu trabalho e você sente que ele não te deixa estudar o BDSM, pede demissão e vive inteiramente para isso’. Quando eu perguntei o que ele queria dizer com isso, ele só respondeu ‘ué, vira dominatrix profissional!’. E eu ainda falei ‘você tá louco? Que ideia é essa?’. Ele disse que seguraria as pontas financeiramente para que eu ficasse mais confortável em mudar de carreira. Três meses depois desta conversa, me demiti. 

A vida de dominatrix

Depois que pedi as contas, comecei a trabalhar como dominatrix em casa mesmo. Minha primeira sessão profissional foi incrível: eu estava ansiosa, mas eu fiz com muita alegria. A primeira sessão foi com um homem. Ele era podólatra [tinha fetiche por pés]. Até hoje temos contato e é muito gratificante. Você percebe que a pessoa acompanha sua história. Nesta primeira sessão foi quando eu vi que era isso mesmo que eu queria fazer. Passei a frequentar mais as festas e as casas de BDSM de São Paulo.

Eu cobro R$ 600 nas sessões de duas horas e R$ 800 para sessões de três horas. Hoje, sou eu quem sustento a casa, meu marido me auxilia com agenda para atender os clientes. Dou workshops também, mas não é tão rentável para mim quanto as sessões ou os cursos particulares. Nos cursos particulares, consigo fazer um direcionamento melhor e bem personalizado para o gosto da pessoa.

Com meus servos e protegidos, que não pagam para me servir - eu os escolhi para se submeterem a mim - eu também faço um trabalho específico. Eu gosto de enaltecer o ser: trabalho muito o empoderamento e a consciência com todos. Aqui é lei: só faça o que for fazer se tiver ciência do que está se dispondo.

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Rainha Nefertiti Ishtar e uma de suas servas Imagem: Arquivo Pessoal

E, nas sessões profissionais, eu não aceito qualquer coisa. Eu preciso também gostar do seu fetiche, me identificar com você, senão não posso me envolver. É uma profissão? Sim, mas ser dominatrix também mexe com o emocional. Por exemplo, o cara pode gostar de chuva marrom [fetiche em defecar em alguém e/ou ser defecado], mas eu não gosto disso. Comigo, tudo acontece dentro da sigla SSC - São, Seguro e Consensual. Antes da sessão, nós vamos conversar e vamos definir tudo, tirar as dúvidas. A partir do momento que eu consentir à sessão, você for ao banheiro para tirar a roupa, e voltar para se ajoelhar na minha frente, seu direito é somente dizer ‘sim, senhora’ e ‘não, senhora’. Mas claro que, se a pessoa já me avisou que não gosta de certas práticas, eu não vou forçar e fazê-las com ela.

Muitos pensam que sessão profissional não tem prazer porque está tudo sendo pago. Mas a sessão profissional também é meu prazer. Até porque não aceito tudo que me oferecem: já recusei muitas pessoas que me ofereceram grana alta, mas que queriam que eu praticasse coisas que eu não gostava. Até hoje, o tempo todo, vêm pessoas me pedir coisas que não faço, e minhas práticas preferidas estão listadas no site. E de forma alguma faço algo com menores de idade. BDSM é brincadeira de adulto.

Vida em família e aceitação

Meu filho mais novo veio morar comigo há seis, sete anos. Ele tem 16 anos e cresce num lar fetichista - moro com ele, meu marido e minha serva mais recente, Odara Ishtar. Não escondo nada dele, não há segredos, mas ele não participa de nada fetichista enquanto não tiver idade para isso. Conforme ele foi crescendo, fui me aprofundando nos assuntos com calma, para que ele entendesse e respeitasse. Ele é criado com uma mente muito aberta, da seguinte forma: entenda, não julgue. A convivência dele com o resto da família é maravilhosa. Já minha filha mais velha mora em Búzios, tem um filho, que nasceu quando ela tinha 19 anos e ela fica muito com minha mãe, que ajuda a criar meu neto.

Quando mudei de vida, nem esquentei em contar para meu ex-marido. Mas, para meus pais, foi aos poucos, pois venho de família evangélica. E apesar de eu ser meio ‘louquinha’, sempre fui responsável. Eles sabiam que tudo que eu fiz na vida, foi com lucidez, com cuidado. Então mesmo que não entendessem o que era esta vida nova, eles respeitavam. Anos depois, hoje meu pai elogia meu trabalho, minha mãe e madrasta também aceitam tranquilamente. Mas o principal é que precisei me entender e me respeitar para que eu pudesse compartilhar isso com minha família.

Apesar dos meus parentes de sangue, eu não tenho essa coisa de “família BDSM e família baunilha [que não pratica BDSM]”. Meus pais sabem de toda a minha vida, sabem que uma das minhas servas mora comigo, que eu recebo os clientes em casa. Fui pensando nestas questões, de contar para eles ou não, desde aqueles três meses em que me preparei para pedir demissão. Pensei: “se eu escolher este caminho, de ser dominatrix, como vou contar para meus pais?”. Quando tomei a decisão de largar tudo, não foi inconsequente. Foi tudo muito embasado, pensado. Mas ser dominatrix foi meu caminho do coração. E eu já não ligo para o que as pessoas pensam”.

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