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Minha história

"Meu ex só não me batia dentro da igreja. Na gravidez, ele tentou me matar"

Getty Images
Violência doméstica Imagem: Getty Images

Camila Brandalise

Da Universa

17/11/2018 04h00

A professora de dança J.M, 27 anos, desmaiou ao ser enforcada pelo marido quando estava no oitavo mês de gestação. E esse não foi o primeiro episódio de violência doméstica que ela viveu com ele. Segundo seu depoimento à Universa, J. era vítima de agressões e ofensas constantes desde o começo do casamento. “Nem lembro dos motivos que ele usava para justificar me bater. Chegou um momento em que qualquer coisa que eu falasse tomava um tapa.”

Ela o marido se conheceram em uma igreja evangélica e, por isso, diz ter acreditado que o ex poderia mudar de comportamento. “Mas não mudou, até o ponto de ele me enforcar.”

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Separada há um ano, diz ter tentado sair da casa em que os dois viviam várias vezes ao longo dos sete anos que ficaram juntos. “Mas ele me agredia, quebrava coisas em casa, até que eu desistia da ideia.” Um dia, chamou os pais do ex-marido e falou que queria dar um fim ao casamento. “Só então ele aceitou. Ainda assim veio para cima de mim quando eu estava saindo da casa. Só não me bateu porque o ameacei com uma faca.”

Leia, abaixo, o relato de J.M:

"Conheci meu marido na igreja. Namoramos por sete meses, noivamos e casamos. Estávamos apaixonados e vivíamos como um casal normal. Depois que fomos morar juntos, o comportamento dele mudou. Se tornou muito ciumento e agressivo. Começou reclamando de roupas que eu usava, dizia que não gostava de alguns amigos meus. Criticava também o meu trabalho - sou professora de dança. Me incomodava, claro, mas achava que era só um homem ciumento.

Depois de sete meses de casados, ele me deu um tapa na cara. Foi o primeiro. Nem lembro mais o porquê. Na verdade, nem lembro dos motivos que ele usava para justificar me bater. Foram muitas vezes. Chegou um momento em que qualquer coisa que eu falasse era motivo para tomar um tapa.

Ele me xingava por causa das roupas que eu usava, do meu trabalho, dos meus amigos, do meu batom, do meu brinco. E daí partia para as agressões. Já me ofendeu até por causa de uma calcinha que eu usei. Eu vivia tensa, com medo de que ele me batesse. Alguns meses depois, engravidei. Pensei que as coisas pudessem mudar, mas não foi o que aconteceu.

Por muito tempo, eu achava que aquela agressão era a última, o perdoava. Éramos da igreja, foi onde nos conhecemos. Pensava que era uma pessoa boa, íamos juntos ao culto, orávamos juntos, tínhamos Deus na nossa vida. Mas era só na igreja que eu não apanhava. No caminho de ida e de volta, era sempre uma tensão. Quando estávamos em casa, eu não podia falar nada que ele rebatia com agressividade.

Fui agredida por ele durante os nove meses de gravidez. Nas brigas, chegava a quebrar móveis e eletrodomésticos de casa. Na gestação, pedia para ele me fazer companhia, ver televisão, me dar carinho. Ele dizia que não queria porque eu estava gorda e feia.

Em uma das piores situações que vivi, ele sentou em cima da minha barriga quando eu estava grávida de oito meses e me enforcou até eu perder os sentidos. Ele queria me matar. Fiquei desacordada por alguns segundos, até que voltei à consciência.

Antes disso, com três meses de gestação desenvolvi um problema chamado pré-eclâmpsia. Os sintomas são dor de cabeça, dificuldade para respirar, dores no corpo e pressão alta. O médico disse que tinha a ver com estresse. Não tenho dúvida que foi por causa das agressões.

Alguns meses depois de dar à luz, comecei a pensar em sair de casa. Tivemos várias conversas sobre isso. Mas era sempre um inferno. Quando falava que queria ir embora porque não aguentava mais, era agredida de novo. Uma vez ele chegou a quebrar meu celular. Com o tempo, desisti. Até que um dia chamei os pais dele para vir até nossa casa, contei o que estava acontecendo. Ele chorou. Todos entenderam que precisávamos nos separar.

Mas, no momento que eu estava saindo de casa, ele veio para cima de mim de novo. Só não me bateu porque o ameacei com uma faca. Também tentou pegar nosso filho na escola, dizia que não ia mais vê-lo. Mas a diretora não deixou. Hoje sou eu que tenho a guarda. O pai dá R$ 200 de pensão.

Faz um ano que nos separamos. Não consigo nem pensar em me relacionar com outra pessoa, tenho medo de passar por isso de novo. Confiava nele por ser evangélico, orava, repetia a palavra de Deus. Mas hoje vejo que não faz diferença. Ser bom ou mau não tem a ver com a igreja, mas com a pessoa. Não é sobre religião, mas sobre caráter. Ou a falta dele."

*Se você vive uma situação de violência doméstica ou conhece alguém que passe por isso, ligue para o número 180, canal da Central de Atendimento da Mulher do governo federal, para pedir ajuda e receber orientações.