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Moda

Peças afro, indígenas, véus e T-shirts: a moda das novas mulheres políticas

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Ilham Omar, primeira congressista americana a usar hijab Imagem: Reprodução

Amanda Denti

Colaboração para Universa

14/11/2018 04h00

Quando você pensa numa mulher exercendo um cargo político, que roupa ela veste? Se for um terninho com colar de pérolas e scarpin nos pés, depois das eleições desse ano no Brasil e nos Estados Unidos, esse guarda-roupa clássico (ou careta para alguns) que mora no nosso imaginário merece uma revisão.

Em 2018, os clichês do uniforme político deram espaço a amarrações de cabeça, ombros de fora, brincos de pena, tênis, t-shirts e até looks repetidos. Confira aqui alguns exemplos de como essa ruptura na linguagem visual das candidatas e eleitas pode ser interpretada como uma declaração de independência à gravata de Trump(s) proclamada por mulheres indígenas, negras e LGBTs.

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A força dos nativos

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Joênia Wapichana, primeira indígena a ser eleita deputada Imagem: Reprodução/Facebook

Entre os que concorreram aos próximos mandatos governamentais do Brasil, estavam também os mesmos paletós cinza e penteados com gel que a gente vê há anos... Mas esse look de uma política que quase-não-nos-pertence-mais passou a destoar das cores e dos materiais nos acessórios usados por candidatas como Sônia Guajajara, a primeira indígena a concorrer ao pleito presidencial, e Joênia Wapichana, a primeira mulher indígena da história a ser eleita para um cargo na Câmara.

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Sônia Guajajara, candidata a vice-presidente nas eleições de 2018 Imagem: Reprodução/Facebook

Foi difícil ignorar a presença dos seus brincões feitos com várias penas de pássaros que desciam até a altura do peito delas (e provocavam uma nostalgia no nosso só de lembrar dos brincos mais tímidos que um dia a gente comprou na “feirinha hippie” da praia). 

Sônia nasceu em uma aldeia indígena no Maranhão e, como vice de Boulos, pelo PSOL, carregou os símbolos da tribo Guajajara, que dá seu sobrenome, durante a campanha para reforçar seu discurso de defesa da Amazônia. Discurso, aliás, que a fez dar entrevista para a Gisele e dividir o palco do último Rock In Rio com a cantora Alicia Keys para denunciar o ataque aos povos indígenas e ao meio ambiente.

Joênia, eleita em Roraima pela Rede, é também a primeira mulher brasileira a se formar em Direito no país, e Wapichana, o nome da sua etnia. Saiu em defesa dos direitos coletivos de seus conterrâneos e da sustentabilidade do seu estado. Vai atuar com colegas em uma Câmara conservadora, talvez com uma tinta vermelha aplicada no rosto diferente da que estamos acostumadas a chamar de make.

Uma gravata a menos no poder

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Gravata vermelha é vista como símbolo fálico e ligada ao poder Imagem: Nicholas Kamm/AFP

Na semana passada aconteceram as “Midterm elections” para eleger senadores, representantes da Câmara e governadores estaduais dos Estados Unidos. Essas eleições de meio de mandato presidencial são um termômetro importante para medir a popularidade do presidente em atividade e, no caso, da sua looonga gravata vermelha. Esse estilo meio over do usuário mais polêmico do Twitter já foi objeto de leituras que relacionam a gravata não só a um símbolo fálico, mas também conecta a principal marca do seu closet à história do poder em si, já que antes de chegar na Casa Branca, adornos de cor semelhante foram vistos em pescoços durante a dinastia imperial chinesa e nos tempos da aristocracia francesa.

Soco na cara da caretice

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Sharice Davis, congressista eleita Imagem: Reprodução/Facebook

Mas Sharice Davids foi uma dessas que desafiaram o partido republicano de Trump. A advogada democrata derrotou o atual representante conservador do estado do Kansas para se tornar uma das primeiras mulheres indígenas americanas eleitas para o Congresso em Washington. Ela é também a primeira homossexual assumida a concorrer ao posto e já foi lutadora de artes marciais. Ou seja: indígena, gay e sarada! E foi assim que ela botou os bracinhos de fora, literalmente.

Ao optar por vestidos de manga cavada, dava pra ver sua musculatura delineada e, pelo menos até aqui, as mulheres na política tentavam se distanciar dessa característica de força física. Por quê? Provavelmente por representar uma ameaça ao voto masculino e porque daria de bandeja aos seus oponentes a oportunidade de explorar uma tal de falta de “feminilidade”... Sim, dá preguiça só de pensar. Mas foi o que aconteceu com Michelle Obama durante a primeira campanha do marido, o presidente Barack. E olha que ela nem era candidata!

Mas ainda bem que a Sharice tá aí pra provar que estamos superando essa fase, inclusive dando um soco (de mentirinha) na cara da política convencional ao “lutar por progresso” no seu vídeo de campanha.

https://www.youtube.com/watch?v=vGa5qQsYY-g

Batom vermelho e tênis no pé

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Alexandria exibiu seu tênis no Twitter Imagem: Reprodução/Twitter

Com 29 anos, e concorrendo por New York, Alexandria Ocasio-Cortez se tornou a mais nova mulher eleita para o Congresso americano.

Filha de uma imigrante porto riquenha, cresceu no Bronx, uma área mais pobre e cheia de desafios sociais em NY, e tocou uma campanha que ganhou muita força nas ruas, batendo de porta em porta para conquistar votos até, literalmente, acabar com a sola do seu sapato.

Pelo menos foi isso que ela mostrou em um de seus tweets mais famosos, em que fotografou o tênis com furos na sola pra mostrar que trabalhou duro não só pelos votos dos latinos, gastando o espanhol que herdou da mãe, mas de outras partes importantes da população.

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A congressista eleita Alexandria Ocasio-Cortez Imagem: Reprodução/Facebook

Foi também uma resposta aos haters que tentavam emplacar nela a imagem de ter ganhado “só por motivos demográficos”.

Nas comemorações da vitória, ela apareceu de batom vermelho só pra fechar o look das empoderadas. A democrata acabava de desbancar um senhor que estava no posto há dez mandatos, o republicano Joe Crowley.

Um estilo para chamar de sustentável

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A candidata à presidência em 2018, Marina Silva Imagem: Reprodução/Facebook

Que a preocupação com a mudança climática norteia a vida política da Marina Silva, que concorreu à Presidência em 2018 pela Rede, a gente sabe. Ela, que já usou batom artesanal de beterraba, nessa campanha não só botou pra jogo os tons terrosos nos colares de semente que faz usando as próprias mãos, mas também uma pantalona marrom que a gente viu mais de uma vez na campanha - duas vezes, aliás, na mesma emissora. Recebida pela apresentadora Renata Vasconcellos, ao entrar para a entrevista do Jornal Nacional, lá estava a peça chave desfilando sua estreia. Depois, no debate da mesma emissora com o Bonner, opa, de novo a calça fluía até o palanque (acompanhada, aliás, da mesma camisa rosa que usou no debate promovido antes pelo SBT).

Quem desconhece as ideias por trás de um guarda-roupa minimalista, pode até dizer que a pantalona da Marina já estava andando sozinha. Mas repetir looks, essa coisa tão mundana que a gente não via acontecer com frequência entre personalidades públicas, faz ainda mais sentido quando você defende a manutenção dos recursos naturais desse mundão.

Segundo entrevista da consultora de moda que contratou para essa campanha, ela também não usaria marcas de fast fashion por uma questão ética: muitas dessas empresas estão envolvidas em escândalos de trabalho escravo.

Menos laquê, mais identidade

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Ilhan Omar, primeira congressista americana a usar hijab Imagem: Reprodução

Mãe, refugiada e feminista. É assim que Ilhan Omar, que será a primeira integrante do Congresso americano a usar um hijab (lenço) muçulmano, se descreve no Twitter. Ela fugiu da guerra da Somália, passou quatro anos da sua infância em um campo de refugiados no Quênia para, na última terça-feira, comemorar vitória por ter ganhado a representação do estado de Minnesota. Usava esmalte preto nas unhas, mesma cor do tecido que fazia a sua amarração na cabeça.

Apesar de estrategicamente não ter explorado a sua religião na plataforma de campanha, que defendia, entre outras coisas, plano de saúde público para todos e redução do débito estudantil, é inegável a representatividade desse símbolo num dos postos mais relevantes do país que vem adotando políticas cada vez mais violentas contra imigrantes de origem muçulmana.

Enfim, free

A moda é uma linguagem: às vezes verbaliza o que a gente não fala, outras vezes reforça a nossa identidade.

Nos Estados Unidos, a participação recorde de mulheres nas campanhas, bem como o salto histórico do comparecimento de jovens nas eleições de meio mandato presidencial deixou seu legado de resistência ao preconceito, elegendo as moças poderosas listadas aqui, o primeiro governador abertamente gay dos EUA (Jared Polis, do Colorado) e uma bancada recorde de latinos no Congresso. Muitos desses signos de tolerância estavam impressos no visual dos seus representantes.

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Integrantes da Bancada Ativista, liderada por Mônica Seixas (ao centro) Imagem: Reprodução/Facebook

No Brasil, apesar de ainda representarmos 13% do Senado, com apenas sete mulheres eleitas, e 77 deputadas federais num universo de 513 cadeiras, em 2018 elegemos mulheres transgênero, como a Erica Malunguinho; um mandato coletivo com muito cabelo afro, liderado pela Mônica Seixas, da Bancada Ativista; e vimos ativistas irem às ruas para fazer campanha de camiseta e salto baixo, ainda que na defesa de causas completamente opostas.

Alex Viana/Estadão Conteúdo
A candidata Manuela D´Ávila Imagem: Alex Viana/Estadão Conteúdo

É o caso da Janaína Paschoal, deputada mais votada da história da eleição brasileira, do PSL de Bolsonaro, e da Manuela d’Ávila, que concorreu como vice de Haddad, do PT, depois de ser a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre e a deputada mais votada no estado do Rio Grande do Sul. Unidas somente pelos recordes e pelas t-shirts, uma encabeçou o impeachment de Dilma, e a outra defende a libertação de Lula.  

São a pluralidade do discurso democrático e a renovação da identidade política refletidas num guarda roupa mais real, possível e representativo.