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10 medos que homossexuais têm e que os héteros nem imaginam

Arquivo pessoal
Leandro Dário, 36, pesquisa bastante sobre o lugar antes de escolher um novo destino para as férias; "Não quero ir a um lugar onde eu corra risco" Imagem: Arquivo pessoal

Natália Eiras

Da Universa

13/11/2018 04h00

Andar na rua de mãos dadas com seu namorado ou namorada é um hábito completamente normal para um casal heterossexual. Porém, no caso de homossexuais, dar as mãos pode ser decisivo entre sofrer ou não uma violência. Pessoas LGBT têm, no entanto, outros medos que muita gente não faz ideia. Ficar sozinho durante a velhice, falar da vida pessoal no trabalho e reservar um quarto de casal no hotel são apenas algumas das aflições dessa população. A Universa falou com pessoas LGBT sobre medos que eles têm e que, às vezes, héteros não percebem:

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Ficar sozinho na velhice por não ter filhos

Como o processo de adoção de uma criança é longo, pessoas homossexuais costumam sofrer mais com a possibilidade de ter uma velhice solitária. “É mais difícil para o LGBT ter filhos, então as chances de eu ficar sozinha quando estiver velha são enormes. Minha mãe também tem esse medo por mim”, diz a coordenadora de conteúdo Adele Gianasi, 31 anos, de São Paulo (SP). Não ter um companheiro na terceira idade também é um medo real. A engenheira Danielle Rocha, 31, de São Paulo (SP), admite que sofre com esta possibilidade, mas ela culpa a pressão da sociedade para constituir família. “Ela faz a gente acreditar que a instituição do casamento é a coisa mais sagrada e que se você não casar ou tiver filhos você está sozinho”, opina.

Falar do meu relacionamento com pessoas que não são próximas

O profissional de relações públicas Rodrigo Sérvulo, 27, de São Paulo (SP), ficou muito constrangido quando, ao dar o nome do namorado como contato de segurança na abertura de uma conta no banco, o gerente perguntou qual era o vínculo dele com a pessoa. “Fiquei bastante hesitante em falar que era namorado, porque não sabia como ele poderia reagir”. Este tipo de receio não é incomum, principalmente em ambientes profissionais. Negro, o consultor de projetos Gustavo Narciso, 30, de São Paulo (SP), evitava falar sobre a orientação sexual no começo de sua carreira profissional porque ele já teria que lidar com o racismo. “Não queria colocar mais esse elemento que poderia evitar que eu conseguisse uma nova oportunidade de emprego”, explica. No caso de Danielle, engenheira de uma multinacional que fabrica telhas, ela sente palpitações quando vai falar da namorada por não querer virar motivo de fofoca entre os funcionários. “Tenho medo que meus subordinados mais conservadores deixem de me respeitar por terem algum tipo de preconceito”, diz.

Arquivo pessoal
A coordenadora de conteúdo Adele Gianasi, 31, diz que tem medo de ficar sozinha na velhice Imagem: Arquivo pessoal

Ser carinhoso (a) com pessoas do mesmo gênero

Sabe quando uma pessoa fala com as mãos? Pessoas homossexuais podem se segurar para não tocar muito as pessoas do mesmo gênero por medo de serem mal interpretados. “As pessoas podem achar que estou dando em cima, sendo que é apenas meu jeito”, explica Danielle. E, dependendo dos preconceitos, o interlocutor pode ficar ofendido e reagir com violência.

Ir a um banheiro/provador de loja e ser olhado como “tarado”

Ser gay, “dar pinta” e entrar em um banheiro ou provador de loja pode ser muito desconfortável. É que há muita gente que acredita que, por gostar de pessoas do mesmo gênero, homens e mulheres homossexuais vão aproveitar esses ambientes mais íntimos para olhar o corpo dos outros. “Eu recebo olhares de mulheres ‘constrangidas’ com a minha presença. Algumas se cobrem quando me veem”, explica Adele. “Como se só porque sou homossexual vou me interessar por qualquer mulher, como se eu não tivesse limite ou respeito”.

Colocar roupas muito “gays”

Alguns homens gays sentem que estão mais vulneráveis à violência quando estão com roupas que não fazem parte do universo tido como heterossexual. Nos dias úteis, Gustavo Narciso se veste mais corporativamente, mas, por gostar bastante de moda, ele aproveita os fins de semana para ousar nas roupas. “Gosto de looks com mais cores, estampas e até fujo das modelagens mais lidas como peças de heterossexuais, opto por shorts mais curtos e jardineiras”, explica. Nestas ocasiões, no entanto, ele precisa estar preparado emocionalmente para sair na rua. “Eu, automaticamente, me ponho mais na defensiva para olhares de julgamento ou até mesmo xingamentos na rua”, fala o consultor de projetos.

Não poder visitar países que tratam a homossexualidade como crime

Sempre que decide viajar com o namorado, o artista plástico e diretor de arte Leandro Dário, 36, de São Paulo (SP), perde um bom tempo pesquisando sobre como um país que eles pretendem visitar trata pessoas homossexuais. “É muito triste ter seu direito de ir e vir vetado pelo preconceito”, diz. Segundo ele, é bastante cansativo ter esse tipo de preocupação. “Meu sonho é visitar o Egito e a Rússia, por exemplo, mas não tenho coragem de ir para estes lugares porque sei que posso correr risco de vida”, explica o diretor de arte.

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O profissional de relações públicas Rodrigo Sérvulo, 27, hesita em falar da vida pessoal com pessoas não próximas Imagem: Arquivo Pessoal

Reservar um quarto para casal em um hotel

Danielle passa um certo nervoso sempre que precisa reservar um quarto de casal em um hotel. O problema não é a conversa pelo telefone, mas o possível constrangimento que pode passar no check-in. “Tenho medo de como a pessoa que estará trabalhando vai receber a mim e minha namorada. Ela vai ver que é um quarto de casal para nós duas e pode olhar, achar ruim”, diz a engenheira.

Ter o aluguel de um apartamento vetado

A procura por um apartamento é estressante para qualquer um, mas quando se é uma pessoa em um relacionamento homossexual, a busca pode ser ainda mais cansativa. Leandro Dário já teve a locação de apartamento vetado por estar procurando um lugar para morar com o namorado. “Já tive que ouvir do corretor que o proprietário não queria dois homens vivendo no apartamento dele”, fala o artista. “Em uma outra vez, o proprietário obrigou o advogado a fazer um contrato especial para mim e meu ex-marido, acrescentando uma cláusula que basicamente dizia que deveríamos prezar ‘pela moral e os bons costumes’ dentro da nossa casa”.

Responder cantada na rua

Há algumas mulheres que não hesitam em responder as cantadas que levam quando estão caminhando pela rua. Porém, ser uma mulher e homossexual pode tornar este tipo de situação ainda mais perigosa. Afinal, ela está vulnerável a dois tipos de violência: a do machismo e a da homofobia. “Se eu responder, pode piorar as coisas, então sempre fico muito tensa”, fala Danielle.

Perder direitos

Em tempos em que pessoas homossexuais estão assinando a união estável às pressas, o medo de perder direitos é uma coisa real. Segundo Adele, o receio se intensificou após as eleições para a presidência e a possibilidade de não poder mais adotar uma criança ou assinar a união estável é angustiante. “É uma sensação de abandono pelo poder público, de não fazer parte de algo”, fala a coordenadora de conteúdo. Adele acredita que isso aumenta a sensação de estar à margem da sociedade. “Para que somos menos cidadãos que os outros”, diz.