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Carreira e finanças

Odeia o seu trabalho? Para mudar é preciso coragem, mas também planejamento

Getty Images
Imagem: Getty Images

Simone Cunha

Colaboração para Universa

12/11/2018 04h00

Frustração e desânimo são sinais característicos de quem está saturado do trabalho. “Domingo à noite, o clima pesa e bate aquela tristeza”, diz a bancária Ana Soares*, 48 anos, que trabalha no setor financeiro há mais de 25 anos. “Essa é uma área ingrata para as mulheres. Os critérios de mérito não costumam ser claros e os profissionais promovidos nem sempre são os que atingem as metas”, afirma. Para Ana, a atividade profissional é bastante insatisfatória e estressante, e ela só permanece no emprego por causa do salário e dos benefícios. “A cobrança é grande, mas pelo menos consigo pagar as minhas contas”.

Segundo a coach Andrea Deis, gestora empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), esse é um tipo de insatisfação clássico da geração a que Ana pertence: “Quem já passou dos 40 anos ainda traz a ideia de que o trabalho deve garantir segurança”.

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E o problema não é apenas de quem já acorda desanimado e passa o dia olhando o relógio para ir embora. “O empregado infeliz tende a se afastar dos colegas, pois ele não quer prolongar o convívio”, afirma. Além disso, a pessoa insatisfeita fica mais disfuncional, o que acaba prejudicando a equipe e os resultados da empresa como um todo.

Como enfrentar a situação  

O consultor de carreiras e empresas Alberto Roitman diz que ainda existe uma falsa ideia de que é melhor aceitar o ruim a correr o risco de perder tudo. “Dessa forma, a pessoa vai deixando de perceber outras possibilidades. Muitos querem crescer mas, na hora de assumir riscos, preferem a estagnação”, considera. Ele afirma que a insatisfação pessoal está mais relacionada ao clima ruim de trabalho, à ausência de desafios profissionais e de oportunidades de aprender na função: “Remuneração e escolha errada da profissão aparecem por último nesse ranking”. 

Andrea concorda que o medo de abrir mão é muito mais presente entre os mais velhos, pois o que leva as novas gerações a odiarem o trabalho são fatores como a falta de autonomia e de flexibilidade. “Os mais jovens são mais imediatistas, eles buscam oportunidades menos estressantes e, se não conseguem o que desejam, acabam saindo com mais facilidade. No entanto, podem perder a oportunidade de construir uma carreira sólida”, avalia.

Independentemente da situação, a especialista concorda que manter-se em um trabalho nocivo não é saudável para a carreira, tampouco para a saúde física e emocional. E é primordial olhar a questão com bastante cuidado. “Trabalho há dez anos como projetista e, nos últimos cinco anos, fiquei doente. A minha área sofre uma banalização e isso me desmotiva muito”, explica Adriana Mariah, 33 anos, projetista de móveis planejados.

Ela conta que o problema não é desenvolver os projetos, mas lidar com as cobranças: “Por muito tempo, trabalhei de segunda a segunda, mas o que mais me estressa é a constante insatisfação. Você perde três dias em um projeto e o cliente nem retorna para ver o que foi feito. Se o projeto é fechado, tudo fica centralizado em mim: sou cobrada pelo cliente, pelo dono da loja e pelo montador. É uma pressão exaustiva”.

Ela também percebeu que, nos últimos anos, muito do que ganhou acabou gastando com medicamentos. “Ficarei nessa área até março, depois quero dar um tempo e me dedicar a algo que me devolva a sanidade mental”, diz. E, de acordo com os especialistas, esse é o melhor caminho: investir em um bom planejamento. 

A coach ensina que vale ter um olhar crítico para a situação e entender o que realmente incomoda no emprego atual. O segundo passo é estabelecer um propósito: “A pessoa deve fazer um julgamento racional, para tomar uma atitude consciente”. Sem isso, pode trocar seis por meia dúzia e continuar insatisfeita.

O consultor de carreiras vai mais fundo: “Ninguém quer perder tempo na vida e, às vezes, é melhor um fim horroroso (pedindo demissão e indo embora) a um horror sem fim (nesse sofrimento diário).”  

Tem que ter paciência

“Decidi voltar a estudar e mudar totalmente de área. Vou fazer História”, conta Sidney Rodrigues da Silva, 38 anos, eletromecânico, formado Técnico em Automação. Ele está nessa área há 18 anos mas, nos últimos dois anos, precisou se adequar ao mercado de trabalho e foi rebaixado para um cargo funcional. “Odeio o meu emprego por alguns motivos, entre eles, porque não posso desenvolver toda a minha capacidade mental e profissional. Também acumulo funções, tenho uma chefia direta que não acompanha o trabalho, mas faz cobranças o tempo todo. Para piorar, trabalho à noite, não me adaptei ao horário e preciso de medicamentos para conseguir descansar”.

O que o segura no emprego é o bom salário e os benefícios oferecidos pela empresa, uma multinacional. “Domingo à noite só consigo pensar que poderia ficar doente para sumir por uns dias”, diz.

Segundo a psicóloga Alessandra Fonseca, coach e sócia-proprietária da ConsultaRH, mudar de vida é difícil: “Pode implicar em dar uns passos para trás até encontrar um outro caminho. O segredo é ter coragem para mudar mas, antes, ter paciência para realizar um planejamento seguro”.

Para facilitar, ela sugere:

Definir aonde está (estágio atual), aonde quer chegar (objetivo final) e pesquisar todas as etapas necessárias para fazer essa transição –às vezes, é preciso adquirir capacitação e desenvolver novas habilidades, ou conhecer novas ferramentas de trabalho. O planejamento o ajudará a ter uma ideia de cronograma/prazo e se é necessário realizar algum tipo de investimento para atingir o objetivo final.

Traçar uma rota de ação, elencando pessoas chave que serão importantes para ajudar a alcançar o objetivo. Networking é essencial sempre, mas, em casos de mudança de carreira, é ainda mais relevante. Participe de cursos, seminários e eventos da área em que almeja atuar.

Estude e leia muito, envolva-se com os assuntos que englobam a nova área e esteja aberto ao aprendizado.

Não jogue tudo para o alto de repente, de uma vez, sem estratégia. Às vezes, a posição atual pode servir como trampolim para uma nova carreira, abrindo portas e conectando-o a pessoas relevantes.

* Nome trocado a pedido da entrevistada