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Minha história

"Sou uma mulher trans e comecei a usar hormônios femininos aos 16 anos"

Arquivo
Jeanny, aos 23 Imagem: Arquivo

Marcos Candido

Da Universa

09/11/2018 04h00

A universitária Jeanny Lima percebeu sua transexualidade em uma festa de colégio, quando se vestiu de Chapeuzinho Vermelho. Foi ali que entendeu que, embora se lembre com carinho da infância como menino, havia finalmente se encontrado como uma mulher. Mesmo que as recordações sejam doces, a jornada para ser ela mesma não foi das mais fáceis. “Tive que mudar de colégio várias vezes devido ao preconceito”, diz.

Jeanny começou a terapia para reposição de hormônios femininos aos 15 anos, em um projeto pioneiro oferecido pelo SUS para crianças e adolescentes em busca de sua identidade de gênero, em São Paulo. Neste ano, aos 23 anos, ela conquistou direito a mudar de nome. 

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O início

Os meus pais foram muito tranquilos. Desde pequeno já percebiam que era uma garota transexual. Eles não entendiam o termo ‘transexual’, mas entendiam que em mim já existia um lado feminino mais forte. Era uma coisa natural, e especialmente para minha mãe. Até então, eles achavam que eu seria um homem gay.

Eu amava brincar com brinquedos considerados de menino, como jogos de videogame de luta e ‘Power Rangers’. Mas mesmo nesses momentos, optava por ser a personagem mulher -- e sempre escolhi a Power Ranger rosa. Por isso, foi muito tranquilo para eles quando comecei minha entrada para hormonoterapia, aos 15 anos, prestes a fazer 16, quando comecei oficialmente a reposição. 

Na época, passei com uma endocrinologista, expliquei meu caso, e ela me indicou um médico especialista no assunto. Passei por endocrinologistas, psicólogos e psiquiatras para ter o laudo que permitisse começar o tratamento com hormônios femininos. A reposição pode causar problemas como trombose e até câncer.

Arquivo pessoal
Jeanny, quando criança Imagem: Arquivo pessoal

Como é existir

Eu nunca me descobri mulher, eu sempre fui uma. Vivi tudo com naturalidade, e fui uma criança que era autêntica. A minha infância não foi limitada. Eu sempre gostei muito de super-heroínas, como “As Meninas Superpoderosas”. Elas eram meninas, mas meninas fortes. Eram meninas enfrentando vilões. Mas tinha também meu lado mais sensível, cheios de Hello Kitty. Fui aprendendo que o feminino é muito mais do que a gente rotula.

A ‘descoberta’ da transexualidade é muito estranha para mim. O que aconteceu foi que eu percebi que era trans quando fui a uma festa à fantasia na minha adolescência, e eu não queria ir vestido de jeito nenhum de homem. Fui de Chapeuzinho Vermelho, em uma festa matinê. Foi um marco. As pessoas aceitaram bem. Jamais conseguiria ser um Super-Homem, mas seria fácil uma Mulher Maravilha (risos).

Fui expulsa do colégio

Ainda assim, tive que trocar várias vezes de colégio. Fui expulsa de um colégio de freira por conta de preconceito dos outros. Meus amigos sabiam, e isso me trazia paz. Apesar disso, a maioria não gostava. Foi uma infância doce e tranquila, mas também turbulenta devido ao preconceito.

Somos empurrados a sentir aquilo que as pessoas querem que a gente sinta. Ninguém pode obrigar o outro a agir de uma forma ou de outra em casos como o meu, por isso encontrei uma maneira de me sentir bem para passar por isso.

Me compreendi feminina

A autoaceitação foi difícil, especialmente quando recebia cuidados médicos. Foi complicado, porque eu me cobrava muito. Comecei a entender que ser trans não é uma forma. Eu sou uma pessoa e tenho formas de viver, de sentir e de agir. 

Arquivo pessoal
Jeanny, ainda Jean Paul, no início da adolescência: 'eu amo essas fotos' Imagem: Arquivo pessoal

Aprendi a entender isso e a me libertar para sentir o que realmente importava. Fui aprendendo que o feminino é muito mais do que aquilo que rotulamos. Para mim, o feminino é imenso, não tem padrões. Não sou um tipo de garota, sou vários tipos de garota. Independentemente de ser transexual ou não, eu sou a Jeanny. O feminino é muito mais que o cor-de-rosa -- cor que eu amo!

Consegui meu novo nome!

Mudei de nome neste ano. Não foi de primeira. Abri um processo porque o juiz de primeira instância não aceitou meu pedido. O caso foi para a segunda instância, e foi aí que consegui trocar de nome.

Foi burocrático, demorou seis meses, mas há pessoas trans que estão neste mesmo processo há anos. Assim, consegui mudar meu nome também na faculdade. Antes da mudança oficial, eles eram contra uso de nome social, por ser uma entidade presbiteriana cristã.

A mudança de nome mexeu muito comigo. Não quis alterar meu nome de forma radical. Antes era Jean Paul e acrescentei algumas consoantes que para mim fizeram toda diferença: Jeanny. Abandonei o Paul mas não quis deixar de usar o Jean. Me tornar Jeanny é a continuação da minha história.

Eu digo que sou apaixonado pelo Jean -- amo o menininho que fui. Mas a mudança de nome me trouxe muita paz. 

As pessoas sempre chamam mulheres trans de homens, para nos humilhar ou causar constrangimento. Eu não me sinto um homem, mas um exército dentro de uma mulher para passar por tanto preconceito. Ser um homem é muito pouco, é preciso ser uma mulher que carregue um exército deles dentro de si."