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Mães e filhos

"Penso em suicídio": como é ter uma mãe com distúrbio narcisista

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A neuropsicóloga Carla Salcedo explica que, nesses relacionamentos abusivos, a mãe acaba depositando em um dos filhos toda a frustração e as cargas negativas acumuladas durante a vida Imagem: iStock

Talyta Vespa

Da Universa

07/11/2018 04h00

Violências físicas, psicológicas e embates diretos. Os relacionamentos abusivos entre mães e filhas são tão comuns quanto as relações de abuso entre casais, segundo a neuropsicóloga e terapeuta do luto, Carla Salcedo, do espaço Vivacitá. Ao mesmo tempo, a especialista atende quatro casos de adolescentes cujas mães são narcisistas --este é o nome que se dá às mulheres que abusam psicologicamente dos filhos. “Elas tentam transferir para os filhos o fracasso e as frustrações delas”, explica Carla.

Foi o que aconteceu com Camila*, de 26 anos, desde a infância. Hoje, ela mora com o marido e a filha caçula. O mais velho, de seis anos, está sob a guarda da avó, com quem a jovem tem um relacionamento difícil. Camila conta à Universa que a mãe entrou na Justiça contra ela, que engravidou aos 19 anos, alegando que a filha não tinha condições de criar o bebê. E ganhou.

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“Minha mãe nunca gostou de mim. Para ela, a única filha é a minha irmã, um ano mais nova que eu. Isso ficou muito claro para mim aos nove anos, quando, depois de uma briga, eu disse à minha irmã que ela era uma bruxa. No dia seguinte, mamãe pediu para o porteiro interfonar e pedir que eu descesse. Fiquei tão feliz! Ela nunca me levava para passear e achei que, aquele dia, seria o meu dia. Fui até o encontro dela e a vi com um sorriso debochado. Minha mãe me perguntou se eu realmente achava que minha irmã era uma bruxa. Respondi que sim. Então, ela me deu uma caixa com vários brinquedos fofos de bruxa e pediu que eu entregasse a ela. Aquilo partiu meu coração.

Passei a vida tentando fazer minha mãe me amar. Minhas notas eram as melhores, eu era obediente. Já minha irmã era rebelde, fugia de casa. Mas não importava. Aos 12 anos, a violência física se tornou frequente. Sempre que havia discussão envolvendo minha irmã, ela me batia sem nem perguntar o que tinha acontecido. Era ela quem roubava o dinheiro da mamãe, mas a culpa sempre caía no meu colo. Uma vez, minha mãe me bateu tanto por achar que eu a tinha roubado, que uma amiga precisou tirá-la de cima de mim.

Aos 19 anos, engravidei, fui mãe solo. Inocentemente, achei que um neto amoleceria seu coração. Só que passei a gravidez e o pós-parto ouvindo que eu era uma vagabunda, que deveria ter fechado as pernas e que eu era um vexame para a família. Ela entrou na Justiça contra mim dizendo que eu não tinha condições financeiras de criar o bebê, já que eu não trabalhava. Ela queria me separar da minha única alegria, e conseguiu. Hoje, minha mãe tem a guarda do meu menino, que já tem seis anos. Só o vejo a cada 15 dias e choro todos os dias de saudade.

Durante a gestação da minha filha, eu e meu marido passamos fome e tivemos tantas dificuldades financeiras que ficamos sem gás em casa. Ela não se dispôs a ajudar. Descobri, por meio da mesma amiga que me defendeu daquela surra, que mamãe havia espalhado para todos os vizinhos do bairro que eu havia fugido de casa e abandonado meu filho. Dois dias depois de eu dar à luz, ela apareceu como se nada tivesse acontecido. Ingênua, acreditei, de novo, que, daquela vez, as coisas iriam melhorar. Ledo engano. Ela tentou levar minha filha, também, mas não conseguiu. É como se ela vivesse na função de me atormentar. 

Faço tratamento psiquiátrico, sou paranoica e insegura. Não sei confiar em ninguém, já que a pessoa em quem eu deveria ter podido confiar só me lesou. Pensei e ainda penso em suicídio por ser atormentada por uma mãe que não me ama."

"Minha mãe me arrastou pelos cabelos por todo o prédio"

A microempresária Priscila*, de 24 anos, foi adotada assim que nasceu. A mãe biológica não queria seguir com a gravidez e ela foi levada pela família a um abrigo para mulheres. Lá, conheceu a mãe adotiva de Priscila, que acompanhou a gestação e auxiliou financeiramente para que, quando o bebê nascesse, fosse doado a ela. Segundo a jovem, a mulher mudou de ideia assim que deu à luz, mas foi tarde demais.

“Minha mãe me adotou logo que eu nasci para tentar segurar o casamento com meu pai. Nosso relacionamento foi bom enquanto o objetivo se concretizou. Quando criança, ela não deixava eu jogar bola, nem brincar de qualquer coisa que ela considerasse masculina. Eu não podia ter amigas muito próximas, porque ela tinha medo de que eu “virasse lésbica”. Ela e meu pai brigavam o tempo todo, era um caos em casa. Até que um dia ela pediu que eu decidisse se eles deveriam ou não continuar casados. Respondi que não, já que eles só brigavam. Ele acatou, foi embora de casa, e aí o inferno começou de verdade.

Durante toda a minha infância, ela jogou na minha cara que eu destruí o casamento dela. Passou a me espancar sem motivo. Eu ficava roxa, da cabeça aos pés, quase todos os dias. Tive anorexia, depressão e ainda tinha que ouvir que meu pai fazia coisas horríveis. Era mentira. Ela inventava histórias para me colocar contra ele. 

No desespero de conseguir suprir o vazio que sentia, minha mãe começou a se relacionar com homens pela internet. Sem nem conhecer, colocou dois deles para morar em casa. Um, além de tentar me estuprar, roubou R$ 7 mil dela. Aquilo foi a gota d’água. Eu a enfrentei e disse que precisava ter um relacionamento com meu pai. Tentei buscar o contato dele, mas ela saiu me arrastando pelos cabelos por todo o prédio. Batia na porta dos vizinhos e dizia que eu tinha tido um ataque psicótico e precisava ser internada, só que todos perceberam que quem tinha surtado era ela. Em casa, ela me sufocou na cozinha e, por causa dos gritos, o zelador do prédio arrombou a porta e a tirou de cima de mim. Fui para o hospital de ambulância. Chegando lá, o conselho tutelar estava à espera dela. A partir daquele dia, fui morar com meu pai e nunca mais tive contato com a minha mãe.

Aos 19 anos, me casei para fugir da casa dele. Minha madrasta não era das mais agradáveis, também, e não permitia que eu andasse de shorts pela casa porque, como não sou filha biológica do meu pai, ela achava que eu poderia me envolver com ele. Hoje, me separei, tenho uma república e abri uma microempresa, mas ainda sinto na pele os efeitos das atitudes da minha mãe."

"Fui estuprada e ela disse à minha filha que eu era culpada"

As humilhações na vida de Luiza*, de 31 anos, começaram na infância e permanecem até hoje, sempre que encontra a mãe. “Minha mãe engravidou de mim sem querer. O relacionamento que ela tinha com meu pai, um brasileiro, não era aceito pelos meus avós, que são japoneses. Ele só foi apresentado à família quando eu tinha quatro anos e, mesmo depois de decidirem morar juntos, continuei na casa da minha avó. Eu preferia assim. O casamento deles ia de mal a pior, ela sofria uma série de abusos. Ele a agredia, a esfaqueou na nossa frente e sequestrou meu irmão. Quando ela conseguiu se livrar dele, veio morar comigo e com meus avós.

Eu cresci sendo responsável pelo meu irmão. Onde eu ia, tinha que levá-lo comigo. Se ele fazia besteira, a culpa era minha, a errada sempre fui eu. Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era feia e que eu morreria de fome em qualquer carreira que quisesse seguir; primeiro, como atriz, que era meu sonho. Depois, como socióloga. Eu já era um fracasso para ela. Conforme fui crescendo, as agressões extrapolaram o psicológico e passaram a ser físicas: uma vez, eu disse que a roupa que ela estava usando não combinava. Ela me pegou pelo pescoço e me estrangulou na parede.

Eu fui preterida durante a infância, a adolescência e continuo sendo humilhada por ela até hoje, mesmo sendo casada e mãe. Quando eu tinha seis anos, ela me perguntou se eu queria que ela e meu pai se separassem. Eu era criança, claro que disse que não. Minha mãe ainda me culpa por ter ficado com ele e sofrido. 

Engravidei pela primeira vez aos 19 anos. Primeiro, mamãe disse que me mandaria embora de casa. Depois, desistiu. Não me casei com o pai da minha filha e, logo depois, conheci meu atual marido e decidimos morar juntos. Era minha libertação, exceto porque minha mãe me impediu de levar minha filha, que mora com ela até hoje. Disse à menina que eu sou burra, não saberia ensiná-la e que não a deixaria ir à escola. Ela sempre quis que eu sofresse exatamente o que ela sofreu. 

Esse ano, um amigo do meu marido entrou na minha casa e me estuprou enquanto eu dormia. Contei à minha mãe, mas ela nem me perguntou se eu estava bem. Pediu que eu tomasse cuidado em relação ao que falar na delegacia, para não ser presa. Ela disse à minha filha que a culpa era minha por ter colocado homem dentro de casa e que, por isso, ela não deveria ter pena de mim.

Ainda hoje, se eu bebo duas latas de cerveja, ela espalha para a família que eu sou alcoólatra. Ela precisa me humilhar e, mesmo sabendo que ela é abusiva, faço tudo na tentativa de ter a aprovação e o amor dela, como tem meu irmão".

O que é o distúrbio das mães narcisistas

A neuropsicóloga Carla Salcedo afirma que os abusos maternos podem acontecer por duas razões. “O primeiro gatilho que desencadeia esse tipo de relacionamento é a inveja. O distúrbio da mãe narcisista atinge, principalmente, filhas mulheres. Quando a filha, ainda bebê, começa a crescer, ficar bela e inteligente, significa que a mãe está envelhecendo e, para muitas mulheres, é um baque”, explica Carla. “Por isso, tentam destruir a autoestima das meninas”.

O segundo tipo de abuso, de acordo com Carla, acontece quando há uma separação entre o casal. “Às vezes, a mãe usa o filho para chantagear emocionalmente o cônjuge, transferindo para a criança a responsabilidade pelo fim do relacionamento e tentando boicotar a relação entre ela e o pai. Algo na linha do ‘se você ama seu pai, está contra mim’.

Carla explica que, nesses relacionamentos abusivos, a mãe acaba depositando em um dos filhos toda a frustração e as cargas negativas acumuladas durante a vida. “Normalmente, se a mulher tem mais de um filho, ela escolhe o mais frágil para depositar suas inseguranças. Isso já começa na infância e causa danos à criança desde cedo. Por isso, quem convive com vítimas de mães narcisistas deve ouvir essas pessoas com muita empatia e acolhê-las, já que essas marcas vão até a vida adulta”.

*Os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios e visam preservar a identidade das personagens