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Ela teve um câncer e fez livro, filme e um instituto que doou 25 mil lenços

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A catarinense Flavia Flores, 41, foi diagnosticada com câncer de mama agressivo mas deu a volta por cima Imagem: Divulgação

Claudia Dias

Colaboração para UNIVERSA

06/11/2018 04h00

Seis outubros atrás, a catarinense Flavia Flores, hoje com 41 anos, se preparava para assumir o cargo de gerente comercial numa empresa em São Paulo, onde ela morava. Como precisava trocar a prótese de silicone por causa de um pequeno rompimento, pediu alguns dias para resolver a questão antes de ser oficialmente contratada.

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A visita ao médico, porém, transformou sua vida. Aos 35 anos, na época, sem históricos da doença na família, Flávia foi diagnosticada com um câncer de mama agressivo. De uma hora pra outra, perdeu o chão com a notícia arrasadora, o namorado (que a abandonou, diante do diagnóstico) e o futuro emprego, pois começava ali uma jornada intensa de tratamento, que se estenderia por 18 meses, entre químio e radioterapia - além de quatro anos de hormonioterapia.

O pior momento da sua vida também foi bastante importante. Nascia, naquela ocasião, uma nova Flavia: a blogueira, escritora, palestrante, empreendedora e ativista pela prevenção do câncer de mama e o nome por trás do projeto Quimioterapia e Beleza, que nasceu como página no Facebook, virou blog, livro e evoluiu para um instituto homônimo, hoje beneficiando milhares de mulheres que vivem o mesmo drama. Um dos braços, o Banco de Lenços Flavia Flores, já distribuiu gratuitamente mais de 25 mil peças em cinco anos de atividades.

Apoio na família

Formada em Administração, Flavia também estudou Moda, Letras e Aviação Comercial. Trabalhou como modelo (dos 13 aos 25 anos), instrutora de passarela e fotos, produtora, figurinista, representante comercial de marcas de luxo, gerente comercial e de marketing e desenvolvimento de produto.

Depois do diagnóstico, ela se refugiou na casa da avó, em Florianópolis, capital onde também nasceu. Chorou dias seguidos, rejeitando o resultado dos exames e a sentença do médico que queria retirar uma das mamas e assombrada pelo que viria à frente.

“A gente fica perdida quando é diagnosticada com uma doença tão grave. Vê as outras pessoas vivendo a rotina delas, normalmente, enquanto tem de ficar parada, esperando resultados de exames, esperando uma cirurgia que não sabe como vai ser. Dá muito medo, para falar a verdade”, pontua.

O choro também era motivado pela agonia diante da mutilação indicada pelo mastologista e uma possível reconstrução da mama, apenas no futuro. “Comecei a olhar na internet o que era uma mastectomia e só pensava que devia ter algo errado, que meu exame estava errado”, lembra-se.

Resolveu procurar uma segunda opinião e encontrou uma médica, “muito calma e querida”, que entendeu o quanto a ideia a estava atormentando e propôs a retirada das duas mamas e uma reconstrução imediata - para evitar preocupações futuras com eventual regresso da doença.

O afastamento dos amigos

“Eu já estava com a outra cirurgia marcada, mas gostei da ideia. Pensei comigo: se eu estiver me sentindo inteira, se olhar para o espelho e me reconhecer, vou passar bem pelo tratamento. Foi ali que nasceu a minha positividade, a minha alegria”, explica ela.

Vaidosa como sempre foi, juntou seu lamento ao da maioria das mulheres vítimas do câncer, prevendo a queda do cabelo. Preferiu não se abalar e imaginou formas de disfarçar a cabeça nua, recorrendo a perucas e lenços. Mas quando começou a pesquisar maneiras de se produzir, quase não encontrou informação do gênero na internet, o que a frustrou.

Vieram a mastectomia dupla, as próteses expansoras (já substituídas por versões de silicone) e as temidas sessões de químio. Tristemente, muitos amigos se afastaram. Flávia sentiu a solidão e a falta das pessoas queridas por perto já nos primeiros dias pós-diagnóstico.

Arquivo pessoal
Casamento de Flavia Imagem: Arquivo pessoal

“Perguntei por que não iam me ver, pois eu queria muito a ajuda deles. Então uma amiga falou que toda vez que pensava em me procurar, começava a chorar e não sabia como agir, pois não queria me deixar mais triste. Ela me pediu um tempo e foi aí que entendi que eu também precisava ter paciência com as outras pessoas, que não sabiam o que fazer”, conta.

Um dia antes de começar a quimioterapia, Flavia decidiu criar uma página no Facebook, que servisse como canal de comunicação com as pessoas próximas, mostrando seu dia a dia e o que estava acontecendo com ela. Escolheu o nome “Quimioterapia e Beleza”, justamente os termos que buscava no Google quando procurava informações para elevar sua autoestima.

Seguidoras motivaram o blog

Junto dos conhecidos, vieram outras mulheres, vivendo a mesma situação e interessadas nas informações que Flavia começou a publicar - desde relatos sobre a queda das unhas e do cabelos, até truques de maquiagem para disfarçar a perda dos fios da sobrancelha e dos cílios e ter um visual mais "saudável".

Da página no Facebook (e seus mais de 110 mil fãs atuais) para o blog homônimo, foi um passo natural, já que todo o conteúdo publicado na rede social pedia uma organização para ser facilmente localizado pelas seguidoras que não paravam de chegar.

Não demorou muito e surgiu o convite de uma editora (Geração Editorial) para contar sua história em livro. Lançada em outubro de 2013, a publicação leva o mesmo nome do projeto.

“Quando criei o blog, o propósito era ajudar meus amigos que não sabiam como lidar com a situação. Hoje, a intenção é servir de inspiração para qualquer pessoa que estiver passando pelo tratamento”, define a autora. No endereço na web, não faltam fotos e vídeos com passo a passo de amarração de lenços, truques de maquiagem, dicas de cuidados com a peruca, saúde, moda e bem-estar, entre outros assuntos.

As seguidoras, aliás, são carinhosamente chamadas de "cats", na tradução literal do inglês. "Não é só porque a pessoa está passando por um tratamento oncológico que deixa de ser 'gato' ou 'gata'", comenta. Detalhe: as cats têm um espaço especial no blog, onde também compartilham suas histórias de vida.

Instituto permite apoiar mais mulheres

Três anos atrás, amigos empresários se juntaram e colaboraram com Flavia para a criação do Instituto Quimioterapia e Beleza. A ideia era conseguir profissionalizar a ajuda a pacientes, permitindo captar recursos que financiassem os projetos. Atualmente, em parceria com o Instituto Abihpec, ligado à Associação Brasileira de Indústrias de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, eles levam oficinas de beleza para dentro dos hospitais.

"Os eventos também acontecem fora, em salões de beleza e espaços parceiros. Convidamos as pacientes para saírem do ambiente hospitalar e ter uma manhã maravilhosa, aprendendo sobre maquiagem, moda e fazendo amizades", conta.

Vez ou outra, também realizam sessões de fotos, inclusive com profissionais (fotógrafos e maquiadores), tudo para elevar a autoestima das mulheres. "Para uma paciente, é muito importante se olhar no espelho, se sentir bonita, se reconhecer. O tratamento flui melhor", defende.

Banco de lenços, o projeto xodó

Mesmo antes do instituto ser oficialmente criado, Flavia começou a distribuir os lenços excedentes para pessoas que conhecia no mundo virtual. Em 2015, o Instituto assumiu o gerenciamento do Banco de Lenços Flavia Flores, dois anos depois de ser lançado.

De lá para cá, já foram distribuídos gratuitamente 25 mil lenços - 7 mil só neste ano. Para receber o presente, as pacientes só precisam acessar o site, fazer o cadastrado e contar um pouco sobre seu estilo pessoal. Uma equipe de voluntários faz a triagem e envia a peça escolhida, dentro de uma caixa rosa, com cartinha escrita à mão pela pessoa que fez a doação ou pelos voluntários.

As histórias que chegam à equipe sempre emocionam. "Um dia, recebemos o pedido de uma senhora, que queria um lenço para a vizinha, uma senhorinha muito humilde, que nem sabia ler e estava passando pelo tratamento. Em vez de escrever uma cartinha, o voluntário fez um desenho bem lindo, cheio de corações, para alegrar o dia daquela senhora", relata.

O Instituto financia o Banco de Lenços, mas também há captação de doações de empresas. Além disso, todo trabalho de Flavia como voluntária - incluindo ações publicitárias, palestras e eventos, principalmente durante o Outubro Rosa - é revertido para os projetos. Durante o mês também há arrecadação de lenços (os pontos de recebimento, em São Paulo, estão listados no site). Existe, ainda, a campanha do lenço virtual: quem não tem uma peça para ceder, mas quer contribuir, pode fazer a doação em dinheiro.

Casamento, maternidade e documentário

"O câncer é um filtro na vida da gente: quem é do mal vai embora, nem olha mais na sua cara. Você está doente mesmo e eles não precisam se preocupar mais com você". O desabafo de Flavia mostra que nem só a doença pode ser cruel.

À dor se soma a rejeição e ela sentiu isso no dia a dia - tanto com pessoas que atravessavam a rua para não ter que cumprimentá-la, quanto com o namorado, que a bloqueou no Facebook e na agenda do telefone. Sobre esse episódio, ela revela que sentiu o abandono, comum a muitas vítimas, mas foi momentâneo, pois tinha algo mais importante a fazer: salvar sua vida.

Tal situação permitiu que Flavia reatasse com um antigo amor, Ryan, o americano que ela conheceu quando estudou aviação na Califórnia. Namoraram por dois anos, até que ela foi deportada depois de uma das visitas à família, no Brasil (estava estudando com visto de turista).

"Meu mundo caiu. Não me importava com minhas roupas e tudo o que tinha deixado para trás. Eu sofri muito por deixar o meu amor. Chorei demais, pedi para ele me buscar e ele nunca veio ao Brasil. Éramos muito jovens, tínhamos só 22 anos. Depois de 15 anos e 4 meses, ainda em tratamento, eu consegui reencontrá-lo. Fomos pro México e toda aquele amor estava ali ainda", lembra.

Flavia pediu o visto americano novamente, apresentou seu projeto, seu livro e conseguiu visitar o namorado. No ano passado, eles se casaram na corte americana (para ela conseguir residência) e passaram a viver em São Diego. Há três meses, se casaram com direito à muita comemoração, na presença de familiares e amigos - e até de uma das suas "cats", representando todas as mulheres que se inspiram nela, através das redes sociais.

Mãe de um rapaz de 25 anos, Flavia agora sonha com uma nova maternidade. Tanto que seu protocolo de hormonioterapia, antes previsto para 10 anos, foi suspenso no fim do ano passado.

"Por causa da minha idade, não dava para esperar o tratamento acabar e então tentar engravidar. Por isso, os médicos que me acompanham suspenderam o tratamento com 4 anos, para eu focar nesse 'projeto'. Se eu conseguir engravidar, depois eles vão avaliar se sigo por mais 6 anos ou se não há necessidade", diz.

Arquivo pessoal
Flavia, hoje Imagem: Arquivo pessoal

Ela tem esperança de não precisar mais da chamada "quimio oral", já que mudou completamente seus hábitos e hoje é uma pessoa que cuida muito da saúde. "A Flavia de antes e a de agora são duas pessoas bem diferentes: a outra era workaholic, tinha maus hábitos e deixava pessoas a machucarem; a de hoje é uma vencedora, que quer o bem-estar de todos, substituiu seus maus hábitos por exercícios físicos e uma alimentação saudável e é muito grata pela vida!", compara.

Morando nos Estados Unidos, ela planeja estar no Brasil sempre em março, o Mês da Mulher, e outubro, para o Outubro Rosa, a campanha de conscientização sobre a importância da prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.

Além da maternidade, seus planos incluem lançar o documentário "Química da Vida", sobre sua vida, produzido pelo diretor Daniel Tupinambá, inscrevendo o filme em festivais no mundo todo - o trailer pode ser conferido abaixo. Também quer traduzir seu livro para o inglês e levar o Banco de Lenços para a América. "Será o primeiro dos Estados Unidos. Mundo, me aguarde!", brinca. Já estamos esperando, Flavia!

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