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Minha história

"Minha mãe adotiva me fez comer vômito e me culpou pelo abuso do meu irmão"

Arquivo Pessoal
Mylena foi abusada psicologicamente pela mãe desde a infância até a fase adulta Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

05/11/2018 04h00

Sempre que sai de casa, a vendedora Mylena Nogueira, 24, teme encontrar a mãe pelas ruas do bairro onde mora, em Goiânia (GO). Quando acontece, tenta apressar o passo ou trocar de calçada para não ser humilhada, coisa que acontece desde que ela era pequena.

Os motivos dos xingamentos são variados: às vezes, por ela estar com roupas curtas; outras, por ter celulite. Mas, na maioria delas, os resmungos são gratuitos. Mylena foi adotada de forma ilegal com quatro dias de vida, após ser deixada pela mãe biológica em um hospital público da cidade. Aos seis anos, a goiana foi abusada pelo irmão de 16. Contou para a mãe e ouviu que a culpa era dela, já que dormia com as pernas abertas. Aos nove, no banho, a mãe criticava seu corpo.

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“Ela dizia que um dos meus seios era mais caído que o outro, que o formato da minha vagina é feio, que meu cabelo é ruim por ser crespo e que eu fedia a preto”

“Passei a infância indo da escola para o trabalho da minha mãe e, de lá, para o culto. Fui uma criança obediente, fazia tudo o que ela pedia. Sempre fui baixinha, e ela não deixava que eu usasse a bermuda do uniforme da escola, nem a calça. Ia para o colégio com uma saia até o pé, uma camiseta três vezes maior que o número que eu vestia. Quando pedia para me vestir como as outras crianças, ouvia que, como minha mãe biológica, eu era uma prostituta.

Dela, eu não sei muito. Sei que me deixou em um hospital em Goiânia com quatro dias de vida. Minha mãe era copeira de lá, conseguiu um atestado de nascimento e me adotou ilegalmente. Cresci ouvindo que se ela não o tivesse feito, eu teria ido parar em um orfanato. Sempre fui grata, mas ela nunca me amou. Me batia muito, descontava em mim os problemas que tinha com outros membros da família. Quando brigava com meu pai, me agredia. Já fiquei toda roxa de tanto apanhar por ter esquecido de fechar a garrafa de refrigerante.

As agressões aconteciam diariamente. Quando pequena, eu tinha refluxo e, por causa da doença, acabava vomitando depois de me alimentar. Minha mãe fazia eu comer o vômito. Aos seis anos, fui abusada pelo meu irmão mais velho, de 16 anos. Ele passou a mão pelo meu corpo algumas vezes e, em uma noite específica, pediu que eu deitasse na cama ao lado dele para que me mostrasse 'o que marido e mulher fazem'. Fiquei com medo e contei para a minha mãe, que o protegeu e disse que a culpa era minha por dormir com as pernas abertas.

Me senti sozinha durante toda a infância e adolescência. Quando fiz nove anos, minha mãe começou a tomar banho comigo. No chuveiro, ela criticava meus seios por serem diferentes um do outro, dizia que o formato da minha vagina é feio, que meu cabelo é ruim por ser crespo; que eu fedia a preto, que tenho unha de preto. Falava que eu tinha estria e celulite e que isso era nojento.

Sempre achei que minha mãe era a dona do mundo e que, apesar de ela me tratar mal, eu devia a vida a ela. ‘Quem não te conhece que te compre’, ela dizia, ao ressaltar que as pessoas só me achavam inteligente e bonita porque não me conheciam. ‘Você com esses olhos de peixe morto engana a todos, mas a mim, não’. Eu nunca entendi o que ela queria dizer com isso, mas sabia exatamente o que era ser puta, afinal, ela repetia diariamente que esse seria meu destino como, segundo ela, foi o da minha mãe biológica. ‘É uma maldição hereditária’.

A adolescência chega para todos, chegou para mim, e eu comecei a questionar os padrões impostos. Ir para a escola de saia me impedia de participar das aulas de Educação Física. Aos 13 anos, a patroa dela me deu algumas calças e eu pedi para usar. Ela me expulsou de casa sob o argumento de que ‘na minha casa não tem puta nem piranha. Pegue suas coisas e saia’. Fui dormir, dei de ombros, mas, no dia seguinte, ela insistiu: ‘O que você ainda está fazendo aqui? Vá embora da minha casa’.

Passei um ano dormindo na rua. Em construções abandonadas, terminais e praças. Quando estava muito frio, eu não dormia, mas caminhava pela cidade na tentativa de esquentar o corpo. A cada dois dias, procurava a casa de alguma amiga para tomar um banho. Vivi assim até que minha mãe foi denunciada para o conselho tutelar e ameaçada de prisão caso não me levasse para casa de volta. Ela cumpriu o mandado e eu voltei, mas era melhor que não tivesse voltado. Ela passou a me deixar sem comer.

Aos 14 anos, me casei; aos 15, engravidei. Em vez de me preocupar, pensei que a chegada de um neto amoleceria o coração dela. Minha mãe não acompanhou minha gravidez, nem o parto. Quando meu filho nasceu, o levei até a casa dela para que o conhecesse, mas ao me ver, ela virou de costas, não quis nem olhar para o menino. Me senti culpada por fazê-la sofrer, esse processo de quem vive um relacionamento abusivo, né?

Depois de dois anos, me casei com outro rapaz e tentei me reaproximar dela. Para visitá-la, precisava vestir saia longa, camisa fechada, cortar as unhas, tirar o esmalte e não deixar aparecer nenhum resquício de maquiagem. Ela me recebeu e continuou controlando a minha vida. Todos os dias, perguntava como era o sexo entre mim e meu marido; brigava se eu usasse sutiãs coloridos -- ela só aceitava os beges -- e não permitia que eu vestisse calcinha fio dental. Na rua, quando me encontrava, xingava se me visse com uma roupa que ela reprovava. Até hoje é assim, por isso quando a encontro, atravesso a rua e apresso o passo.

Aos 17 anos, engravidei de novo. Passei todo o resguardo na casa dela. Ai, como me arrependo disso. Às vezes, durante a madrugada, o leite vazava e caía no lençol. Ela me acordava gritando, dizendo que eu era uma porca. Sangrei depois do parto normal e fui humilhada por ela, que tinha nojo do meu sangue. Tentou interferir no nome do meu filho, dizia que eu era uma péssima mãe e falou mal de mim para meu marido e para as crianças.

Meu mais velho é negro. Minha mãe o xingava como fazia comigo, sobre a cor da pele dele, falava do cabelo dele. Disse a ele, inclusive, que ele tinha um problema na cabeça, que era retardado. Demorou para que eu o convencesse do contrário. Meu filho é uma criança, acreditou na avó. Já do meu mais novo, que é mais branquinho e tem o cabelo mais liso, ela não judia. Até demonstra certo carinho.

Há um ano e meio, cortei relações com ela. Conheci o feminismo, aprendi a me amar e a me conhecer mais. Eu estava em um ciclo de abusos difícil de sair. Hoje, uso maquiagem, pintei meu cabelo, uso as roupas que gosto e saí da igreja. Ainda assim, estou mais perto de Deus do que nunca. É doloroso ter uma mãe, mas não ter, ao mesmo tempo. Agradeço a ela por ter me criado e, mesmo com todos esses problemas, a amo. Ainda assim, prefiro ficar longe. Preciso cuidar de mim."

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