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Minha história

"Retirei as duas mamas por causa do câncer e me orgulho das cicatrizes"

Arquivo pessoal
Mariana Milward, 34 anos, retirou sete tumores das mamas Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

03/11/2018 04h00

Aos 24 anos, Mariana Milward descobriu sete tumores malignos nas duas mamas. Submetida a uma mastectomia radical bilateral, ela ficou sem os dois seios. “Minhas cicatrizes ficaram em forma de V, de vitória”. Nesse depoimento, a militar aposentada, hoje com 34 anos, conta sua luta e o processo para resgatar a autoestima.

“Eu tinha 24 anos quando fiz o autoexame das mamas durante o banho e senti um carocinho no seio esquerdo. Na época, eu era sargento do Exército no Hospital de Guarnição da Vila Militar, no Rio de Janeiro. Fiz uma ultrassonografia, mas o exame acusou que era um nódulo benigno. Fui a outro hospital, o médico pediu a biópsia e eu recebi o diagnóstico. Foi devastador.

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Em dois meses, a doença se espalhou rapidamente e eu tive sete tumores malignos nas duas mamas. Eles eram tão pontiagudos que quase perfuravam minha pele e roupa. Entrei em depressão e pensei que fosse morrer.

Arquivo pessoal
No dia em que retirou as mamas, Mariana conta que pediu a Deus que a levasse. "Não aguentava mais de tanta dor" Imagem: Arquivo pessoal

Fiz meu tratamento pelo SUS, um dos diretores do hospital não queria me aceitar. Ele disse que o tipo de câncer que eu tinha era agressivo e que eu estaria tirando a vaga de uma paciente com chances reais de cura. Eu respondi que iria tentar e fiz seis sessões de quimioterapia. Foi uma fase terrível, sentia náuseas e muita dor nos ossos. A cada dia eu ficava mais debilitada. Na penúltima químio foi constatado que os tumores diminuíram de tamanho e eu fui encaminhada para a cirurgia.

No dia da operação, eu me ajoelhei no banheiro do hospital e pedi a Deus para me levar porque eu não aguentava mais de tanta dor. Eu não queria mais viver, só descansar. Falei para ele que se fosse da vontade dele me manter viva eu iria testemunhar, por onde eu passasse, que ele me curou do câncer e mostraria as minhas cicatrizes com orgulho.

Arquivo pessoal
"Demorou um tempo até eu aceitar a minha nova forma", diz Mariana Imagem: Arquivo pessoal

Sem as mamas, entrei em uma crise de autoestima e terminei um namoro

Fiz a mastectomia radical bilateral com esvaziamento axilar sem reconstrução. Os médicos nem cogitaram essa possiblidade. Eles falaram que a prioridade era tentar salvar a minha vida e não focar na parte estética. A cirurgia durou cinco horas e foi bem-sucedida. Três dias depois já estava de alta e, após minha recuperação, fiz 21 sessões de radioterapia.

No início entrei em uma crise de autoestima por estar careca e sem os seios. Ficava triste, me achava feia e evitava me olhar no espelho. Terminei um relacionamento de 15 anos porque achava que meu namorado não gostava mais de mim por eu não ter as mamas. Ele dizia que eu continuava linda, mas eu não acreditava.

Demorou um tempo até eu aceitar a minha nova forma. Pensei nas pessoas que viviam sem um braço, sem uma perna ou até mesmo sem um órgão vital como o rim. Percebi que eu estava viva e era isso que importava. Eu continuaria sendo mulher, vaidosa e bonita mesmo sem os seios. Eu uso um biquíni com enchimento, de blusa nem dá para perceber que fiz a mastectomia. Minhas cicatrizes ficaram em forma de V, da vitória de Jesus sobre a morte.

Psicóloga disse que eu não poderia ter filhos e me aconselhou a criar um cachorro

Durante o tratamento, passei com uma psicóloga que disse que eu não poderia ter filhos por causa do câncer. Ela me aconselhou a suprir essa carência afetiva criando um cachorro ou adotando uma criança. Fiquei arrasada e conversei com a minha mãe, a Bárbara. Ela me contou que quando teve câncer no rim, para a medicina, o quadro dela também não permitiria que ela engravidasse. Ela me encorajou dizendo que assim como ela, eu também seria mãe.

Arquivo pessoal
Mariana ficou grávida do filho, Daniel, em 2014 Imagem: Arquivo pessoal

Tive um filho e estou curada do câncer

Em 2014 a palavra dela se cumpriu e eu engravidei do Daniel. Na época, eu estava namorando com o Wilson, mas nem passava pela minha cabeça que estava grávida. Tinha mal-estar e minha barriga começou a crescer. Por um momento cheguei a pensar que o câncer tinha voltado, mas no útero. Fiz exames e, para minha surpresa, descobri que estava esperando um bebê.

Hoje, o Daniel está com três anos e dedico a minha vida a ele e a inspirar as pessoas com a minha história de superação. Não gosto de ver ninguém triste, se eu vejo alguém chateado na rua, na praia, ou em qualquer lugar, eu abordo a pessoa, dou o meu relato, ofereço minha solidariedade e um abraço.

Passada quase uma década do meu diagnóstico, hoje estou curada. Não tomo medicação, mantenho uma alimentação saudável e faço exames de rotina uma vez por ano. Eu me aposentei pelo Exército e, em 2017, lancei o livro “Você Acredita em Milagre? A Fascinante História da Mulher que com Apenas 24 anos Venceu a Morte, o Câncer, a Amputação, a Depressão e a Esterilidade”.

Participo de corridas e campanhas de conscientização do câncer de mama. Dou testemunho da minha cura em igrejas e eventos e, no final, mostro as minhas cicatrizes, que são as marcas da minha vitória”.