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Mães e filhos

Filhos dormindo na cama dos pais: é um problema ou está tudo bem?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Léo Marques

Colaboração para Universa

29/10/2018 04h00

Motivado por apego, por preguiça ou até mesmo por pena da criança que dorme sozinha, o hábito de dividir a cama com os filhos tem limites. Se o comportamento atrapalha o sono do casal, não contribui para a construção da individualidade da criança ou perdura até sua adolescência, é preciso procurar ajuda médica para que ocorra uma transição tranquila. 

A enfermeira Luana Sales, 35 anos, dorme com o marido e os dois filhos pequenos no mesmo quarto. "Como fico ausente o dia todo, volto exausta e sou muito apegada à minha família. Dormir junto nos aproxima e ainda facilita minha vida, pois se minhas crianças dormissem em outro quarto, eu teria de levantar toda hora, porque eles acordam com frequência", explica. O filho mais velho, de 4 anos, divide a cama com Luana e o marido. Já a caçula, de apenas 8 meses, é mantida em um berço ao lado. 

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Arquivo pessoal
Luana, marido e filho Imagem: Arquivo pessoal

Porém, a enfermeira comenta que essa escolha, apesar de confortável, implica em limitações e deve ser previamente planejada para evitar problemas. "Apesar de ser uma decisão tomada em conjunto, a intimidade do casal fica um pouco limitada. Por isso, quando a bebê completar um ano de idade, colocaremos ela e o mais velho em outro cômodo. Não fizemos isso antes por causa do meu menino, que, se for enviado antes, pode se sentir enciumado", diz. 

Se está tudo bem, mantenha

De acordo com Denise Lellis, pediatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), se a família está feliz com a situação e os pais, além de preservarem sua vida a dois, contribuam para a construção da individualidade da criança, não há com o que se preocupar. "Deixo claro para as famílias que me procuram que só interfiro quando há queixas. Quando não há do que reclamar, essa decisão deixa de ser médica. Agora, se pelo menos um deles estiver infeliz, a situação precisa mudar", esclarece.

Porém, em se tratando de recém-nascidos, a pediatra Denise faz um alerta: "Seja qual for o local onde o bebê dorme ele deve ficar com a barriguinha para cima e deitado só depois de arrotar", explica, pontuando também riscos: "Dormir na mesma cama que o bebê pode ser perigoso, porque o adulto pode não perceber que está perto demais e causar algum desconforto ou até dificultar a respiração do bebê".

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) se posiciona contrária à cama compartilhada, pois, segundo a entidade, a literatura científica associa os altos índices de risco de morte súbita de bebês a esse hábito. Travesseiros, lençóis e até mesmo o próprio corpo dos pais em sono profundo podem resultar em casos de sufocamento.

A enfermeira Luana, porém, se diz precavida. "A minha bebê sempre dorme no berço e, quando acorda, levanto e sento com ela na poltrona de amamentação", assegura.

Dormir com adolescentes não é legal

Gabriela Malzyner, psicóloga do Hospital Infantil Sabará, de São Paulo, explica que faz parte da infância querer dormir com os pais e ser acolhido por eles. Porém, segundo a profissional, com o crescimento da criança vem a individualidade e o desejo de ter um espaço próprio. "É o momento que a criança precisa ter o espaço dela e os pais o deles. Existem famílias que optam por fazer cama compartilhada até o momento em que a criança defina quando quer sair. Acho que se isso funciona em alguns casos, mas deve ser avaliado para não comprometer a autonomia e a individualidade de cada um", explica.

Quanto a adolescentes que dormem com os pais, a psicóloga Gabriela adverte: "Não deve ser concebível a ideia de um adolescente dormindo na cama dos pais, até porque a sexualidade dele já começa a aflorar. Acho que essa é uma reflexão importante. O que leva esse filho a dormir na cama dos pais? Ele se sente seguro? Os pais têm dificuldade de se desapegarem? Ou no fundo esses pais não querem ter uma relação de casal?".

Por isso, na opinião da pediatra Denise Lellis, o melhor caminho é habituar a criança o mais cedo possível à própria caminha. "Se o bebê não apresentar fatores de risco detectados pelo pediatra, ele pode dormir em um quarto separado já no primeiro dia em casa, mas os pais precisam estar preparados. Por exemplo, quando o bebê acordar à noite deve-se evitar ao máximo levá-lo para o quarto dos pais. Prefira investir tempo com ele do que tentar resolver este hábito depois", diz.

Transição tranquila requer empenho dos pais

Para que a mudança entre quartos ocorra de forma natural e tranquila, a pediatra Denise recomenda que, antecipadamente, os pais descansem e façam um acordo. "Pais exaustos não terão sucesso, pois é justamente o cansaço que os faz levar o bebê para a cama deles. Inicialmente é preciso que estabeleçam um acordo para que ambos descansem", orienta.

Depois que o casal estiver preparado, é hora de colocar o plano em prática. "Enquanto um dos pais descansa, o outro fica no quartinho do bebê fazendo-o dormir. Depois, na primeira acordada é a vez do outro pai entrar em cena", explica Denise, que complementa: "O bebê não deve ser atendido prontamente. A família deve esperar alguns minutos para vê-lo e no quartinho não deve usar nenhum tipo de estímulo. Evite colo, fala, luz e até troca de olhares. O bebê deve apenas sentir a presença de um dos pais até se acalmar com o toque. Esse processo deve ser repetido toda vez que o bebê acordar e visa não levá-lo à cama dos pais", conclui. 

Segundo a médica, nas primeiras noites serão muitas acordadas, mas, com o passar dos dias, a tendência é que diminuam até acabar. "Vai ser difícil colocá-los em outro quarto, mas já estamos nos preparando. Vamos ficar lá com eles até dormirem e, caso acordem, repetiremos o processo até se acostumarem", comenta a enfermeira Luana Sales.

Em se tratando de crianças mais velhas, a psicóloga Gabriela Malzyner explica que a transição ocorre mais facilmente quando há diálogo por parte dos pais, que devem proporcionar um ambiente acolhedor para seus filhos, que a partir daí se sentem pertencentes ao próprio quarto e se percebem como parte de outra geração. "Utilizando uma metáfora, sabe quando é que a criança sai do útero? Quando fica apertado. De maneira natural e com muita conversa a criança vai querer o espaço dela", finaliza.