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Pensei em estupro. Perdoei, porque ele foi diagnosticado com sexonambulismo

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Casal conta como superou o sexonambulismo Imagem: iStock

Luiza Souto

Da Universa

27/10/2018 04h00

“Só foi possível perdoá-lo porque, com o diagnóstico médico, descobri que ele fazia aquilo de maneira inconsciente”. Essa é a explicação que o designer Pedro* dá para ter seguido seu relacionamento de cinco anos com o administrador Luiz* que, durante o sono, várias vezes, tentou ter relações sexuais com ele. Há pouco mais de um ano, o casal soube a razão desse comportamento: Luiz tem sexomnia ou sexonambulismo, uma disfunção do sono que faz com que a pessoa queira ou execute atos sexuais enquanto dorme. 

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Pesquisas apontam que o distúrbio atinge 7% da população mundial - 80,6% dos pacientes são homens -  e  que eles não se  lembram, a posteriori, de seus atos. Segundo o neurologista do Instituto de Medicina do Sono de Campinas e Piracicaba, Shigueo Yonekura, esse distúrbio acomete pessoas cujos cérebros, à noite, não "desligam" totalmente as regiões neuronais responsáveis pela sexualidade e ou a afetividade. Segundo o especialista, muitos dos sexonâmbulos se masturbam e perturbam seus parceiros de maneira agressiva.

O distúrbio tem cura. Geralmente, ela é alcançada com remédios e, em alguns casos, com associação de terapia. E, para diminuir a incidência de episódios, os pacientes precisam evitar café, álcool e outras drogas e tente levar o dia com o mínimo de estresse possível.

De acordo com Yonekyura, o sexonambulismo surge na transição entre os ciclos do sono. São eles: o N1 e N2, que são os estágios superficiais, em que você pode acordar com qualquer barulho, N3, que é mais profundo, e o REM (movimento rápido dos olhos, em inglês), onde acontecem os sonhos.

Caso o paciente apresente esse tipo de comportamento, ele deve procurar um especialista em distúrbios do sono. Há medicamentos para isso, que não alteram o dia a dia, garante Yonekura.

O paranaense Pedro, um homem trans de 28 anos, foi quem buscou tratamento para Luiz, de 31. Ele conta que o parceiro acordava no meio da noite “me abraçando vigorosamente”:

“Quando isso acontecia, eu perguntava se estava tudo bem e o chamava pelo nome. Ele só parava, não acordava, e aparentemente voltava a dormir. Ao amanhecer, eu perguntava o que tinha acontecido e ele não tinha memória nenhuma do que havia ocorrido”.

Luiz fala que era assustador não ter essa lembrança e que se sentia muito culpado. “É inaceitável fazer algo contra meu parceiro”, afirma.

“Percebi que ele precisava de ajuda no mesmo dia em que chegou ao ponto de eu qualificar aquilo como tentativa de estupro. Ser abraçado durante a noite é incômodo, mas acordar com seu parceiro fazendo movimentos de cunho sexual em cima de ti? Isso é inadmissível”, diz Pedro.

O sono do casal passou a ser interrompido de quatro a cinco vezes na noite. Isso acabou prejudicando o dia deles, porque estavam sempre cansados. Durante uma época, até dormiram separados. Pedro então foi atrás de um médico para o companheiro.

Luiz fez polissonografia, exame que mede a atividade respiratória, muscular e cerebral durante o sono. O especialista detectou o sexonambulismo e lhe receitou um remédio para cortar os episódios. Ele tomou o medicamento por oito meses e hoje sente que está controlado.

“É uma situação difícil, ainda mais conhecendo as estatísticas sobre estupro. Só foi possível perdoá-lo por saber que ele estava inconsciente. Caso contrário, já teria denunciado e me afastado”, conclui Pedro.

*Os nomes foram trocados a pedido do casal