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Carreira e finanças

Aceitar ganhar pouco para voltar ao mercado é uma boa estratégia?

Getty Images/iStockphoto
Ganhar menos pode ser uma opção boa para minha carreira? Imagem: Getty Images/iStockphoto

Beatriz Santos e Simone Cunha

Colaboração para a Universa

25/10/2018 04h00

Manter-se no mercado de trabalho é um dos grandes desafios diante da crise econômica que atinge o país. E, para não ficar parado, é preciso driblar a situação, muitas vezes, abrindo mão de vantagens.

Uma pesquisa feita pela Robert Half, empresa de recrutamento e seleção, mostrou que 86% dos profissionais desempregados estão dispostos a aceitar uma proposta salarial inferior a do último emprego. “Quando o mercado entra em um momento de crise, a tendência é reduzir custos. Uma das alternativas é diminuir a folha de pagamento”, comenta Maria Sartori, gerente sênior de recrutamento da Robert Half.

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Para Simone Lara Nascimento, 46 anos, que era chefe do departamento de contratos em seu último emprego, aceitar um salário menor foi imprescindível para voltar ao mercado. Ela conseguiu uma vaga de auxiliar de escritório e ingressou na nova empresa ganhando 70% do salário que tinha antes.

“Tive que aceitar o que surgiu porque tenho um filho pequeno e já estava parada há um bom tempo”, diz.

Para ela, submeter-se a um cargo inferior não é nada fácil. “Abri mão da minha vida social e quase perdi o meu carro. Mas pelo menos ganho alguma coisa. Às vezes, me sinto deprimida, porque ficou impossível manter o mesmo padrão de vida. Mas continuo mandando currículo e tentando me recolocar em minha área”, afirma.

Passinho para trás

De acordo com Maria Sartori, em situações como a que enfrenta o Brasil, pode ser necessário dar um passo para trás para depois avançar novamente. Ela explica que, ao aceitar a proposta com salário inferior, o profissional deve avaliar que terá de esperar um tempo, que pode passar de um ano, para recuperar o status anterior. “É importante estar preparado financeiramente e emocionalmente para enfrentar essa fase”, declara.

É justamente nessa etapa que se encontra Viviane Gomes dos Santos, 38 anos, assistente comercial. Após ficar parada por quase um ano, ela aceitou trabalhar como secretária, ganhando R$ 1.000 a menos. “Tive que abrir mão de compras, idas ao salão, ou seja, todos os supérfluos foram cortados. Meu dinheiro precisa ser contado para as coisas essenciais”, diz. Ela explica que insistiu para se manter em sua área de atuação, mas acabou cedendo porque não conseguia recolocação: “O pior já passou, mas gostaria muito de recuperar a minha antiga posição. Só não posso meter os pés pelas mãos”. 

A supervisora de assessoria de carreira da Catho, Luana Marley, diz que é importante que o profissional tente não passar por essa fase desmotivado.

“Mesmo que não seja o seu melhor momento, procure dar um gás e aproveite que já não está mais desempregado. Fora do sufoco, fica mais fácil se reorganizar”, afirma.

Além disso, ela sugere que o profissional fique atento aos feedbacks, mantenha uma boa sintonia com o gestor e procure entregar tudo que é solicitado. Dessa forma, quando for negociar uma promoção ou um aumento salarial, terá argumentos a seu favor.

O momento da virada

Aceitar um salário menor não significa permanecer com ele. Maria Sartori ressalta que a situação deve ser encarada como temporária e que é preciso lembrar-se que o último cargo/salário não foi conquistado no primeiro dia de empresa. “Entre sabendo da necessidade de ter um ciclo novo e aproveite ao máximo essa oportunidade”, diz.

Para Luana, é importante analisar quanto tempo consegue se manter nessa posição e planejar sempre o futuro. “Não perca de vista o planejamento, aonde deseja chegar com a sua carreira, para não se desmotivar”, alerta a supervisora da Catho.

Foi pensando lá na frente que Samanta Romano, 30 anos, assistente de marketing, aceitou um emprego de vendedora em shopping: “Encarei a fase como um aprendizado”. Ela ficou um tempo nessa função até conseguir retornar para a área, ainda assim, com um salário defasado.

Após um tempo, em um evento, recebeu o convite para coordenar a área de marketing de um hospital. Daí, começou a sua retomada. Hoje, Samanta tem sua própria empresa: “Tudo nessa vida é válido. Temos que dar o primeiro passo e não ter vergonha de receber um salário menor, mas com a confiança de que conseguiremos nos recuperar”.

Melhor em movimento do que parado

O advogado Miguel Machado, especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), lembra que, ao estar no mercado, há sempre uma chance de mostrar o seu valor: “Nada como ter paciência para aceitar a condição atual, sujeitar-se a algumas dificuldades e ter em mente que a situação é reflexo de uma crise global e não propriamente um problema com a sua formação e competência”.