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Rejeição: o sentimento nem sempre real que pode estar atrapalhando sua vida

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Nem sempre é possível evitar esse sentimento amargo, mas dá para aprender a lidar melhor com ele Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

23/10/2018 04h00

Todos nós, em algum momento, enfrentamos algum tipo de rejeição. Talvez estejamos sofrendo por isso agora mesmo. E, infelizmente, ainda vamos passar por mais algumas ao longo da vida. Não é possível evitar esse sentimento, mas dá, sim, para aprender a lidar melhor com ele --inclusive com situações de rejeição que aconteceram há muito tempo.

Não dá para desprezar o fato de que a rejeição é uma das feridas emocionais mais profundas e difíceis de lidar. "Quem sofre com ela pode interpretar tudo o que acontece ao seu redor por meio do filtro da sua ferida, se sentindo rejeitado em situações em que, na verdade, não é", comenta Cristiane Moraes Pertusi, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela USP (Universidade de São Paulo).

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Na infância, a rejeição pode repercutir na idade adulta. Muitas crianças, num processo de "fuga", inventam um mundo imaginário para poderem dar conta da realidade. E, embora a gente associe a rejeição a desprezo ou indiferença, a superproteção também é compreendida como desdém. "Ela tem uma faceta superficial mascarada de amor e leva a criança a pensar que não é aceita como é. A mensagem que chega a ela é de que suas capacidades não são válidas, portanto, são rejeitadas, e por isso ela precisa ser protegida", explica Cristiane.

Já a psicóloga Marli Tagliari, que também atua como terapeuta de casal e de família, de São Paulo (SP), aponta como exemplos situações em que um filho se sentiu preterido em relação a um irmão, crianças que foram levadas para adoção, meninos e meninas que foram muito criticados e receberam poucos elogios, entre outros.

"São crianças que podem desenvolver marcas profundas e duradouras na autoestima, resultando em isolamento, pessimismo, sensação de fracasso, insegurança e retraimento social. A agressividade contra si ou contra o ambiente pode aparecer em alguns casos", pontua. Ela explica que a falta de confiança em si mesmo, geralmente por ausência de espelhamento dos pais ou adultos cuidadores, solapa a autoestima do indivíduo, que passa a buscar o reconhecimento do outro a qualquer preço, contribuindo cada vez mais para a rejeição que deseja evitar.

Uma dor com vários rostos

De acordo com Cristiane Pertusi, existem dois tipos de rejeição: a exterior e a interior. A rejeição exterior é aquela que sofremos nos diversos grupos sociais como a escola, entre os amigos, no trabalho ou até mesmo na família. Às vezes, não conseguimos evitá-la. "Ela pode contribuir muito para a rejeição interior, embora não seja a única razão. A rejeição interior está em nossa mente; ela é um complexo gerado por inúmeras experiências negativas que nos levam a acreditar que merecemos ser rejeitados. Esse sentimento tóxico é o mais difícil de eliminar, pois abala o emocional e faz a pessoa se isolar e a desenvolver autocomiseração", fala a especialista.

Algumas pessoas são mais suscetíveis ao sentimento de rejeição do que outras. Na verdade, o que as difere das demais é a maneira de lidar. Como parte da nossa personalidade é formada a partir das feridas emocionais sofridas na infância, algumas vão tentar buscar a perfeição e o reconhecimento alheio a todo custo. E só vai conseguir quebrar esse padrão quando compreender, através de muito autoconhecimento ou terapia, que a resposta está nela mesma, não nos outros.

"Nenhuma rejeição é boa, o que muda é que muitas vezes aqueles que nos rejeitam não têm tanto valor para nós. Sendo assim, não nos atingem de forma dura porque não damos atenção ao que está ocorrendo. Algumas pessoas lidam melhor com a rejeição por serem mais decididas e seguras e não valorizam o acontecimento", observa o psicólogo Yuri Busin, diretor do CASME (Centro de Atenção à Saúde Mental Equilíbrio), de São Paulo (SP).

Yuri conta que pessoas mais inseguras, solitárias e/ou com baixa autoestima podem ser suscetíveis a sentir mais fortemente a rejeição do outro. "Em alguns casos, vão se perguntar o que fizeram de errado, colocando a culpa inteira sobre si e se machucando diversas vezes por não descobrirem a resposta", esclarece. Outras "vítimas" são aquelas que dão excessiva importância à opinião e ao interesse dos outros, com a crença de que com essa atitude não serão abandonadas. É comum fugirem de relacionamentos --rejeitam antes de serem rejeitadas.

Há casos, ainda, em que a rejeição pode ser apenas uma "fantasia". Algumas pessoas não aprenderam a lidar com frustrações ou até mesmo a ouvir um “não”, segundo Yuri, o que as leva a interpretar essas circunstâncias como uma forma de rejeição. Muitas contam histórias diferentes dos fatos e se vitimizam em algumas situações. Na opinião da psicóloga Marli, o passado interfere na compreensão do presente.

"Por exemplo: não ter sido convidada para uma festa do amigo da sua melhor amiga pode desencadear um sentimento de rejeição, mesmo que ir à festa não lhe faça nenhum sentido. Ou, ainda, ligar para alguém para conversar e confundir o fato de a pessoa não poder ter lhe dado a atenção que esperava, por estar ocupada ou algo assim, com rejeição", conta.

Para todo mal há cura

Para Luiz Scocca, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), nem toda rejeição faz mal. "Imagine uma rejeição em uma prova de admissão ou numa entrevista de emprego. É chato, mas são oportunidades de ouro para o crescimento pessoal. Com um pouco de reflexão, você pode ser dar conta de que foi rejeitada por um grupo que, pensando bem, não tem nada a ver com você. Em muitos casos, quem a rejeitou pode ser uma pessoa tóxica que, na verdade, lhe fez um favor ao dar fim a tal sofrimento", exemplifica.

Para o especialista, é importante não confundir diferentes gostos ou ideias com gostar ou não de você. "Eu posso não gostar do seu chapéu, torcer para um time diferente do seu, ser de direita ou de esquerda e nem por isso estou rejeitando você. E posso gostar de você, mas não querer namorar você. Ninguém é obrigado a sentir o mesmo ou retribuir", avisa. Entender isso pode ser libertador.

Não há como deixar o passado para trás sem perdão. E, por outro lado, não há como perdoar sem aceitar o problema com parte de si. "A rejeição deve ser elaborada para ser superada, e não evitada", atesta Marli Tagliari. Então, o primeiro passo é admitir que a sensação de rejeição existe e depois se perdoar pela forma como vem tratando a si mesma até agora. "E, na sequência, perdoar os demais, porque as pessoas que a feriram provavelmente também passaram por uma experiência profunda de dor", diz Cristiane, que aconselha a começar a se tratar com amor e se priorizar. "Embora não possamos apagar o sofrimento vivido no passado, sempre podemos tratar nossas feridas até que sua dor desapareça ou, pelo menos, cicatrize", completa.

Segundo Marli, é sempre bom examinar a ferida com cuidado e questionar: o que você realmente perdeu? Não permitir que a dor a consuma e colocar o foco em algo construtivo também são boas dicas. Se você viveu ou está enfrentando uma rejeição recente, tenha paciência e acredite que a tristeza vai passar. Geralmente, a tristeza aguda perdura nas primeiras 24 horas. "Em vez de 'curtir' a dor da rejeição ou ficar remoendo o quanto doeu, pense de forma ativa até encontrar um jeito de lidar com a situação numa próxima vez", sugere Marli.