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Minha história

"Tive um câncer de mama grávida: tirei um peito, fiz quimio e amamentei"

Arquivo pessoal
Bia Frecceiro e a filha, Louise Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

23/10/2018 04h00

Um mês após descobrir que seria mãe pela terceira vez, a bancária Bia  Frecceiro 33, recebeu o diagnóstico de que estava com câncer de mama. "De um lado, eu tinha um tumor crescendo no meu peito querendo me matar; do outro, eu estava gerando uma vida no meu ventre". Aconselhada por um médico a abortar, ela seguiu em frente com a gravidez e, durante a gestação, tirou a mama direita, fez quimioterapia, deu à luz Louise e amamentou a filha com um peito. 

"Eu já era mãe do Matheus, de 10 anos, e do Daniel, de oito meses, quando descobri que estava grávida da Louise. No início, tomei um susto, mas depois fiquei na expectativa de realizar o meu sonho de ter uma menina. Amamentei o Daniel por mais um mês, mas, do nada, ele largou o meu peito. Eu massageei o seio imaginando que fosse leite empedrado e senti uma bolinha bem dura. Marquei médico, fiz os exames e, um mês depois de saber que seria mãe pela terceira vez, recebi a notícia: tinha um tumor maligno na mama direita.

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O médico disse para eu interromper a gravidez, mas eu não podia matar a minha filha para salvar a minha vida

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Meu obstetra me tranquilizou dizendo que a doença tinha cura, que eu ia me tratar e ficar bem. Fui a um mastologista, expliquei o meu caso, mas ele disse que eu teria que interromper a gestação. Ele me falou que o tumor poderia se espalhar pelo corpo por causa dos hormônios da gravidez, e que eu não tinha como continuar grávida e com câncer. Fiquei triste, fui embora e nunca mais voltei ao consultório dele. Eu não cogitava a possibilidade de abortar; não podia matar a minha filha, sacrificar a vida dela para salvar a minha. Nós duas tínhamos o direito de viver. 

Procurei a opinião de um segundo mastologista: desta vez, um profissional que tratava mulheres diagnosticadas com câncer durante e depois da gravidez. Ele disse que eu poderia manter a gestação, fazer o tratamento e que isso não acarretaria nenhum problema para mim nem para a minha filha. Era uma sensação única. Ao mesmo tempo que eu tinha o câncer, com aquele lado sombrio da morte, eu tinha uma vida dentro de mim. A Louise já me dava forças mesmo antes de nascer. 

O câncer tentou tirar a minha feminilidade: perdi o peito e os cabelos, mas não a fé

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Com três meses, eu fiz a mastectomia radical na mama direita com esvaziamento axilar. Eu não me importei de ter ficado sem um peito, eu usava uma prótese mamária removível, o que mais me incomodava eram as dores do pós-operatório. Nessa época, minha mãe, a Cristina, se mudou para a minha casa. Ela e meu marido, o Jonathan, me ajudavam nas tarefas domésticas, no preparo da comida e no cuidado com os meus filhos. Eles me apoiaram e ficaram do meu lado o tempo todo. 

Um mês depois comecei as sessões da quimioterapia vermelha, fazia uma a cada 21 dias. Apesar de ser a mais agressiva, praticamente não tive nenhum efeito colateral. Fazia a químio em um dia, ficava um pouco cansada, mas no outro já estava de pé organizando o chá de bebê e o enxoval. 

Uma das coisas que me abalaram durante o tratamento foi a queda do meu cabelo, que era loiro e comprido, na altura da cintura. Teve uma vez que eu estava sentada no sofá com o Daniel, ele passou a mão no meu cabelo e caíram tufos. No dia seguinte, eu fui ao salão. Para me apoiar, meu marido raspou a cabeça. Depois, a cabeleireira passou a máquina zero em mim. Até tentei usar peruca e lenço, mas eu não me reconhecia. Assumi minha careca. No começo, achava que as pessoas diziam que eu estava bonita por dó, mas percebi que era verdade. Descobri uma nova beleza e passei a curtir o meu novo visual.

O câncer tentou tirar a minha feminilidade de todas as formas. Fiquei inchada, perdi um peito, meus cabelos, meus cílios, minhas sobrancelhas, mas ele não tirou o principal, a minha fé e alegria em Jesus Cristo.

Louise nasceu saudável e a amamentei com um peito por 25 dias

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A Louise nasceu de parto normal no dia 24 de janeiro de 2018, linda e saudável. Consegui amamentá-la com um peito só. Confesso que foi difícil desmamá-la precocemente. Eu precisava fazer isso para voltar a tomar a quimioterapia. Eu sabia que na hora que a tirasse, nunca mais ia amamentar um filho de novo. Eu chorava de soluçar. Eu acho que ela sentiu tanto que ela mesmo largou o meu peito.

Após o nascimento dela, dei continuidade ao tratamento: fiz 16 quimioterapias brancas, fui submetida a uma mastectomia preventiva da mama esquerda e fiz a reconstrução dos dois seios. Atualmente, faço hormonioterapia, e a cada três meses realizo exames para ver o se o tumor não voltou. Daqui a alguns meses, vou retirar os ovários, as trompas e o útero por prevenção.

É possível lutar contra o câncer grávida e vencê-lo

Em todo esse processo, eu tive meus momentos de tristeza, mas eu não me permitia sentir pena de mim. Não podia me entregar nem ficar na cama chorando. Ninguém escolhe ter um tumor maligno, mas a gente pode escolher como encará-lo. Eu escolhi viver com otimismo, sorrindo e cantando. Sei que Deus me curou com o propósito de eu levar amor e esperança para as mulheres e mostrar que é possível lutar contra o câncer grávida e vencê-lo".

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