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Violência contra a mulher


Sem vergonha de falar sobre violência: na Fazenda, Luane descreve agressão

Reprodução/PlayPlus
Luane fala sobre a sua vitória na prova do fazendeiro Imagem: Reprodução/PlayPlus

Ana Bardella

Colaboração para Universa

19/10/2018 04h00

“Violência doméstica foi algo que marcou muito a minha vida, e toda vez que eu vejo o Rafael atacando alguma mulher, ele traz de volta todo o fardo que eu levo”: foi assim que Luane Dias, participante da Fazenda, justificou seu voto em Rafael Ilha – que já foi acusado de ter uma postura machista por outras mulheres da casa, como Gabi Prado e Perlla. O cantor se defendeu afirmando que se tratava de um assunto sério, que foi criado pela mãe e que vive com sua filha e mulher.

O que chamou atenção, no entanto, foi a coragem de Luane Dias. A youtuber revelou ao vivo que veio de uma família em que os ciclos de violência se repetiram, alegando que já presenciou a avó apanhar do avô, a mãe do pai e foi além: disse que não tinha vergonha de admitir que ela própria já havia apanhado de um ex-namorado. Infelizmente, Luane não está sozinha. Dados da Segurança Pública revelam que somente no ano passado, 221.238 casos de violência doméstica foram registrados no Brasil, uma média de 606 queixas por dia.

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“A incidência é alta, principalmente se levarmos em consideração que nem todas as mulheres conseguem romper com o silêncio e pedir algum tipo de proteção”, observa Márcia Vieira, coordenadora do curso de Serviço Social da UNISUAM e integrante da equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que atende casos de violência doméstica e sexual. Para a especialista, ciclos familiares como o de Luane são comuns, uma vez que as agressões acabam sendo banalizadas. “Nesses relacionamentos o papel de submissão feminino é naturalizado e pode acabar se repetindo nas próximas gerações”, diz.

Vergonha e outras barreiras

Há quem não compreenda a dificuldade da vítima em denunciar o agressor. Márcia, no entanto, explica que são diversos os fatores envolvidos nessa decisão. “Muitas mulheres não conseguem contar nem para a família, pois os homens ameaçam desqualificar seu discurso, alegando que são loucas ou ciumentas. Alguns agressores são figuras muito queridas e usam disso para afirmar que ninguém vai acreditar na denúncia”, pontua. Além disso, a dependência financeira, o medo de perder a guarda dos filhos e até ameaças aos outros parentes podem fazer com que as vítimas permaneçam na situação de risco por mais tempo. O apego emocional é também um fator a ser levado em conta, já que muitos agressores prometem mudar e muitas de suas parceiras são levadas a crer que isso possa acontecer.

Em briga de marido e mulher, é papel do Estado meter a colher

“É obrigação do governo proteger e cuidar da vítima, e também oferecer algum tipo de suporte ao agressor, para que a situação não se repita”, enfatiza Márcia. Na visão da coordenadora, graças à visibilidade que o feminicídio ganhou nos últimos tempos, a sociedade passou a ser mais ativa na proteção às mulheres. “As pessoas entenderam que as brigas entre parceiros podem levar ao óbito. Não dele, mas delas”, ressalta. A especialista diz ainda que a informação e o apoio são decisivos para que muitas vítimas rompam com o silêncio. “Ao entender que se trata de uma violência de gênero, receber orientação jurídica, suporte emocional e conhecer as instâncias que podem ajudá-las, muitas mulheres finalmente conseguem se libertar”, completa.